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Balbinices IX
Quero, Mando e
Posso
O Poder é
meu...
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Balbina
inicia a sessão fazendo a saudação de braço
direito levantado e mão estendida, virada para o sentido da bandeira,
cantando a plenos pulmões: "Quero... posso... mando. O poderr é
meu. Quero... posso... mando. O poderr é meu. Quero... posso...
mando. O poderr é meu. Quero... posso... mando. O poderr é
meu. O poderr é meu. O poderr é meu"
Terminada a cantilena a solo, reina o maior silêncio na assistência. Balbina deixa o silêncio pesar durante alguns minutos. Por fim, arrota : - Eu quero. Eu posso. E mando. Sou a maior. Eu mando, eu quero e posso. Eu quero, eu posso e mando. O poder é meu. Nem
um arrastar de cadeiras, nem um suspiro. O silêncio é a resposta.
- Tu, aí! Faz o pino. O quê ? Recusas?!... Levas já com um processo disciplinar em cima. Faz o pino!...Já!!!. Ahh... Assim é que é... Gosto muito de ver gente obediente. Espantoso o esforço da desgraçada para se manter em pino. É salva pela parede à qual encosta os calcanhares, enquanto a sua cabeça vai ficando vermelha da humilhação e do sangue que lhe desce. Mas aguenta, pensando na árvore do cacau e em vingança futura. Nem um mosquito se ouve. O silêncio nunca foi tão pesado. Dir-se-ia que, de repente, a gravidade da Terra passou a ser igual à de Júpiter. Balbina
aprecia o silêncio, e volta-se para outro alvo :
Três energúmenos do bando dos Pirulitos agarram o teimoso depois de lhe aplicarem uma mocada na tola para ficar a sonhar que está numa democrácia. E lá o levam de rastos para as masmorras balbínicas. Balbina não conseguia disfarçar o intenso prazer sádico que estava a sentir. Os seus olhos entraram em órbita rebolando com o violento orgasmo que acabava de ter. Aperta os lábios com força, de tal modo, que a boca mais parece uma facada dada numa melancia. Recompõe-se a custo. Volta-se para os presentes e inicia uma longa arenga em tom alterado. - A lição serviu?...Querem mais? .... Já está claro quem manda aqui?.... Ainda não?... Tu aí, sim tu! Assina aí esse papel em branco. Já! .... O quê?.... Dizes que não assinas e queres ordem por escrito?... Ai, ai, aiii ... Temos mais uma desafecta às instituições vigentes!... Mas eu já te digo.... Mas vocês não aprendem de uma vez por todas que QUEM MANDA AQUI SOU EU!... O quê? Que estás para aí a dizer ? Que vais fazer queixa ao Maioral... Ahahahahah .... Deixa-me rir. Olha esta! ... A tipa ainda não aprendeu que eu sou tu cá tu lá com o Maioral. Sim, pá. Quem julgas tu que eu sou? ... Eu não sou uma rasca!.... Eu sou uma PMI - Pessoa Mui Importante... Eu trato por tu o Maioral.... Ele não acredita em vocês.... Ele só acredita em mim!... É a minha palavra contra a vossa. E já deviam ter aprendido que não são ninguém. Convençam-se de uma vez por todas...Vocês não são ninguém!...Vocês estão aqui para me servir. Porque é assim que EU QUERO, porque é assim que EU MANDO. Porque EU POSSO, EU POOSSOOO!!!. Perceberam?... E tu nem te atrevas, se não ... A arenga surtiu efeito e o papel foi imediatamente assinado. Mas com assinatura falsa. A pessoa em causa de parva nada tinha. Balbina, satisfeita por ver a sua inferior hierárquica a assinar, nem se deu ao trabalho de verificar se a assinatura estava conforme. E o silêncio volta a ser rei. Passam-se longos segundos em silêncio absoluto. Até parecia um velório, com Balbina olhando fixamente os presentes enquanto estes olham para o tecto contando as manchas deixadas pelas caganitas das moscas. Alguém pigarreou no fundo da sala. Balbina,
quebra o velório :
O fulano em causa saca do telemóvel e faz uma chamada, indiferente à ordem balbínica. Falou pouco tempo e nada se conseguiu perceber. Guardou o telemóvel e permaneceu encostado, de braços cruzados, impávido e sereno. Nem um minuto depois entra na sala um grupo de indivíduos dos 14 Tomates. Os três tipos dos Pirulitos fogem pela saída de emergência, deixando Balbina entregue à sua sorte. Ecoa uma estalada dada com gana e gera-se a confusão na sala, aproveitada pelos subordinados da Balbina para saírem rapidamente para o corredor. A porta fecha-se e lá dentro fica apenas a Balbina acompanhada dos 14 Tomates e do fulano de preto. No corredor, os comentários adensam-se. Orelhas encostadas à porta não ouvem um único ruído. O tempo passa e o suspense aumenta. Nisto a porta abre-se e sai uma Balbina de cabeça baixa e mais branca do que a cal das paredes. Seguem-na os 14 Tomates e o telemóvel. Ninguém fala. A interrogação paira no ar. Que terá acontecido? Que mais irá acontecer? |