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Resenhas de Babel: Cultura, Literatura, Filosofia e outros assuntos chatos

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O berço do herói

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Alexandre Gomes

"Eu vos afianço, homens que me mandais à morte, que o castigo vos alcançará logo após a minha morte e será muito mais duro que a pena capital que me impuseste" (Sócrates, em discurso aos que o condenaram)

Com este mesmo título, Dias Gomes nomeou uma peça de teatro que depois serviria de base à sua famosa novela Roque Santeiro. A base do enredo já havia sido fornecida antes por Euclides da Cunha, que em Os Sertões fala de um certo cabo Roque dado como morto durante uma patrulha na Guerra de Canudos e que depois revela-se um covarde que havia fugido.
Mas a idéia deste artigo é falar sobre outra coisa, só de leve relacionada ao tema da peça do dramaturgo brasileiro: a estranha relação dos gênios com a comunidade que os cerca. Como está fartamente documentado, raros gênios são considerados como tal pelos seus conterrâneos e contemporâneos.
A ditadura da mediocridade em geral prefere louvar algum medíocre e odiar os que tem talento e a figura de Sócrates condenado ao envenenamento é quase um arquétipo deste papel. Com precisão o pensador grego vaticinou que ao invés de o marcarem com o opróbrio da condenação, condenariam a si mesmo à eterna vergonha de terem assassinado um gênio.
Michelângelo carregou por toda a vida a cicatriz no rosto que lhe foi feita por um colega invejoso de quem o pintor zombará com a calma ironia da genialidade. A marca serviu-lhe como um estigma da genialidade cofrontada com a mediocridade da massa e um verdadeiro sinal da inveja que provocaria nos seus contemporâneos por toda a sua vida.
Só para citar mais um caso, dos inúmeros que poderiam ser citados, menciono a estranha relação do escritor alemão Thomas Mann com Lubeck. Por ocasião da publicação do romance Os Buddenbrook (1901), Mann não só tornou-se persona nom grata na cidade alemã como quase foi linchado e precisou sair da cidade às escondidas. O motivo foi o retrato sem retoques da hipocrisia tediosa da sociedade local.
Pouco antes de morrer, contudo, Mann foi convidado a voltar à cidade como convidado de honra para, pasmem, receber o título de Cidadão Honorário em festejada homenagem que incluiu a inauguração da "Budenbrookhaus", praticamente um museu em sua homenagem.
O episódio de Mann, que por sinal serviu de inspiração para este artigo, revela o quanto de temor existe neste ódio do vulgo ao talento. Queiram ou não os medíocres, a história, e em especial o conhecimento, é obra destes talentos e embora sejam odiados a multidào, a turba, sempre é obrigada a reconhecer isto.
Mais do que reconhecer, é comum que a turba acabe por idolatrar a obra póstuma daquele a quem odiaram em vida. Só para se concentrar em um pequeno período da história, os nomes de Dante, Maquiavel, Michelangelo, Da Vinci e Galileu estão hoje indissoluvelmente ligados à Renascença Italiana, contudo nenhum deles escapou do ódio de seus contemporâneos, da perseguição dos poderosos e do exílio.
Mas certamente não se verá nas ruas de Florença nenhuma referência aos que movidos pela inveja os perseguiram, certamente nenhum monumento será erguido àqueles que inflamaram a turba contra estes homens. No máximo se lista os nomes dos detratores do talento no rol dos infames, como se eles isolado tivessem tentado humilhar os talentosos e não como se fossem o que de fato eram: porta-vozes da mediocridade.
Ao analisar o peso das reputações dos generais e guerreiros na definição de uma batalha, o pensador árabe Ibn Khaldun - outra vítima das intrigas dos invejosos que o obrigaram a passar a vida toda fugindo de cidade em cidade e até se escondendo no deserto - diz que o valor delas é nenhum, em especial quando se trata de pessoas vivas.
Ele avalia que as reputações podem ser facilmente compradas por um punhado de ouro (hoje certamente o item sofreu deflação) e que os únicos que não tinham interesse nos panegíricos eram os homens realmente dotado de valor.
Sofrer com a inveja - e mesmo o ódio - de seus contemporâneos e conterrâneos é como um tributo cobrado a quem realmente tenha talento, un instrumento para burilar seu talento, conter sua vaidade, dirigi-lo para o que é realmente importante ao invés de ter preocupações com as vãs glórias instantâneas.

Alexandre Gomes é editor do PRIMEIRA PÁGINA


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São Carlos, Terça-feira, 29 de Fevereiro de 2000

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