Sem a modernidade não haveria fundamentalistas, bem como não haveria
modernistas" (Bruce Lawrence, Defenders of God: The Fundamentalist
Revolt Against the Modern Age)
A Revolução Iraniana que completou 20
anos no início deste ano trouxe a expressão "fundamentalismo" ao noticiário
diário e deu uma nova dimensão aos movimentos de "Restauração Divina" que
até então eram vistos mais ou menos como uma curiosidade marginal. No prefácio do seu Defenders
of God: The Fundamentalist Revolt Against the Modern Age - talvez o mais
importante e coerente texto sobre o tema, Bruce Lawrence, laureado professor de História
das Religiões da Duke University, diz que "Eu nunca pensaria em escrever este livro
sem o choque da Revolução Iraniana de 79".
Embora hoje extremamente associado ao Islam, a expressão
fundamentalismo surgiu para designar o revivalismo protestante norte-americano da virada
do século passado para este. O seu uso fora deste contexto é bastante questionado até
porque, a rigor, os grupos a que se refere quando se fala do Islam não tem uma
preocupação literalista na interpretação do Alcorão. Além disso, como destaca um dos
mais eminentes filósofos muçulmanos contemporâneos, Seyyd Hossein Nasr no seu
Traditional Islam and the Modern World, o termo tem sido usado com tal amplitude, para
designar tantos grupos tão distintos entre si - alguns dos quais sem qual orientação
extremamente exóterica que justifique o uso - que o termo perdeu a sua utilidade como
categoria científica.
Lawrence justifica não só o uso de do rótulo
"fundamentalista", bem como o caráter paralelo deste movimento tanto no
Protestantismo, como no Judaísmo e no Islam e, embora limite sua análise a estas três
crenças, avalia que existe similar em qualquer outra fé - mencionando explicitamente o
Hinduísmo, o Budismo e os Sikhs. Ele avalia que ainda que o rótulo não seja
absolutamente adequado, ele permite, enquanto categoria sociológica, que se faça um
estudo comparativo que permite que se chegue ao cerne do problema e que portanto o nome
que se dê ao fenômeno, em si, não é importante. Admitidas estas restrições de cunho
instrumental, parece ser admissível utilizar o termo.
Considerar a todos como diferentes manifestações de um mesmo
processo, avalia Lawrence, permite que se investigue as semelhanças e diferenças e, em
especial, que se trate do problema em relação ao contexto contemporâneo da modernidade,
sem o qual, avalia ele, a análise não faz sentido. A conclusão semelhante chegam Martin
Marty e Scott Appleby no seu The Glory and The Power: The Fundamentalist Challenge to
the Modern World que tenta traçar um paralelo entre o fundamentalismo protestante,
judaico e muçulmano.
Eles contudo atêm-se a uma interpretação tradicional do fenômeno
fundamentalista, entendendo-o como uma teodicéia destinada a explicar a perda de poder e
prestígio das camadas tradicionais da sociedade e a dissolução de seus sistemas
valorativos e cognitivos, mobilizando estes segmentos a partir de uma volta aos sistemas
tradicionais, o que implica numa rejeição da modernidade, ou da Modernidade Tardia como
prefere Giddens. Não é esta visão profundamente influenciada pela sociologia
tradicional que irá dar uma interpretação satisfatória do problema, na avaliação de
Lawrence.
Neste ponto ele concorda com Nasr e destaca o caráter
essencialmente não-tradicional do fundamentalista. Por mais que ele fale da tradição e
evoque não sem saudades um passado glorioso - geralmente imaginário - o fundamentalismo
seria, para ele, sobretudo uma tentativa de reconstruir a modernidade a partir de um
conjunto de valores e sentidos orientados pela Restauração Divina. Também é a análise
que faz Samuel Huntington no seu quase clássico O Choque de Civilizações e a
Recomposição da Ordem Mundial quando diz, referindo-se ao chamado fundamentalismo
islâmico, que depois de décadas de "Kemalização" na qual se pretendeu
modernizar o Islam, aparece a tendência contrária de "islamizar a
modernidade", experiência que por sinal encontra um profundo paralelo no
"período clássico" da Civilização Muçulmana no qual o conhecimento da
Antiguidade foi reconstruído a partir de uma Weltanschauung islâmica.
Um dos grandes méritos de Lawrence é quebrar a noção do
senso-comum sobre o fundamentalismo, segundo ele fruto de uma intricada aliança entre a
Academia e a Imprensa sensacionalista (literalmente the Ivory Tower e The Yellow Press). O
objetivo dos fundamentalistas não é uma volta ao passado, ainda que um passado
fictício, nem a negação das "comodidades" modernas, mas a submissão desta
modernidade a um conjunto de valores e sentidos orientados para a Restauração Divina.
