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Resenhas de Babel: Cultura, Literatura, Filosofia e outros assuntos chatos

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Artigo de hoje

 

 

 

Existe uma filosofia Islâmica?

 

Apresentação

Mutilação necessária

Em sua História da Filosofia, Will Durant, dedica uma única linha para falar da filosofia islâmica, ainda assim para dizer apenas que "no Século XIII, toda a Cristandade ficou assustada e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles". Outros atribuem um papel grandioso à filosofia e a Cultura islâmica e a colocam de forma exagerada como motor do Renascimento Europeu, como Asin Palácios ao atribuir a Divina Comédia a um plágio de Dante a um poeta persa.

Não é estranho, portanto que Dante tenha colocado no Limbo, no setor onde havia um grande clarão, junto com Sócrates, Platão e Aristóteles os dois principais filósofos árabes, ibn Sina (Avicena) e Rushd - Inferno, Canto IV, versos 142 a 144. E que ainda por cima tenha acrescentado ao nome de Rushd o epíteto de autor de grandes obras numa referências aos seus comentários de Aristóteles.

O verdadeiro papel da Filosofia Islâmica parece estar entre estes extremos, nem o exagero da mera tradução, nem o do "plágio renascentista". Ao mesmo tempo herdeira do legado clássico, mas não apenas sua copiadora, afinal os paradigmas platônicos e Aristotélicos precisaram ser "reconstruídos" para se incorporarem - e não sem dor - ao Universo muito próprio do pensamento islâmico. Ao mesmo tempo esta "reconstrução" preservou os ensinamentos originais e os consolidou, a ponto de ibn Rushd ser chamado pelo título de O Comentador, por sua interpretação de Aristóteles, O Filósofo, por São Tomas de Aquino, grande tributário dele.

O objetivo deste texto é apresentar grosso modo a filosofia islâmica de seu período considerado "clássico" segundo a maioria dos autores, de al-Kindi a ibn Khaldun, enfocando - por razões de economia - apenas os autores principais e mais influentes (al-Kindi, al-Farabi, ibn Sina, al-Ghazali, ibn Ruchd e finalmente ibn Khaldun que não se considerava um filósofo mas evidente tem sue papel junto aos outros por sua notável contribuição pioneira à filosofia da história).

Diversos outros autores são deixados de lado, não significando que sejam menos importantes, mas apenas que não tiveram a mesma importância paradigmática dos citados para a filosofia propriamente dita, nem reflexos sobre o pensamento ocidental posterior como estes tiveram. Uma notável omissão, notará o observador mais atento, é a dos matemáticos como al-Khwarism e Khaiyyam.

Também é significativa a ausência dos teólogos, à exceção de Ghazalli e breve referência a ibn Taimyya, tendo em vista que o objetivo do seminário é sobretudo realçar o papel da filosofia islâmica como sucessora da filosofia clássica e precursora da renascentista, legado ao qual estes pensadores são alheios, para não dizer antagônicos.

Estas mutilações, bem como as inúmeras simplificações do texto se devem de um lado a necessidades didáticas e de outro ao fato do público alvo ser formado não de especialistas ou pessoas com interesse específico na Filosofia Islâmica, mas de um público apenas com interesses gerais em filosofia. A meta, portanto, é dar uma ligeira noção sobre o tema e indicar fontes nas quais mais conhecido pode ser buscado.

A essência do seminário, portanto, são as persistências e rupturas entre a filosofia clássica e a Islâmica enfocando-se essencialmente o que houve de mais significativo na "reconstrução" Islâmica da filosofia grega de Aristóteles e, em menor escala, de Platão e dos neoplatônicos, em especial Plotino.

