Voltaire e o Islam
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Hilal Iskandar A cultura Islâmica deu contribuições à cultura ocidental incomensuráveis que em geral são desconhecidas ou menosprezadas pelos ocidentais. Nos manuais escolares ensina-se, por exemplo, que os muçulmanos não produziram nada mas apenas coletaram conhecimentos de culturas mais antigas. Ainda que isto fosse verdade, o trabalho de síntese das tradições helênicas/helenística, egípcia, persa, hindu, siríaca, hebraica, bizantina e latinas não poderia ser menosprezada como "mera cópia". Mas o objetivo deste pequeno ensaio não é discutir esta questão a fundo, apenas apresentar como um autor específico se aproveitou de alguns textos e histórias e ao mesmo tempo se colocava publicamente como inimigo do Islam. A prática de se copiar textos em árabe para apresentá-los como seus nunca foi novidade na cultura ocidental. A obra-prima que abre, por assim dizer, a Renascença - A Divina Comédia de Dante é parte plágio da Eneida e parte plágio de alguns relatos populares muçulmanos sobre a Viagem Noturna do profeta Mohammad (A paz e as bênçãos de Deus estejam com ele). Antes dele São Tomas de Aquino usa fartamente exposições e argumentos de Al Ghazali na sua Suma Teológica que norteia até hoje boa parte do clero cristão. Voltaire é de certa forma o escritor emblemático do Iluminismo e como tal se coloca na defesa da Razão contra a fé, combate a intolerância religiosa mesmo que para isto tenha, algumas vezes, de ser intolerante para com as religiões. Inúmeros de seus textos condenam os tartufos que se aproveitam da crença das pessoas para seus objetivos mundanos mas em muitos casos ele generaliza esta posição para o conjunto das fés e pessoas religiosas e toda generalização está fadada ao erro. Ainda que Voltaire seja em geral detestado pelos fiéis de diversas crenças é preciso reconhecer que ele era um homem de seu tempo que via o mundo como seus contemporâneos viam e pensava na perspectiva das necessidades da sua época. Mesmo ele acabou sendo utilizado por alguns de seus inimigos como instrumentos para atacar outras fés. E o próprio Papa o aplaudiu por uma peça de teatro no qual o profeta do Islam (a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele) é satirizado como o exemplo do Tartufo. A peça é inaceitável para um muçulmano porque blasfema contra a origem divina do Sagrado Alcorão e a crença nos Livros enviados por Deus aos seus mensageiros - o livro enviado a Abraão, a Torah revelada a Moisés, os Salmos enviados a Davi, o evangelho revelado por Jesus e o Alcorão transmitido a Mohammad (a paz e as bênçãos de Deus estejam com todos eles) é elemento básico da fé islâmica. Contudo de forma alguma ela é uma crítica exclusiva ao Islam, que é usado apenas como cortina de fumaça para criticar diversos religiosos ocidentais e cristãos, em especial os jesuítas. É interessante notar que em geral Voltaire ressalta que os governos muçulmanos são mais tolerantes com outras fés que os cristãos. Em sua época ele já havia percebido o fenômeno que permitiu a diversas igrejas cristãs sobreviverem apenas em regiões muçulmanas porque em outras foram dizimadas por inquisições, cruzadas e perseguições, coisa que até hoje muitos "especialistas" em relações internacionais e história não viram. Na História das Viagens de Scarmentado em meio a uma série de relatos criticando as mais variadas religiões ele menciona: "Muito me espantei ao ver que na Turquia havia mais igrejas cristãs que em Cândia. Vi até numerosos grupos de monges, a quem deixavam rezar livremente à Virgem Maria e amaldiçoar a Maomé (sic), estes em grego, aqueles em latim, outros em armênio".
E no pot-pourri: "Mas o que vi de mais edificante foi em Constantinopla. Há cinqüenta anos tive a honra de assistir à instalação de um patriarca grego, pelo sultão Achmet III. Entregou ele ao sacerdote cristão o anel e o báculo. Realizou-se em seguida uma procissão de cristãos na rua Cleóbulo; dois janízaros marchavam à frente da procissão. Tive o prazer de comungar publicamente na igreja patriarcal, e só dependeu da minha vontade obter um canonicato. Confesso que no meu regresso a Marselha, fiquei muito espantado de não encontrar ali nenhuma Mesquita. Externei minha surpresa ao senhor intendente e ao senhor bispo. Disse-lhes que isso era muito incivil e que se os cristãos tinham igrejas entre os muçulmanos, podia-se pelo menos fazer aos turcos a galantaria de algumas capelas."