Assim ele acrescenta à "ameaça fundamentalista" - desprovida de seu caráter
fantasioso - a ameaça da plausibilidade.
Citando diversos autores, Huntington desmistifica outro ponto: os
fundamentalistas não são os miseráveis analfabetos das aldeias ou da periferia das
grandes cidades, fanatizados por religiosos reacionários. São em geral pessoas de classe
média - ou mesmo da elite - quase sempre com instrução superior ou pelo menos técnica,
fruto das segundas gerações educadas segundo o modelo ocidental. Como destaca
Huntington, entre os muçulmanos os jovens são religiosos e seus pais seculares,
fenômeno que aprece se repetir em outros fundamentalismos. A própria Revolução
Iraniana - tomada de forma equivocada, como se pretende demonstrar, como protótipo da
"ameaça fundamentalista" - foi em grande parte uma revolução conduzida por
jovens.
Não se pretende em nenhuma das ideologias fundamentalistas -
exceto, talvez, em agrupamentos extremados como o Taliban, que não serve de parâmetro -
banir a modernidade, mas sim aproveitar-se ao máximo dela para reconstruir o mundo. A
própria ciência é comumente utilizada até mesmo como elemento de
"legitimação" da religião, em especial nos fundamentalismos não-ocidentais.
Assim se tem uma situação curiosa no qual o fundamentalismo é, de certa forma, o
último rebento do Iluminismo.
"Fundamentalistas e modernistas podem discordar em como
interpretar o futuro à luz do presente, mas ambos dividem uma propensão a viver como se
este futuro estivesse já despido de qualquer outro sentido a não ser aquele que eles
singularmente atribuíram a ele" (Bruce Lawrence, Defenders of God: The
Fundamentalist Revolt Against the Modern Age)
Terminei meu artigo ontem asseverando que os Fundamentalismos, em
especial o muçulmano, são o último rebento do Iluminismo, posição que parece ser
inusitada e contradizer a realidade. No máximo se admitira esta suposição no sentido
deles serem uma tentativa de resposta ao espírito do Iluminismo, contudo um exame mais
profundo demonstra que ao contrário de tentar destruir a ordem iluminista, eles tentam
melhora-la, ainda que para isto defendam a superação de alguns de seus postulados
básicos. Neste ponto, as similaridades e diferenças dos três mais importantes
Fundamentalismos - o protestante, o judeu e o muçulmano - tornam-se elementos importantes
para a compreensão do fenômeno, tal como Lawrence avaliou em seu livro.
No senso comum, em especial devido à Yellow Press, existe uma
confusão de dois momentos distintos deste processo de luta pela Restauração Divina que
resultou no Fundamentalismo. Lawrence destaca as diferenças essenciais entre os
revivalismo religioso que periodicamente assalta o mundo - e talvez tenha inspirado a
Weber sua tese do "Reencantamento do Mundo" e as teses modernas da Revanche de
Dieu formuladas primeiramente, salvo melhor juízo, por Gilles Keppel - e o
Fundamentalismo, ideologia que tenta sacralizar a modernidade.
Ainda que a distinção seja polêmica e as fronteiras sejam pouco
definidas, a distinção aprece ser útil. Aos primeiros podem-se aplicar as explicações
básicas da Sociologia da Religião e seus métodos e interpretações clássicas,
analisando-os como uma tentativa de reconstruir o Sistema Cognitivo e Simbólico
destruído pela rápida evolução da modernidade, de, enfim, encontrar certezas num mundo
que privilegia a dúvida e a constante metamorfose, aportar em um porto seguro enquanto a
tempestade da anomia não cessa. É, sobretudo, uma atitude defensiva.
O Fundamentalismo, ao contrário, retoma a ofensiva ao tentar
reconstruir - não negar - a modernidade. Neste ponto a diferenciação do chamado
Fundamentalismo Islâmico em relação a outros Fundamentalismos, cristão, judeu,
marxista ou cientificista, parece se destacar e a impropriedade do termo ganha tanto um
destaque como um sentido inusitado. Por detrás do conceito de Fundamentalismo está
implícito uma noção de regresso aos Fundamentos da Fé, portanto de rejeição do que
não está nas Sagradas Escrituras, o próprio Lawrence que defende ardorosamente a
utilidade do termo bem como sua aplicabilidade a qualquer fé, nega que este sentido
vulgar do termo seja o sentido real.