 

Introdução

Tentativas de definição e categorização da Filosofia Islâmica

Falar sobre a filosofia islâmica sem mencionar o seu ambiente social e político e, em especial, seu contexto religioso é uma missão impossível. Contudo é, ao mesmo tempo, difícil restringir esta contextualização a um limite tal no qual o objeto deixe de ser a Filosofia Islâmica para tornar-se a Civilização Islâmica. É, até mesmo, difícil definir exatamente o que se entende por "Filosofia Islâmica" já que como se discute abaixo o sentido estrito dado pelos pensadores muçulmanos à palavra filosofia tinha até mesmo um certo caráter pejorativo.

As imagens que vêem à mente quando se menciona o Islamismo - ou mais propriamente Islam - não deixam dúvida sobre a importância de Deus na sociedade muçulmana. Da mesma forma os inúmeros conflitos envolvendo a Civilização Ocidental e a Islâmica ao longo da "linha de fratura", da chamada "fronteira sangrenta do Islam", que diariamente frequentam o noticiário, falam por si só da importância para qualquer um que se pretenda bem informado de conhecer, ainda que de forma superficial, o pensamento islâmico.

Contudo, para os mais afoitos, provavelmente haverá uma certa sensação de "frustração" com este seminário, afinal pouco ou nenhum vínculo claro existe entre a sofisticada e intricada filosofia muçulmana medieval e a moderna erupção do Ressurgimento Islâmico pelo mundo. De certa forma são justamente aquele campo do pensamento islâmico que sempre se opôs aos filósofos que vem comandando este "Ressurgimento".

É preciso destacar que "falasifa" - forma arabizada da palavra grega para filósofo - não tem o mesmo sentido na Cultura Islâmica que tinha na grega ou veio a ter no Ocidente. Termo de certa forma pejorativo, destinava-se sobretudo a rotular os pensadores que dedicavam-se ao pensamento especulativo, em geral considerado como desprovido de maior utilidade prática.

É por isto que Ibn Khaldun - de certa forma o último dos filósofos do período "clássico" islâmico, dedica diversos capítulos de seu monumental Muqqadimmat a contestar os filósofos e proclamar mesmo no título de um dos capítulos que "A filosofia é uma ciência vã em si mesma e nociva em suas aplicações". Para ele a filosofia é um "acidente da civilização", um daqueles muitos luxos perigosos e efeminados que os impérios sedentários adotam na sua fase de decadência.

E ao dizer isto Khaldun, que tenta a todo momento estabelecer algum grau de generalização que permita o "descobrimento" de leis que regem a história, inclui na mesma categoria também o pensamento especulativo bizantino e sassânida, dois grandes impérios destruídos pelas primeiras arremetidas dos muçulmanos. De certa forma ela as considera como "discussões bizantinas" como a do famoso debate sobre o "sexo dos anjos".

Outro pensador fundamental do Islam, Ghazalli, também faz duras críticas aos filósofos e um de seus textos mais importantes e conhecidos chama-se justamente Tahafut -al-Filasafat (A Refutação dos Filósofos). Diz ele no seu Ihya Ulum al din (Revivificação das Ciências Religiosas): "O essencial é o Alcorão e a Suna, o resto é sem interesse, talvez condenável, a menos que se trate de refutar uma inovação (Bidah)".

O conhecimento especulativo é um dos principais alvos da crítica de Ghazalli e sobretudo da sua própria auto-crítica. "O pior suplício no Dia do Juízo Final", diz ele, "será o do sábio que Não aproveitou seu saber diante de Deus". A despeito de tudo isto, Ghazalli tem um papel fundamental no desenvolvimento da Kalam, a teologia dialética que iria inspirar fortemente a Escolástica Medieval.

Albert Hourani, no seu "Uma História dos Povos Árabes" destaca que: "As especulações dos filósofos eram encaradas com desconfiança por algumas escolas religiosas e alguns soberanos, mas outras formas de usar a razão para elucidar a natureza das coisas despertavam menos suspeitas e tinham usos práticos".

