O medo da imortalidade
Alexandre Gomes
O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man) que estreou nos cinemas
brasileiros esta semana traz uma edulcorada adaptação de dois contos de Isaac Asimov,
como todos já devem ter lido à exaustão em milhares de textos sobre o filme. Um dos
contos preferidos do próprio Asimov, O Homem Bicentenário fica bastante diluído dentro
da trama da novela "O Homem Positrônico" na adaptação cinematográfica.
Há dois enredos concorrentes dentro da trama, motivada pela mistura
das duas histórias. A idéia de um robô lutando para ser reconhecido como humano - o
enredo de The Positronic Man - é hoje mais ou menos rotineira (embora não o fosse quando
Asimov escreveu a história em 1976).
A discussão sobre o status dos robôs já surge com o nascimento da
palavra em uma obra do início deste século e, evidentemente, há ali uma discussão
também sobre o que significa ser "humano". Certamente a versão mais importante
deste enredo está em Blade Runner, filme que certamente desenvolve muito melhor o tema
que o filme de Chris Columbus.
E não é para menos, afinal Asimov fazia questão de fazer os seus
textos serem o menos aproveitáveis possível para o cinema, ao contrário de tantos
autores de hoje. Assim qualquer adaptação cinematográfica da obra deste Balzac do
Sci-fi já conta de cara com a má vontade do autor.
Mas há um outro tema no enredo que quase passa desapercebido, embora
seja o conteúdo principal do conto que dá nome ao filme: o horror à imortalidade. No
conto um homem que gradativamente se torna "artificial" pela substituição de
seus órgãos e tecidos luta para morrer porque a dor de estar sempre perdendo as pessoas
próximas, de viver em um passado distante, de se sentir a única coisa estática em um
mundo em constante mudança é um peso excessivo para ser carregado.
No filme esta temática quase desaparece, fica a impressão que para o
protagonista ser reconhecido como humano é mais importante do que viver. O fardo tedioso
da imortalidade tampouco é um tema novo, embora Asimov o tenha trazido do reino da
mágica para o da realidade cotidiana - realidade que por sinal está muito próxima.
Borges refere-se ao tema inúmeras vezes, a mais destacada dos quais
deve ser no conto "Os Imortais" no qual a eternidade é uma eterna monotonia no
qual a única esperança é encontrar um meio de morrer. Curiosamente parece que os dois
autores, tão contemporâneos e tão diferentes, tiveram a inspiração numa mesma fonte:
"As viagens de Gulliver" de Jonathan Swift.
Em um dos lugares visitados pelo autor existem homens que são
incapazes de morrer. Não são semi-deuses ou heróis, mas antes seres solitários e de
mau-agouro, distantes dos seus contemporâneos com os quais são incapazes de se comunicar
tanto pelas mudanças da linguagem quanto pela de costumes.
Em Borges a referência é clara, é óbvio que ele está se remetendo
ao texto de Swift como indicam várias pistas ao longo do texto e no próprio prólogo da
obra. Em Asimov ela é menos evidente, mas Não menos presente. Asimov era um ávido
leitor e admirador de Swift, há inclusive uma versão das "Viagens" comentada
por ele e escrito pouco após o lançamento de "The Bicentennial Man".
Mas em uma produção destinada ao grande público seria mesmo pouco
provável que um tema tão lúgubre, tão distante da eterna ambição do homem pela
imortalidade, tivesse demasiada importância. Talvez por saber destas tendências
simplificadoras do cinema Asimov tivesse tanto horror a ver seus filmes transformados em
livros.
Há contudo um grande mérito no filme. É talvez um dos poucos filmes
de ficção científica dos últimos tempos no qual os efeitos especiais desempenham um
papel tão pequeno, secundário mesmo, em relação ao roteiro. O diretor parece ter
acertado em apostar mais na força da história do que na parafernália eletrônica que,
em muitos casos, é o único atrativo de algumas produções recentes do gênero.
Infelizmente ao fazer isto acrescentou uma certa dose de pieguice da
qual o filme poderia prescindir, mas que Não torna a adaptação tão desagradável a
ponto de não poder ser assistida. Certamente o filme decepciona os fãs do gênero que
associam ficção científica com cenários futuristas ou rocambolescos episódios de
ação enfeitados com computação gráfica, mas estes adereços em geral tem como
principal finalidade disfarçar a falta de um enredo, o que Não é o caso de "The
Bicentennial Man".