Balbina
Silvão quebrou o seu voto de silêncio e volta a dar uma entrevista
à Tribuna do Pepino. É a entrevista fatal.
Tribuna do Pepino
: Qual é a opinião que tem sobre a preguiça ?
Balbina Silvão
: Não tenho nenhuma simpatia particular por esse mamífero
bradípode. Aliás nunca me encontrei frente a frente com nenhum
exemplar dessa espécie. Mas por aquilo que já vi em reportagens
televisivas, é um animal lento de mais para meu gosto. E nisto de
animais prefiro os gambuzinos.
TP :
Qual foi a pessoa que mais a fascinou e porquê?
BS
: Tenho um fascínio muito particular por uma personalidade que não
revelo o nome. Não é por nada, mas não tenho o hábito
de me desnudar intelectualmente em público. Quanto à personalidade
histórica que profundamente admiro, direi apenas que foi um grande
entre os grandes, foi adorado por milhões, e sob a sua sábia
liderança grandes vitórias foram alcançadas. Como
gestora profissional que sou, especializada em gestão racional de
recursos humanos - o capital mais precioso - acrescento que toda a minha
actuação profissional, para não dizer privada, tem
sido pautada pelo farol luminoso da grande obra dessa personalidade. Infelizmente,
não há hoje tanta gente que o admire. Mas a sua obra é
imortal.
TP
: Do que é que mais gosta e o que mais detesta nas pessoas ?
BS
: Gosto da competência profissional, coerência de princípios
e valores, sagacidade e respeito pelos superiores; detesto e abomino a
pseudo-independência de espírito associada por norma à
incompetência, a falta de respeito pelos superiores interesses definidos
superiormente por quem tem uma visão mais abrangente das realidades
políticas e sociais.
TP
: Muitos desamores ?
BS
: Desculpe lá, mas não respondo a perguntas deste tipo. E
pensava eu que a Tribuna do Pepino era um jornal sério que não
se metia em fofoquices de coluna de jet-7s.
TP
: Qual foi o melhor ano da sua vida?
BS
: 1994, é claro!... Sem dúvida!... foi um ano magnifico,
um ano como nenhum outro! Foi o ano em que tive a gratificante oportunidade
de fazer uma boa caçada de gambuzinos. Aquilo é que foi dar
tiros! Mal punha a arma à cara, pimba! Acertava sempre. Espero poder
voltar a repetir a proeza, brevemente... Até já comprei uma
arma nova, de canos sobrepostos.
TP
: Esquerda/Direita, ainda há?
BS
: Eu tenho um braço esquerdo e um braço direito; tenho uma
perna direita e uma perna esquerda; tenho um olho direito e um olho esquerdo,
que por sinal vê muito mal; tenho o coração do lado
esquerdo, mas por acidente natural; tenho um rim esquerdo e um direito,
que funciona impecavelmente; ando pela esquerda e ando pela direita,
e se possível viro sempre à direita...
TP
: Diga-nos uma quadra rimada, com tema livre da sua autoria.
BS
: Só percebo de gestão racional de recursos humanos. Reconheço
a minha ignorância poética. Mas lá por isso vou tentar.
Vá,
venham daí,
Vocês,
oh gambuzinos,
Que
eu vos espero aqui
Para
vos tratar do tino.
TP
: Quais os escritores que mais a influenciaram ?
BS
: Têm alguma coisa contra as escritoras?... Machismo!... Só
por causa disto, já não respondo.
TP
: E cantores e grupos musicais que mais a marcaram?
BS
: Marcaram?... O gado bovino é que é marcado com os ferros
da herdade! Que mais fizeram vibrar a minha sensibilidade - é o
que querem dizer, não? Olhe, gosto muito da "Lambada". Ai se eu
adoro dançar a "Lambada"!... E a adaptação conhecida
pela "Cambada"?... Esta é um mais!...
TP
: Tem o hábito de ler jornais, ouvir rádio, ver televisão
ou navegar na Internet ?
BS
: Vamos por partes. Primeiro, não sou freira e logo não uso
nenhum hábito. Segundo, recuso-me a ler os jornais - normalmente
só dizem disparates e dão más notícias. Terceiro,
ouvir rádio, nunca, jamais em tempo algum - se não sabia
fica a saber que as ondas do rádio são cancerígenas.
Quarto, se vejo televisão? Claro!...Adoro! Particularmente as telenovelas.
Aprendo imenso com aqueles jogos de intriga, isto é, de estratégia
social. São muito inspiradores. E por fim, isso de Internet tem
muito que se lhe diga. Já fiz um curso de patroa de costa, pelo
que já navego na Internet na modalidade de costa à vista.
Estou a fazer um curso de patroa do alto mar para poder navegar mais profundamente
no oceano da Internet.
TP
: Já fez alguma experiência com drogas?