Tanto que de todos os filósofos propriamente ditos, o único que gozará de vasto prestígio e aceitação apesar da ousadia de suas idéias será ibn Sina, não tanto por sua filosofia, mas pelo seu papel fundamental como médico e cientista. A própria referência de Dante a ele, embora colocada dentro da "filosofica famiglia" (ver nota ), parece estar se referindo mais a sua atuação como médico, já que o coloca junto com Galeno e Hipócrates.

Mas se for deixando de lado este uso estrito da classificação de filósofo limitada ao pensamento dito especulativo, a lista de filósofos muçulmanos cresce muito. Um dos grandes pontos de divergência entre aqueles que enaltecem ao extremo a importância da filosofia islâmica e aqueles que lhe atribuem no máximo a função de transmissão do conhecimento grego parece ser derivado justamente desta incompreensão sobre qual o uso que está se dando ao termo "filosofia".

Há também um importante elemento, típico da estrutura social islâmica "clássica", que não pode ser desprezado nesta análise. Não há uma "profissão" filosófica entre os muçulmanos, ou uma situação tal que os permita se dedicarem exclusivamente à filosofia. Sem exceção os pensadores muçulmanos são juristas (faqh) ou teólogos (‘alim), alguns ocupam as importantes funções de juiz (cádi) ou jurisconsulto (mufti), quase sempre atuam como conselheiros ou diplomatas das cortes e não são raros os que tem atividades comerciais.

Os pensadores islâmicos são em geral membros da elite comercial (Hourani chega a usar o termo "burguesa") e herdeiros de uma longa tradição familiar de erudição e cargos. Tem todos eles uma educação esmerada, mas geralmente tradicional e voltada sobretudo para a formação religiosa.

Esta educação é em geral um meio termo entre o estilo da Academia e do Liceu gregos e as universidades da Renascença, baseia-se sobretudo no estudo de textos e exercício do debate dialético junto a um mestre - primeiro junto as colunas das mesquitas, depois em instituições específicas voltadas para a educação, as madrassas.

De certa forma o pensamento islâmico do período também está passando por uma transição, iniciada já na fase helenística, na qual a filosofia começa a dar forma às ciências particulares e a incorporar-se à técnica, processo que culminaria, no ocidente, com a revolução científica da Idade moderna e contemporânea e para a qual a Filosofia Islâmica deu uma contribuição significativa ainda pouco reconhecida.

O Filósofo muçulmano é também um cientista e em alguns momentos mesmo um técnico - como o médico ibn Sina. Ele, com raras exceções não está preocupado só com filosofia, mas também com a matemática - campo no qual as contribuições árabes como a álgebra e a trigonometria são inegáveis -, astronomia, medicina, farmácia, geografia, química, ótica, engenharia, arquitetura e muitas outras áreas nas quais as contribuições originais ou de síntese dos muçulmanos é extremamente significativa.

É também um sábio religioso, conhecedor da teologia, exegeta do Alcorão, intérprete da jurisprudência islâmica (shari’ah) e não raro um místico (sufi), preocupado com as dimensões esotéricas do conhecimento religioso e praticante da êxtase mística. É igualmente não raro poeta e político, homem de Estado que ao contrário dos gregos intrometem-se nas disputas intestinas das cortes que, também ao contrário dos gregos, não são assembléias democráticas mas ambientes onde impera uma autoridade absoluta.

Em geral as obras desses sábios são enciclopédicas, como retrata bem a Muqqadimmat de Khaldun cujas mais de mil páginas não são senão um "prefácio" a um texto infinitamente maior. Vivem eles então um conflito entre um conhecimento que começa a se diferenciar e se partir e a pretensão de abarcá-lo todo, dilema que por si só limita os sábios reconhecidos a uma certa dose de genialidade para ser capaz de ostentarem tal título.

