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Visões do outro
Alexandre Gomes
Uma das questões essenciais que terá de ser resolvida pela área de humanidades no início deste milênio será a do multiculturalismo. O modelo etnocêntrico de pensar o mundo já esgotou as suas possibilidades, enquanto, do outro lado, o absoluto relativismo cultural herdado da década de 60 já não é capaz de dar mais nenhuma resposta. O centro do debate é - ou deveria ser - basicamente filosófico afinal a grande discussão em torno do tema da alteridade é se existe uma única verdade ou várias. Certamente este debate precede a discussão de qual verdade seria mais adequada para se entender o mundo, já que esta discussão pressupõe que o mundo pode ser entendido. A existência de múltiplas verdades traz em si um germe do caos, já que torna tudo absolutamente relativo e impede até mesmo a comunicabilidade das diversas visões de mundo. O "relativismo cultural" absoluto, produzido por ela, acaba não só por não cumprir suas intenções pacifistas como por realizar o seu contrário: produzir conflitos insolúveis pelo meio do debate. A implicação de se considerar a Verdade - entendida como um conhecimento exato da realidade - como inacessível também é um problema sério já que ela implica em um questionamento do próprio conhecimento em si. A emergência do problema é mais grave certamente na área das humanidades, mas seu peso sobre outros ramos do conhecimento Não pode ser desprezada, em especial quando se trata do conhecimento de ponta nas mais diversas ciências, incluindo aí áreas que o senso-comum considera como absolutamente "exatas" como a Matemática. Mas esta questão do multiculturalismo não é explosiva somente por ter um impacto direto sobre a ciência, mas também em função de suas consequências práticas diretas no cotidiano. Admitir o Multiverso - para usar a expressão de James - implica numa mudança radical da forma como vemos os outros e nos relacionamos com eles. Curiosamente boa parte da soberba cultural ocidental vem sendo legitimada desde tempos imemoriais com base em algum tipo de superioridade embasada em um conhecimento considerado como científico. Porém, e aí se mostra como também o relativismo cultural é eurocêntrico - tendo apenas o sinal trocado, não há cultura no mundo que não seja radicalmente etnocêntrica. Chega-se a um ponto no qual se leva em consideração apenas o eurocentrismo, mas se ignora as culturas de preconceito em relação à alteridade que persistem no conjunto do mundo. Em qualquer das duas situações o eixo, o foco, a agenda do debate é fornecida pelo conhecimento eurocêntrico. Em alguns casos chega-se a alguns debates que ultrapassam qualquer limite do razoável, mas que são levados a sério em muitos meios acadêmicos. A questão do negro, por exemplo, é completamente enviesada neste sentido. Note-se que a identidade do negro - como do índio, do "oriental" e tantas outras - já que esta identidade só foi construída pela dominação branca, é um subproduto da escravidão como a riqueza colonial. O negro "existe" em oposição ao branco, ou melhor, só existe como uma construção ideológica do branco. Na África jamais houve uma noção de identidade capaz de abranger as diversas etnias negras, existiam lá yoruba, Hauras, pehls, congos e muitos outros, mas nunca negros entendidos como uma "raça". O próprio termo, por sinal, só faz sentido pelo contraste e tem como principal característica ignorar as matizes. No clássicos Negras Raízes de Alex Haley fica evidente como a caracterização do negro é algo puramente ideológico e é só a aceitação do domínio do branco que faz com que as gerações de escravos esqueçam as identidades tribais para aceitar uma identidade de negros. A propalada tolerância idílica existente nos quilombos soa como artificial justamente por negar qualquer tipo de identidade tribal, ao contrário da revolta dos Malês de 1835 que era claramente um movimento de uma parte da comunidade - os escravos muçulmanos de diversas etnias - igualmente com uma identidade construída "de fora". Jamais houve grupo humano que não fosse em algum grau intolerante com o Outro e que não tentasse racionalizar - quando não legitimar - esta intolerância de alguma forma. A construção do Nós implica sempre na definição do Outro, e é sobre o contrate com este Outro que cada grupo constrói a sua identidade. Uma das estrelas desta nova onda multiculturalista é o budismo, interpretado como uma religião tolerante às outras, capaz de permitir que cada um tenha a "sua verdade". Mas esta suposição proselitismo não se sustenta por um exame da própria doutrina. O Budismo, como qualquer outra religião que tenha entre seus princípios a mentepsicose, são por essência radicalmente intolerantes. Isto porque, embora possam até admitir a existência de outras crenças, partem do pressuposto que é o discípulo da sua fé que está em um estado mais "avançado", mais próximo da verdade, mais evoluído. Sua aparente tolerância esconde de fato uma profunda arrogância paciente: "deixem os outros professar as suas fés, um dia eles vão evoluir e se tornarão budistas". Não é à toa que concepções religiosas deste tipo surgem sobretudo em sociedades aristocráticas, afinal servem para determinar pelo nascimento a posição social da pessoa, quase que eliminando todas as chances de posterior ascensão e não é preciso esforçar-se muito para verificar que é uma ideologia ótima para tentar manter paradas sociedades estagnadas.
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São Carlos, Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2000
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