O Adão necessário
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Hilal Iskandar "Que as pessoas parem de jactar-se dos seus antepassados que já morreram, que já não passam de lenha no inferno, senão certamente valerão menos que o besouro que remexe o esterco com o focinho. Deus removeu de vós o orgulho dos idólatras e a vanglória da descendência destes. Ou se é um crente, temente a Deus, ou um pecador iníquo. Todos os povos são filhos de Adão, e Adão foi criado do pó" (hadith transmitido por Abu Dawud e at-Timirdhi) O homem parece ser um animal tribalista por natureza. Não se encontra mito da criação em povo algum no qual o próprio povo não represente uma posição de destaque, que o lugar onde ele mora não seja o centro do mundo e que os vizinhos não sejam povos terríveis. Seja numa aldeia xavante na Amazônia, num iglu esquimo na Groenlândia, numa sinagoga em Jerusalem esta mesma cena se repete. Já mencionei o fato em diversas oportunidades anteriores e citei casos como o de Abel e Caim, da Torre de Babel, dos filhos de Noé e outras fábulas pagãs enxertadas no Livro Sagrado revelado por Deus. Ainda assim creio que o monoteísmo é menos passível de sujeitar-se ao tribalismo inato dos homens em função de, queira-se ou não, admitir que todos os homens provém de uma mesma origem. Nas sociedades politeístas cada povo, tribo ou família depende de uma divindade quase que particular, mesmo quando se reconhece a existência de um criador comum. Arvoram-se genealogias imaginárias,definem-se privilégios de castas, incorporam-se deuses vencidos como divindades menores e no final se tem uma sociedade cuja divisão está legitimada ideologicamente e uma aristocracia descendente de deuses. Poucas questões de fé tem sido tão contestadas pela ciência como o mito de Adão e Eva. Só alguns poucos creacionistas radicais ainda se dispõem a defender o caráter literal da existência de Adão e Eva. Eu certamente não me incluo entre eles, ainda que não considere impossível conciliar a Criação Divina com as últimas descobertas da ciência. Minha preocupação neste pequeno artigo é abordar a questão de Adão como um outro ponto. Mais do que uma realidade científica ou um dogma teológico, creio que Adão é uma necessidade filosófica para a humanidade. Sob Adão o conceito de fraternidade entre os homens ganha materialidade ímpar, caindo por terra toda teoria que implique em algum grau de desigualdade natural entre os homens. Lembro-me que num Forum sobre Liberalismo e Socialismo realizado pela Unesp há alguns anos um dos expositores lembrou que dos três lemas da Revolução Francesa a Fraternidade sempe foi colocada num segundo plano, nunca teve quem a tomou como bandeira. Reconhecer a existência de um laço comum a toda a humanidade é algo mais difícil do que parece. As ideologias humanas estão sempre a espelhar algum tipo de diferença e desigualdade, podem observar como isto é verdade quando examinam a fundo as mais diversas doutrinas. Sempre há algo que torna o outro "mais igual". Mesmo o rígido igualitarismo comunista não deixa de reservar um papel à vanguarda revolucionária, sem contar que deixa claro o papel superior do proletariado sobre as demais camadas sociais. Certamente não se pertence a uma classe social por livre e espontânea vontade, portanto existe um certo fator aristocrático às avessas no marxismo com o qual ele não é capaz de lidar. Quanto ao capitalismo, mesmo em se tratando do mito (já que falar na realidade do capitalismo é até covardia) da vitória dos melhores capacitados ela se baseia exclusivamente na habilidade de ganhar dinheiro, não nas outras das quais a sociedade não pode viver sem. Também as religiões tem dificuldade de lidar com isto. As crenças baseadas na tese da reencarnação já partem do princípio do nascimento desigual dos homens (não sendo nem muito estranho que tenham surgido pela primeira vez numa sociedade de castas). As religiões animistas, fetichistas e totemistas igualmente dividem os homens por considerá-los de origens diversas ou ligados a diferentes deuses e genealogias. Creio que uma concepção de fraternidade humana está intrisecamente ligada ao monoteísmo. Como já abordei o cristianismo e o judaísmo em outros momentos gostaria agora de falar do Islam. As primeiras objeções ao meu raciocínio certamente virão da importância do árabe para o Islam. São objeções infundadas, até porque Deus enviou a cada povo um mensageiro que pregou na própria língua daquele povo. Se Moisés pregou em hebraico, Jesus em Aramaico e Mohammad em árabe (a paz e as bençãos de Deus estejam com eles) era porque eles eram falantes desta línguas e portanto capazes de entender o exato sentido e concepção de cada termo. Não foi outra a finalidade do Alcorão ter sido revelado em árabe e se até hoje deve ser estudado e recitado em árabe é para que não se perca o sentido original dos termos, para que não esteja sujeito a adulterações (em outra oportunidade discuto porque isto é tão importante). Certamente nem sempre a prática dos muçulmanos está isenta do chauvinismo.Até hoje não deixa de haver alguns resquícios de tribalismo em muitas comunidades muçulmanas de origem árabe no Brasil, por exemplo. A própria dinâmica das comunidades exclusivamente árabes é diferente se comparada com aquelas nas quais convivem diversas etnias muçulmanas. Ao contrário do que se pensa apenas uma pequena parte dos muçulmanos são árabes. As maiores nações muçulmanas são jsutamente as não árabes: indonésios, malásios, Indo-pasquitaneses, nãcoes da África Negra, ocidentais, turcos, persas - só para citar algumas etnias mais numerosas. Claro que para todas o árabe é a lingua franca, a lingua na qual os estudos religiosos são feitos, a lingua na qual as orações são recitadas. Todas elas tem também um significativo arsenal de palavras herdadas do árabe (e em geral são escritas em caracteres árabes). Em qualquer país muçulmano, por exemplo, você será cumprimentado com um Assalamu Alaikum. Mas toda e qualquer restrição que se faça ao comportamento dos muçulmanos não é uma restrição ao Islam. Neste caso específico minha visão é justamente ao contrário. Mostrar como diversos povos dominadores muçulmanos tentaram se colocar como superiores aos demais, mostrar como o chauvinismo rigidamente condenado pela charia foi praticado por muçulmanos - alguns dos quais até devotos - de forma nenhuma abala a minha fé. É mais do que evidente que tal comportamento distorcido não é produto do Islam, mas justamente de seu desconhecimento por muitos muçulmanos. Se o homem é assim este animal tão tribal, tão disposto a privilegiar sua alcatéia em detrimento do geral da espécie, então uma religião que proclame a fraternidade entre os homens, a condição de igualdade no nascimento, condene severamente e nos piores termos o chauvinismo não pode ter origem humana, mas sim só pode ter nascido de uma mente superior, incapaz destes pequenos antropocentrismos humanos: Deus. |