Há contudo uma especificidade que dá interesse especial à filosofia islâmica estritamente falando, lhe define o contorno, o objeto e os métodos, uma característica que permite a Louis Grandet e Fernand Braudel responderem afirmativa à questão: "Existe uma filosofia islâmica?". E essa especificadade pode ser obtida sobretudo naquela filosofia especulativa, é a tentativa de conciliar o legado peripatético grego a uma cosmovisão, uma "Weltanschauung" fortemente monoteísta.

É, enfim, este esforço de reconstruir o pensamento grego para que ele "coubesse" dentro do Islam, se harmonizasse com a Verdade Revelada, que dará a essência do caráter da filosofia grega. É em função desta temática que se limitou a seleção dos autores que serão analisados na sequência.

Fontes da filosofia islâmica

 

A reconstrução do legado grego

A filosofia grega e helenística é, sem dúvida, a matéria prima com a qual a filosofia islâmica foi construída, o que levou os pensadores ocidentais a considerar por muito tempo que não existia uma filosofia islâmica, que o trabalho dos pensadores muçulmanos no máximo teria sido o de preservar e transmitir o conhecimento dos gregos. É a visão, por exemplo, do mais renomado dos "orientalistas" Renan que chega a justificar suas posições a partir de alguns pontos de vista racistas como o da superioridade da mente ariana sobre a mente semita.

Curiosamente Renan justifica sua posição racista afirmando que a mente semita não pode se ater senão ao detalhe, sendo incapaz de gerar teorias gerais. Curioso porque o que se vê na filosofia islâmica é justamente o contrário, tal como os gregos, eles se recusam a dividir o conhecimento em compartimentos, todos os grandes filósofos muçulmanos, como foi comentado anteriormente, pretendiam estender seu conhecimento sobre todas as áreas possíveis, da poesia à matemática, passando pela política e pela jurisprudência.

A matéria-prima do legado grego por mais importante que tenha sido no conjunto do pensamento islâmico, não o limita, pelo contrário, impõe aos filósofos muçulmanos o desafio de reconstruí-lo a partir da Weltanschauung muçulmana e harmonizá-lo com a Verdade Revelada. De uma forma muito geral, há três fontes que se combinam para a formação da filosofia islâmica: o legado grego que fornece o substrato, a teologia e a jurisprudência religiosas(usul-al-kalam, usul al-fiqh) que lhe definem a forma e limites e o misticismo e conhecimento esotérico islâmico (tasawwf) que lhe enriquece o alcance e em geral lhe fornece a linguagem.

O legado grego é tanto aristotélico como neo-platônico, embora o primeiro tenha gozado de mais prestígio por sua noção mais "prática" de conhecimento" e pelo reconhecimento da validade de sua lógica inclusive para a prática da jurisprudência religiosa (ijthad). O neoplatonismo entra quase de contrabando na filosofia islâmica devido ao fato da Enéade do neo-platônico Plotino ter sido durante muito tempo atribuída a Aristóteles - a chamada "Teologia de Aristóteles".

O neoplatonismo, contudo, alimenta a linha de filósofos muçulmanos mais originais, que culmina na tradição "clássica" do Islam medieval com Ibn Sina e alimentará até hoje a escola de pensamento xiíta, menos ortodoxa e tradicionalista que a sunita, apesar da nossa imagem no senso comum dizer o contrário. Já o aristotelismo reinterpretado pelos filósofos islâmicos teve um papel fundamental no renascimento ocidental, em especial através da obra de ibn Rushd - Averroés - como já mencionado antes, conhecido como "O Comentador" e por isto é mais conhecido.

Visto com certa desconfiança, o legado grego não poderia ser incorporado sem uma reconstrução ao pensamento islâmico. Precisava de um esforço de harmonização de conceito que o tornasse aceitável, o que implica em recusar alguns pontos e desenvolver outros. A religião e a linguagem são também processos cognitivos, algo que nos fornece os elementos para compreender e organizar o mundo, portanto esta "reconstrução" seria essencial não só pelo caráter total do Islam

 


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São Carlos, Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2000

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