Sentados
na ante-câmara de acesso ao gabinete da Balbina Silvão, um
grupo de lacaios aguarda impacientemente, interrogando-se sobre a razão
de tão súbita convocatória.
-
"Cá pra mim, isto trás água no bico. Ultimamente
tenho-a visto muito ensimesmada. Não fala a ninguém e passa
muito tempo fechada no gabinete. E vem sempre muito tarde." - diz um
lacaio mais íntimo.
-
"Lá estás tu com as tuas visões pessimistas"
- atalha uma lacaia mais optimista - "Como a caçada aos
gambuzinos correu bem, ela chamou-nos para nos dar um lai si!...."
-
"Não querias mais nada?! E logo ela!..." - comenta outra.
E
a discussão prossegue, em tom surdina, durante mais algum tempo.
Por fim, cansados de tanto especular, calam-se e entregam-se a profundas
meditações sobre a crise económica e a desvalorização
do pepino.
Nisto
aparece a Balbina em pessoa à porta do gabinete.
-
"Entrem e sentem-se. Com que então queres um lai si?! Não
te chaga o taxo que te arranjei, ó Ténica-das-Leis?!...Mas
lá por isso pega lá um pepino que te pode servir para muita
coisa. Aproveita-o bem! "- diz a Balbina, deixando todos os lacaios
surpresos com esta observação : Como é que ela sabia
do comentário? Tinham falado em voz muito baixa e não estava
ninguém presente. Ó diabo!... Querem ver que ela tem microfones
na ante-câmara?!
Apreciando
com satisfação o espanto manifesto dos seus lacaios, Balbina
elucida :
-"
Vocês já deviam saber que eu sei tudo!... E vejo tudo!...
- e apontava um painel de monitores de vídeo e gravadores que estava
montado ao lado da sua secretária. - Até sei que tu vais
ler para a casa de banho, ó Apelidada! E já agora, ó
Ténica-das-Leis, eu não te pago para passares a vida nas
fofoquices e a ler a Maria e a TV Guia!... Mas não vos chamei aqui
para discutir como é que vocês passam o tempo. Isso
fica para outra vez. O assunto é outro. O que é que vocês
sabem sobre turbulência?"
Sem
tempo para se refazerem da terrível descoberta de estarem a ser
vigiados por câmaras e microfones ocultos, os lacaios balbíbicos
permanecem em silêncio, enterrados nas cadeiras e com os olhos postos
nos pés. Por fim, Lascari, mais atrevido, quebra o silêncio
para protestar :
-
"Desculpa lá Bina, mas ... a que propósito mandaste instalar
esse sistema de vídeo?... Acho que ..."
-
"Tu não achas nada!" - interrompe a Balbina, olhando-o de tal modo
que parecia que o queria fuzilar - "Eu não te pago para achares
o que quer que seja! Tu vieste para o Pepino para fazer o que eu mando
e mais nada, percebes? E não para pensar, entendes?... Quanto ao
sistema de vídeo é apenas uma questão de segurança.
E não admito mais nenhum comentário! Vamos mas é ao
que interessa. O que é que tu pensas sobre turbulência?"
-
"Não penso nada! Tu não acabas de dizer que eu não
posso pensar?!...Então não penso!..." - riposta o Lascari,
pondo-se de pé e preparando-se para sair.
-
"Ó Lascari, querido!" - diz a Balbina em tom apaziguador
- "Por quem és. Eu estava a brincar, filho! Senta-te, senta-te!...Então?...Já
não percebes quando eu brinco?... Tu ultimamente andas muito irritadiço,
Lascari. Vá lá, deixa-te de coisas.... Vá, diz lá
o que pensas sobre turbulência."
-
"Turbulência?...Turbo...lência..." - repete Lascari
enquanto se dirige para a cadeira. - "Olha Bina, ainda há pouco
provocaste muita turbulência. Mas por que é que perguntas
isso?... "
-
"Eu explico" - diz a Balbina - "É que utilizei o termo
turbulência para caracterizar a nossa postura cultural no Pepino
e o Grande Chefe deu-me um raspanete. Mas afinal que mal tem? É
ou não verdade que provocamos alguma agitação
cultural? ... Pela positiva, claro está!... Longe de mim de estar
a insinuar que somos uns quaisquer agitadores e desafectos dos verdadeiros
valores culturais."
Após
alguns minutos de silêncio, a Ténica-das-Leis intervêm
:
-
"Ó Sr.ª Doutora, de acordo com os normativos ténico-jurídicos
e tendo em consideração o contexto meteorológico,
a Sr.ª Doutora não cometeu nenhum abuso ou revelou negligência
na utilização do termo turbulência. Toda a gente sabe
que o Pepino é muito turbulento, sujeito a violentas rajadas de
vento. Diria mais e com toda a propriedade, que a utilização
metafórica da turbulência é perfeitamente adequada
no que concerne à cultura da batata e das cebolas...."
-
"O quê?!! Que estás para aí a dizer ?" - pergunta
a Balbina surpreendida com a diarreia lógico-jurídica da
Ténica-das-Leis - "Mas tu estás cada vez mais idiota!...
A húmidade faz-te mal ao miolo!...E se fosse só tu, ainda
vá que não vá. O pior é que nenhum de vocês
percebe nada de turbulência!...Que bando de ignorantes !... Estou
bem arranjada com vocês!... Ponham-se na alheta que já não
tenho paciência para vos aturar. Que mal fiz eu para ter assessórios
tão idiotas ?!!!... Vocês só servem mesmo para abocar
gambuzinos!...Ponham-se n´alheta, já!..."
Os
assessórios balbínicos saem apressadamente às
arrecuas, fazendo vénias até ao chão. Agitando as
suas banhas, Balbina liga a ventoinha, senta-se à secretária,
agarra na sua MontBlanc e desata a escrever de forma turbulenta um ensaio
turbulento sobre a turbulência físico-socio-político-económico-cultural
no Pepino.
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