O mais curioso nas relações entre Voltaire e o Islam contudo não são estas referências, mas sim o fato que Voltaire copia trechos do Sagrado Alcorão em um de seus livros, Zadig, ou o Destino, e a própria idéia central deste texto parece ter vindo do trecho copiado. Num trecho principal do Zadig (que explica ao protagonista o sentido oculto de suas desventuras) e antecede ao desfecho da história ele encontra um eremita lendo um livro numa língua indecifrável e que seria o Livro do Destino - o trecho todo é muito longo para ser citado, mas quem se interessar pode ler o Capítulo XVII do Zadig . O Eremita consente que Zadig o acompanhe desde que ele não comente seus atos por mais estranhos que pareçam. No primeiro lugar onde pedem estadia são bem tratados e recebem cada um uma moeda de ouro. Lá o eremita rouba algumas pratarias. No segundo são tratados com indignidade e humilhados e o eremita entrega ao anfitrião as pratarias roubadas na anterior como um presente. Logo depois posam numa terceira casa onde são recebidos por um homem gentil e educado que lhes trata bem e como visitantes sábios e ilustres. O eremita ateia fogo à casa na partida. Por fim são recebidos por uma viúva que os trata de forma muito aprazível e na saída pede que o sobrinho, sua única companhia, os acompanhe até parte do caminho. O eremita afoga o menino num rio. Zadig não consegue se controlar neste ponto e indaga o eremita. Este então explica as razões de seus atos: o primeiro anfitrião os recebeu bem apenas por vaidade e o roubo o fez mais sensato e parcimonioso, o segundo passará a ser mais generoso depois do presente, o terceiro encontrará debaixo da casa destruída pelo incêndio um tesouro que o enriquecerá e o sobrinho da viúva teria assassinado a tia e o próprio Zadig se tivesse sobrevivido. Em seguida ele se revela como sendo um anjo e ensina a Zadig o que em poucas palavras pode ser resumido na fórmula: "Deus escreve certo por linhas tortas". Compare-se o relato com o seguinte trecho da surat Al Cahf, no qual o profeta Moisés (a paz de Deus esteja com ele) encontra um personagem misterioso: "E encontraram-se com um dos Nossos Servos, que havíamos agraciado com a Nossa Misericórdia e iluminado com a Nossa Ciência. E Moisés disse: posso seguir-te, para que ensines a verdade que te foi revelada? Respondeu-lhe: tu não serias capaz de ser paciente para estares comigo. Como poderias ser paciente em relação ao que não compreendes? Moisés disse: se Deus quiser, acharme-a paciente e não desobedecerei às tuas ordens. Respondeu-lhe: então segue-me e não me perguntes nada, até que eu te faça menção disso. Então ambos puseram-se a andar até embarcarem num barco que o desconhecido perfurou. Moisés lhe disse: perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida cometeste um ato insólito! Retrucou-lhe o desconhecido: não te disse que és demasiado impaciente para estares comigo? Disse-lhe Moisés: desculpa-me por ter me esquecido, mas não me imponhas uma condição demasiado difícil. E ambos puseram-se a andar, até que encontraram um jovem, o qual matou. Disse-lhe então Moisés: acabas de matar um inocente, sem que tenha causado a morte de ninguém! Eis que cometeste uma ação inusitada. Retrucou-lhe: não te disse que não poderás ser paciente comigo? Moisés lhe disse: se da próxima vez voltar a perguntar algo, então não permitas que eu te acompanhe, e em desculpa. E ambos puseram-se a andar, até chegarem a uma cidade, onde pediram pousada aos seus moradores, os quais se negaram a hospedá-los. Nela acharam um muro que estava a ponto de desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: se quisesse poderias exigir recompensa por isso. Disse-lhe: aqui nós nos separamos; porém, antes, interarte-ei da interpretação, porque tu és demasiado impaciente para isto: Quanto ao barco, pertencia a pobres pescadores do mar e achamos por bem avariá-lo porque atrás dele vinha um rei que se apossava, pela força, de todas as embarcações. Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à transgressão e à incredulidade. Quisemos que o seu Senhor os agraciasse, em troca, com outro mais puro e mais afetuoso. E quanto ao muro, pertencia a dois órfãos da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu pai era virtuoso e teu Senhor tencionou que alcançassem a puberdade para que pudessem tirar o tesouro. Isto é o beneplácito do teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a explicação daquilo em relação ao qual não foste paciente.
(Sagrado Alcorão, surat al Cahf: 65-82) |