Destaca ele quatro condições essenciais para a caracterização do
Fundamentalismo: um reforço recíproco entre crença e práticas rituais, uma tradição
articulada que deriva sua legitimidade da autoridade de textos religiosos, um líder
carismático que lidere a formação institucional durante este processo - por vezes
contestando a estrutura vigente - e por fim uma ideologia ligando o líder carismático
aos grupos dispersos. Nesta última condição está, como destaca Lawrence, implícita a
aceitação pelos seguidores não só da autoridade do líder e das tradições, mas a
interpretação particular que ele faz delas, e portanto de uma construção ideológica.
Lawrence percebe que por mais que se tente extrair autoridade das
escrituras, não se trata de um simples processo de leitura, mas sim de releitura. O termo
Fundamentalismo torna-se então um tanto incomodo porque se descobre que não á
literalismo explícito, há, sempre, uma interpretação intermediária. O que é
fundamental, portanto, não é a adesão literalista, mas a busca de legitimidade a partir
de uma interpretação exclusiva.
Outro ponto que Lawrence questiona pouco, é que se a existência de
uma liderança carismática é essencial no período formativo, a institucionalização e
racionalização durante as gerações seguintes é que dará, ou não, o caráter de
permanência do grupo. A Revolução Iraniana sobrevive há 10 anos, metade de sua
existência, à morte de Khomeini sem que tenha produzido outro líder carismático com o
mesmo peso, autoridade e principalmente carisma, como demonstram os acontecimentos
recentes no Irã, tão pouco compreendidos pela mídia ocidental. Em outro momento se
tentará mostrar como as condições específicas do Irã foram determinantes para esta
persistência, bem como para uma certa racionalização e institucionalização da
Revolução Iraniana, condições estas tão específicas que refutam em grande estilo a
tese comum do Ocidente da ascensão de Khomeini em 79 como arquétipo das revoluções
fundamentalistas.
De uma forma geral, mesmo o mais arcaizante modelo fundamentalista,
como a reacionária monarquia saudita e até mesmo o Taleban, não rejeita a modernidade,
apenas deseja em maior ou menor grau a sua reconstrução segundo princípios baseados na
escritura. Mesmo os fundamentalistas americanos com sua aversão por Darwin e o redivivo
"Julgamento do macaco" são ardorosos defensores das liberdades individuais e do
legado da Reforma e da liberdade individual.
A crítica não é à razão em si, mas à razão instrumental que
dissocia o conhecimento e a tecnologia de finalidades, por incrível que pareça,
humanitárias. Chocam-se não com a Razão, mas justamente com a irracionalidade da Utopia
consumista e individualista que tira o sentido das coisas não só porque erode os
sistemas cognitivos de natureza religiosa, como perceberam os sociólogos da religião
desde Wach, mas também porque é desprovida de um sentido universal em si.
É nesse sentido que paradoxalmente o Fundamentalismo é o último
rebento das tradições Iluministas de colocar a razão, a ciência, a tecnologia à
serviço de uma ética universalista ainda que rompendo com diversos de seus postulados,
em especial a separação entre religião e Estado e a tolerância religiosa. Curiosamente
seus adversários ideológicos - quando não políticos e econômicos - os modernistas
negam justamente tanto o universalismos - através dos multiculturalismos, como até mesmo
a submissão a uma ética universal - ou mesmo a qualquer ética. Duas faces de uma mesma
moeda cunhada na França oitocentista, Fundamentalismo e modernismo, traçam uma luta para
definir quem construirá o futuro no qual já antecipadamente vivem e, paradoxalmente,
alimentam-se um do crescimento, das falhas e virtudes, do outro.
Nos dois artigos anteriores foi admitido a compreensão do
"Fundamentalismo" como um fenômeno global, presente em diversas religiões, em
especial no Islam, no Judaísmo e no Cristianismo, na forma e com as restrições
apontadas por Lawrence. Ainda que radicalmente contrário a este uso do termo, o filósofo
muçulmano Seyyed Hossein Nasr, defende a mesma idéia de que o
"Fundamentalismo" é um produto da modernidade e em geral se inspira nos
métodos, ideologias e concepções de mundo derivadas do ocidente.
A fusão de tantas concepções diferentes em um mesmo conceito traz
paradoxos e inconsistências que podem acabar levando a busca de uma abstração tal que
explique o conjunto do fenômeno fundamentalista uma aventura sem chances de sucesso.
Torna-se necessário, então, algum tipo de definição que norteie a classificação do
que seria "Fundamentalismo" que seja capaz de demonstrar uma unidade do
fenômeno sem abstrair as diferenças significativas.
