Falar sobre a filosofia islâmica sem mencionar o seu
ambiente social e político e, em especial, seu contexto religioso é uma missão
impossível. Contudo é, ao mesmo tempo, difícil restringir esta contextualização a um
limite tal no qual o objeto deixe de ser a Filosofia Islâmica para tornar-se a
Civilização Islâmica. É, até mesmo, difícil definir exatamente o que se entende por
"Filosofia Islâmica" já que como se discute abaixo o sentido estrito dado
pelos pensadores muçulmanos à palavra filosofia tinha até mesmo um certo caráter
pejorativo.
As imagens que vêem à mente quando se menciona o Islamismo - ou mais propriamente
Islam - não deixam dúvida sobre a importância de Deus na sociedade muçulmana. Da mesma
forma os inúmeros conflitos envolvendo a Civilização Ocidental e a Islâmica ao longo
da "linha de fratura", da chamada "fronteira sangrenta do
Islam", que diariamente frequentam o noticiário, falam por si só da importância
para qualquer um que se pretenda bem informado de conhecer, ainda que de forma
superficial, o pensamento islâmico.
Contudo, para os mais afoitos, provavelmente haverá uma certa sensação de "frustração"
com este seminário, afinal pouco ou nenhum vínculo claro existe entre a sofisticada e
intricada filosofia muçulmana medieval e a moderna erupção do Ressurgimento Islâmico
pelo mundo. De certa forma são justamente aquele campo do pensamento islâmico que sempre
se opôs aos filósofos que vem comandando este "Ressurgimento".
É preciso destacar que "falasifa" - forma arabizada da palavra grega
para filósofo - não tem o mesmo sentido na Cultura Islâmica que tinha na grega ou veio
a ter no Ocidente. Termo de certa forma pejorativo, destinava-se sobretudo a rotular os
pensadores que dedicavam-se ao pensamento especulativo, em geral considerado como
desprovido de maior utilidade prática.
É por isto que Ibn Khaldun - de certa forma o último dos filósofos do período
"clássico" islâmico, dedica diversos capítulos de seu monumental
Muqqadimmat a contestar os filósofos e proclamar mesmo no título de um dos capítulos
que "A filosofia é uma ciência vã em si mesma e nociva em suas aplicações".
Para ele a filosofia é um "acidente da civilização", um daqueles muitos luxos
perigosos e efeminados que os impérios sedentários adotam na sua fase de decadência.
E ao dizer isto Khaldun, que tenta a todo momento estabelecer algum grau de
generalização que permita o "descobrimento" de leis que regem a
história, inclui na mesma categoria também o pensamento especulativo bizantino e
sassânida, dois grandes impérios destruídos pelas primeiras arremetidas dos
muçulmanos. De certa forma ela as considera como "discussões bizantinas"
como a do famoso debate sobre o "sexo dos anjos".
Outro pensador fundamental do Islam, Ghazalli, também faz duras críticas aos
filósofos e um de seus textos mais importantes e conhecidos chama-se justamente Tahafut
-al-Filasafat (A Refutação dos Filósofos). Diz ele no seu Ihya Ulum al din
(Revivificação das Ciências Religiosas): "O essencial é o Alcorão e a Suna, o
resto é sem interesse, talvez condenável, a menos que se trate de refutar uma inovação
(Bidah)".
O conhecimento especulativo é um dos principais alvos da crítica de Ghazalli e
sobretudo da sua própria auto-crítica. "O pior suplício no Dia do Juízo
Final", diz ele, "será o do sábio que Não aproveitou seu saber diante de
Deus". A despeito de tudo isto, Ghazalli tem um papel fundamental no desenvolvimento
da Kalam, a teologia dialética que iria inspirar fortemente a Escolástica Medieval.
Albert Hourani, no seu "Uma História dos Povos Árabes" destaca que:
"As especulações dos filósofos eram encaradas com desconfiança por algumas
escolas religiosas e alguns soberanos, mas outras formas de usar a razão para elucidar a
natureza das coisas despertavam menos suspeitas e tinham usos práticos".
Tanto que de todos os filósofos propriamente ditos, o único que gozará de vasto
prestígio e aceitação apesar da ousadia de suas idéias será ibn Sina, não tanto por
sua filosofia, mas pelo seu papel fundamental como médico e cientista. A própria
referência de Dante a ele, embora colocada dentro da "filosofica famiglia"
(ver nota ), parece estar se referindo mais a sua atuação como médico, já que o coloca
junto com Galeno e Hipócrates.