BS
: Mas que raio de pergunta é esta? ... Acaso julgam que sou parva
? Há coisas que não são para o domínio público...
Mas é claro que nunca me droguei, nem com nicotina! ... Além
do mais, já me basta a droga da medicação que tenho
de tomar regularmente.
TP
: Qual foi a maior bronca em que se meteu ?
BS
: E quem foi o animalão que lhe disse que me meto em broncas ? Pois
fique sabendo que eu nunca me meti em broncas!... Sempre fui muito ajuizada.
Ah! Minto. Meti-me com uma brocopneumonia e apanhei cá uma desta
inflamações dos brônquios que não lhes digo
nada! Aquela bronca só passou à força de antibióticos.
TP
: Para si vale mais a razão ou o coração ?
BS
: Eu tenho de que não há razão sem coração
e coração sem razão. Como é que a razão
funcionaria sem o coração? Impossível! Lembro-me de
ter investigado este assunto quando era uma jovem estudante do liceu. Tirei
o coração a um coelho, sob anestesia, é claro, e apesar
de todo o cuidado pós-operatório nunca mais recuperou e morreu
sem razão por falta de coração. Fiz o mesmo com um
batráquio e também não sobreviveu. Ainda cheguei a
experimentar com um leitão, mas também não sobreviveu.
Conclusão evidente : a razão não sobrevive à
falta do coração. E sabem porquê? Eu explico!... É
que o sangue deixa de ser bombeado para a razão e esta não
funciona sem sangue. Mas já o inverso não é
tanto assim. Das experiências que fiz em moscas, grilos e formigas,
conclui, após lhes ter decepado a cabeça, isto é,
a razão, que ainda funcionavam durante algum tempo. Daí a
minha conclusão : é preciso razão e coração.
TP
: Já algum dia pensou em mudar de nome? Porquê ?
BS
: Lá pensar, pensei. Sabe? Não gosto muito do apelido Silvão,
que vem de silva-macho, também conhecida por rosa-cão. Tá
ver? É que eu sou muito feminina. Mas o problema é que o
meu nome está associado a um antepassado muito ilustre, o Balbino
Silvão, afamado navegador Balbínico do Sec. XVII que descobriu
a ilha do Pepino no ano da graça de 1666. Foi uma decisão
do conselho de família, contra o qual não vou. Mas pessoalmente
preferia ter o nome Balbina de Rosa. Com o de, com o de ... que é
mais fino.
TP
: Canta quando toma banho ? Sozinha ou acompanhada ?
BS
: Lá está você a meter-se na minha vida privada! Tal
é isto! agora até querem saber se tomo banho acompanhada!...
Mas o que é que vocês têm a ver com isso ? E quanto
ao cantar, umas vezes sim outras não. Depende da disposição.
Mas quando canto tem de ser baixinho que os vizinhos fazem logo queixa
à polícia. Não sei porquê!... Até tenho
boa voz. Até já fui convidada para cantar com o Pavarotti,
e só por ser muito tímida e ter receio de enfrentar o público
é que não aceitei.
TP
: Qual a viagem que nunca fez e gostaria de fazer ?
BS
: Dar a volta ao mundo num balão. Desde miúda que sonho com
uma viagem destas. Não sei se a conseguirei realizar, mas continuo
a sonhar com balões. Até já fiz uns planos. É
assim. A partida é da ilha do Pepino. O balão sobe até
apanhar os ventos superiores que o levam para oeste, dando a volta ao planeta.
Levo mantimentos suficientes para não fazer paragens. E levo um
pára-quedas, não vá o diabo tecê-las!... Como
vê, é muito simples. Só que ando muito ocupada e não
tenho tempo para uma viagem tão lenta, que isto de balões
é lento que se farta. Por isso, vou dar a volta ao mundo em avião.
Mais prático, mas menos romântico.
TP
: Diga qual é o seu lema.
BS
: Não digo!... Vocês não têm nada a ver com isso!...
Já deviam saber que o lema pessoal é muito pessoal. É
das tais coisas que não se pergunta a ninguém.
TP
: Qual a pergunta que gostaria que lhe tivessem feito nesta entrevista
fatal?... e já agora qual a resposta ?
BS
: Pergunta : Qual é a cor do cavalo branco do Napoleão ?
Resposta : Preto! ... Eheheh ... Já vos estou a ver a rir
e a comentar : "que parva! está-se mesmo a ver que é branco".
Só que se esqueceram de uma coisa. Não há cavalos
inteiramente brancos. Os cascos não são brancos. Já
alguma vez viram um cavalo branco com "sapatos" brancos? Claro que não!
Só se forem pintados. Logo, a pergunta é parva, e, assim
como assim, merece uma resposta inteligente. Além do mais o Napoleão,
que foi contemporâneo de um antepassado meu, nunca gostou de cavalos
brancos. Tenho dito! |