A definição de Lawrence atende, em parte, a esta questão:
"Fundamentalismo é a afirmação da autoridade religiosa como holística e absoluta,
não admitindo crítica ou limitação; é expressado através da demanda coletiva que
aquelas ordenações doutrinárias e éticas derivadas das Escrituras Sagradas deve ser
publicamente reconhecida e legalmente reforçada". O centro da definição dele,
portanto, reside na questão das Escrituras como elemento legitimador da autoridade,
aspecto que em si não é suficiente para enquadrar o conjunto dos fenômenos que ele
define como "Fundamentalismos"", até porque as diversas fés tratam de
forma diferente o papel das escrituras. A substituição da Escritura pela Revelação,
portanto a legitimação baseada numa transcendência - tão cara a Garaudy, por exemplo,
parece tornar um pouco mais adequada a definição de Lawrence.
Curiosamente falta na definição dele justamente o que é sua
principal contribuição ao tema: a caracterização que o "Fundamentalismo" é
um fenômeno da modernidade. A distinção essencial que ele faz entre o Revivalismo e o
""Fundamentalismos"", analisada em artigo anterior, dissolve-se em
meio à definição dada por ele. Ainda que sua recusa em tentar enquadrar seu trabalho em
uma avaliação humanista ao invés de sociológica - responsável por uma visão menos
esquemática e mais rica do fenômeno - ela em outros pontos limita a amplitude da sua
avaliação por recusar-se a incorporar alguns conceitos relativamente solidificados da
Sociologia da Religião.
O que dá uma certa unidade ao fenômeno Fundamentalista parece ser
não a questão das Escrituras e de sua interpretação pretensamente literalista - em
especial no Islam, como já foi comentado, esta definição exclui a maior parte dos
grupos - é o desejo de sacralizar, ou ressacralizar, o mundo, em especial o mundo
moderno. A Utopia Fundamentalista é a construção de um Sacred New World no qual aos
benefícios e comodidades materiais e intelectuais da modernidade se some a solidez
comunitária e altos padrões éticos e morais determinados pela Revelação.
Entendido desta forma, o "Fundamentalismo" é uma
tentativa de reconstrução do moderno à luz do sagrado, não como uma aceitação dos
meios modernos instrumentais - como a TV, os meios de transporte e o aparato bélico
citados tanto por Lawrence como por Aplleby e Marty - mas da própria modernidade em si. O
tema é recorrente nas mais diversas elaborações do pensamento islâmico contemporâneo,
seja no radical ideólogo dos Irmãos Muçulmanos, Sayyid Qutb - para quem a tarefa do
Islam é reconciliar religião e ciência separadas por uma "esquizofrenia
ocidental" e retomar o desenvolvimento para os quais os valores ocidentais já não
são mais válidos - ou para o mártir da revolução iraniana, Murtada Mutahari - para
quem o Islam é capaz de contrabalançar o que deve permanecer e o que deve ser mudado,
até porque "não se imiscui no padrão e forma de vida exterior, que é totalmente
dependente do grau de conhecimentos humanos" porque a essência d"as
instruções islâmicas dizem respeito ao espírito, ao significado e finalidade da vida,
e ao melhor caminho que um homem deve seguir para atingir a meta final".
Esta ênfase em trazer o sagrado de volta à modernidade, e
reconstruir esta a partir dos valores transcendentes, traça uma distinção essencial do
que se chama de "Fundamentalismo" islâmico dos outros
"Fundamentalismos". O primeiro paradoxo que surge nesta questão é que o Islam
é ao mesmo tempo a maior ameaça à hegemonia ocidental e a que mais se esforça para
incorporar, ainda que de forma reconstruída, o legado iluminista, científico e
tecnológico; enquanto o "Fundamentalismo" protestante, que traça sua
genealogia diretamente da própria essência de valores da sociedade moderna e nela está
intrinsecamente ligada, é a que mais rejeita a modernidade.
A realidade, contudo, nem sempre é tão simples em especial por
causa da enorme abstração que se faz ao chamar um conjunto tão amplo de movimentos
sociais sobre o mesmo rótulo de ""Fundamentalismos"". O próprio
"protótipo" do "Fundamentalismo" que é a Revolução Iraniana
dificilmente poderia ser classificado estritamente como Fundamentalista, mesmo a sua
limitação a "Fundamentalismo" Islâmico esclarece muito pouco porque não dá
conta da especificidade xiíta - talvez como fruto do pouco conhecimento do Ocidente sobre
o xiísmo, revelado entre outras coisas pelo sentido com o qual o termo "xiíta"
foi incorporado na língua portuguesa como sinônimo de ortodoxo e radical.