Mas se for deixando de lado este uso estrito da classificação de filósofo limitada
ao pensamento dito especulativo, a lista de filósofos muçulmanos cresce muito. Um dos
grandes pontos de divergência entre aqueles que enaltecem ao extremo a importância da
filosofia islâmica e aqueles que lhe atribuem no máximo a função de transmissão do
conhecimento grego parece ser derivado justamente desta incompreensão sobre qual o uso
que está se dando ao termo "filosofia".
Há também um importante elemento, típico da estrutura social islâmica
"clássica", que não pode ser desprezado nesta análise. Não há uma
"profissão" filosófica entre os muçulmanos, ou uma situação tal que os
permita se dedicarem exclusivamente à filosofia. Sem exceção os pensadores muçulmanos
são juristas (faqh) ou teólogos (alim), alguns ocupam as importantes funções de
juiz (cádi) ou jurisconsulto (mufti), quase sempre atuam como conselheiros ou diplomatas
das cortes e não são raros os que tem atividades comerciais.
Os pensadores islâmicos são em geral membros da elite comercial (Hourani chega a usar
o termo "burguesa") e herdeiros de uma longa tradição familiar de erudição e
cargos. Tem todos eles uma educação esmerada, mas geralmente tradicional e voltada
sobretudo para a formação religiosa.
Esta educação é em geral um meio termo entre o estilo da Academia e do Liceu gregos
e as universidades da Renascença, baseia-se sobretudo no estudo de textos e exercício do
debate dialético junto a um mestre - primeiro junto as colunas das mesquitas, depois em
instituições específicas voltadas para a educação, as madrassas.
De certa forma o pensamento islâmico do período também está passando por uma
transição, iniciada já na fase helenística, na qual a filosofia começa a dar forma
às ciências particulares e a incorporar-se à técnica, processo que culminaria, no
ocidente, com a revolução científica da Idade moderna e contemporânea e para a qual a
Filosofia Islâmica deu uma contribuição significativa ainda pouco reconhecida.
O Filósofo muçulmano é também um cientista e em alguns momentos mesmo um técnico -
como o médico ibn Sina. Ele, com raras exceções não está preocupado só com
filosofia, mas também com a matemática - campo no qual as contribuições árabes como a
álgebra e a trigonometria são inegáveis -, astronomia, medicina, farmácia, geografia,
química, ótica, engenharia, arquitetura e muitas outras áreas nas quais as
contribuições originais ou de síntese dos muçulmanos é extremamente significativa.
É também um sábio religioso, conhecedor da teologia, exegeta do Alcorão,
intérprete da jurisprudência islâmica (shariah) e não raro um místico (sufi),
preocupado com as dimensões esotéricas do conhecimento religioso e praticante da êxtase
mística. É igualmente não raro poeta e político, homem de Estado que ao contrário dos
gregos intrometem-se nas disputas intestinas das cortes que, também ao contrário dos
gregos, não são assembléias democráticas mas ambientes onde impera uma autoridade
absoluta.
Em geral as obras desses sábios são enciclopédicas, como retrata bem a Muqqadimmat
de Khaldun cujas mais de mil páginas não são senão um "prefácio" a um texto
infinitamente maior. Vivem eles então um conflito entre um conhecimento que começa a se
diferenciar e se partir e a pretensão de abarcá-lo todo, dilema que por si só limita os
sábios reconhecidos a uma certa dose de genialidade para ser capaz de ostentarem tal
título.
Há contudo uma especificidade que dá interesse especial à filosofia islâmica
estritamente falando, lhe define o contorno, o objeto e os métodos, uma característica
que permite a Louis Grandet e Fernand Braudel responderem afirmativa à questão:
"Existe uma filosofia islâmica?". E essa especificadade pode ser obtida
sobretudo naquela filosofia especulativa, é a tentativa de conciliar o legado
peripatético grego a uma cosmovisão, uma "Weltanschauung" fortemente
monoteísta.
É, enfim, este esforço de reconstruir o pensamento grego para que ele
"coubesse" dentro do Islam, se harmonizasse com a Verdade Revelada, que dará a
essência do caráter da filosofia grega. É em função desta temática que se limitou a
seleção dos autores que serão analisados na sequência.