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Balbinices XVI
Outras soluções...
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BAlbina
Silvão está nervosa. Foi chamada de urgência ao Chefe
e não sabe pra quê. Bem tentou sacar umas dicas ao assessório
de serviço, mas qual quê? Népias! Rien! Comenta com
os seus botões, perdão, com as sua rendas : "Eu com tanto
que fazer e estou práqui a secar! E já lá vão
duas horas de seca! E o que será qu´ele quer?! Organizar
outra caçada aos gambuzinos?...". E vai bebendo o chazito para melhor
engolir as suas interrogações.
- "Nada disso!" - diz o Chefe, que lhe adivinhou o pensamento, entrando de rompante na sala de reuniões. "Chamei-te pra tratar doutro assunto. Tu viste aquela reportagem? ... ah, esquecia-me! Mesmo que tivesses visto, não percebias nada pois és analfabeta completa em pepinês.". Melindrada, Balbina não resiste em responder : "Sou analfabeta em pepinês mas não sou analfabruta! Até sou doutorada em Gestão Racional de Recursos Humanos! Não vi a reportagem, mas fui avisada e já tenho em cima da minha secretária uma gravação com tradução e tudo. Se não estivesse aqui a secar durante duas horas já a teria visto!...". - "Não te abespinhes, Balbininha!..." retorquiu o chefe em tom apaziguador e um pouco admirado com aquela reacção. "Pois bem, aqui o nosso assessório vai fazer o resumo rápido da reportagem e logo terás tempo para a ver." O assessório estava à espera da deixa para exibir os seus dotes oratórios "Pois é, aqueles desavergonhados não têm vergonha e gostava de saber o que o ex anda por lá a fazer. Cá por mim foi vingançazinha de pepinês, amandaram com uma peça/reportagem sobre o ensino que ataca a governança acusando-a de desatenta, que eles não têm condições pra formação o que é mentira está-se a bem de ver, que são mal pagos e que ganham menos do que os outros, que o subsídio deixa a desejar novo subsídio, que não se faz reciclagem , que ...". - "Chega! Pára aí ó assessório." - Interrompe o chefe, já cansado com a voz monocórdica do seu fiel. - "Tás a ver Balbininha? Já tens uma visão da peça?" - e sem esperar resposta, continua - "Mas onde se viu tal desaforo?! São uns ingratos, é o que são!...São uns ingratos!..." Balbina, que tinha recuperado a calma e a frieza analítica, avança logo com solução : -"Calma, chefe! Ora vamos lá equacionar o problema nas suas vertentes pluridimensionais. Em primeiro lugar temos a dimensão mediática, com a qual não vale a pena preocupar-nos pois é certo e confirmado que os telespectadores têm memória curta e a esta hora já esqueceram tudo o que ouviram; a segunda dimensão, à qual devemos prestar mais atenção, diz respeito ao grau de credibilidade concedido pelo nosso Maioral à reportagem, se é que alguma coisa lhe chegou aos ouvidos, o que é duvidoso, a tal ponto que tenho a certeza que não sabe de nada; em terceiro lugar temos a dimensão sínica com a qual basta adoptar uma estratégia cínica para se tornear o problema; por fim temos a dimensão positiva da identificação dos descontentes que tiveram o desplante de atacar a política da governança pró ensino". E faz uma pausa para meter ar, pois tinha falado de rajada para não perder o fio condutor do seu fulgurante pensamento analítico. Prossegue: "Como vê chefe, não há motivo pra preocupações. Nem é preciso dar troco. Basta apenas tomar algumas medidas preventivas para evitar a propagação da doença contestatária. O que é fácil, atendendo à prática que temos nesta matéria de protecção da saúde ideológica pública". - "Ai, Balbininha!... Não sei o que faria sem ti!" - intervém o chefe satisfeito com a brilhante análise balbínica. O assessório de serviço, roído de inveja, lança uma farpa venenosa: "Não te esqueças Balbina que por enquanto não há campos de reeducação pelo trabalho aqui em Pepinosa. Ou queres abrir algum?". Balbina reage de imediato, sem contudo perceber a ironia do assessório : "Não era má ideia, não senhor! Só qu´isso traria problemas com o Tio Sam por causa dessa treta dos Direitos Humanos. Mas há outras soluções! Mais sofisticadas, mais ... ". -
"Não quero saber de nada!" - interrompeu-a de imediato o chefe.
"Não sei de nada! Mais. Esta conversa nunca teve lugar! Faz o que
tens a fazer e dispensa-me dos pormenores. Tens a minha confiança
absoluta. Cuida só de não apareceres nos jornais". E olhando
para o relógio concluiu: "Desculpa lá Balbininha, mas estou
com pressa. Já estou atrasado para mais uma sessão de fotografias
e ainda tenho de mudar de gravata. Ossos do ofício. Sabes como é!..."
E dizendo isto, despediu-se da Balbina com duas beijocas, saindo em passo
apressado acompanhado pelo seu assessório que lhe exibia várias
gravatas penduradas do braço.
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