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Aqui estão dois artigos nos quais, anos atrás, divulguei meu posicionamento com referência a preservação da natureza, ecologia, meio ambiente e Amazônia: |
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UMA SAÍDA ENTRE O VERDE E O PROGRESSO
Durante muito tempo, ecologia
e progresso foram tratados como temas incompatíveis. Porém, nas
últimas décadas, muitas pessoas e inúmeras organizações, no mundo
todo, procuram encontrar o caminho da harmonia, buscando estratégias
que interliguem a preservação da natureza com o desenvolvimento.A
partir da constatação que são os países do primeiro mundo os grandes
responsáveis pela poluição ambiental e pela utilização exagerada
dos recursos da terra, acentuou-se a preocupação mundial em preservar
as áreas verdes do planeta. Considere-se, também, que o crescimento
populacional incontrolável e a pobreza do terceiro mundo funcionam como
agentes destrutivos da base ecológica da sociedade terrena. No caso do
Brasil, a situação, muitas vezes, é paradoxal, pois os bolsões de
miséria e subdesenvolvimento localizam-se em áreas abundantes de
recursos mal explorados.Todos nós sabemos que os países hoje
desenvolvidos progrediram com a destruição de suas florestas. Não
podemos incorrer no mesmo erro e não devemos permitir que nossos bens
naturais sejam explorados sem levar em consideração medidas que
conservem o meio ambiente, em níveis compatíveis com uma vida humana
saudável. Gerando degradação ambiental, a exploração de recursos
naturais amazônicos quase nada agrega à economia local, favorecendo,
em contra partida, a poluição das águas, a degradação dos solos e as
contaminações que levam ao sofrimento e à morte. Não pode existir dúvida que o complexo ecossistema amazônico exige soluções muito específicas para a sua utilização. Apesar da volumosa produtividade biológica, em conseqüência da abundância de radiação solar e da disponibilidade hídrica, a região representa um verdadeiro desafio agrícola. Muitos sistemas de produção para culturas nativas e adaptadas já foram testados pelas instituições locais de pesquisas, mas a aplicação desta tecnologia, em larga escala, esbarra na falta de um planejamento competente, na indisponibilidade de recursos financeiros e na ausência de uma firme vontade política para implantar programas de desenvolvimento baseados na atividade agrícola, agroindustrial e florestal. Israelenses e americanos produzem alimentos nas areias escaldantes dos desertos. Na Amazônia, temos vastas extensões de de solos férteis nas várzeas, e as terras firmes, livres das inundações, apresentam solos úmidos e com excelentes características físicas para cultivo agrícola, mas ainda não aprendemos bem utilizar tais recursos. É um erro, por exemplo, permitir que as poucas áreas de terra roxa amazônica sejam subutilizadas, como aquelas de Altamira-PA, com plantação de cana-de-açúcar, ou do Jari-PA, ocupadas com plantações de gmelina para produzir celulose. Estes solos deveriam sustentar culturas mais rentáveis, como a do cacau, ou destinados à produção direta de alimentos. A discussão que se verifica em torno da degradação ambiental de nosso planeta mobiliza as potências do primeiro mundo no sentido de sustar ou minimizar o processo degenerativo, através de medidas que interfiram positivamente na sustentação dos ecossistemas e na qualidade de vida das populações atingidas. Dentre os esforços, aparecem as propostas que objetivam a conversão de nossa dívida externa em investimentos na preservação do meio ambiente. Tais propostas dividem as opiniões, pois os critério nem sempre ficam claros ou descobrem-se interesse conflitantes. Já foram aplicadas em alguns países do terceiro mundo, beneficiando áreas problemas bem menores que as nossas, e estão sendo defendidas nos fóruns internacionais como a solução para o caso brasileiro. Apesar de apresentarem muitos pontos questionáveis, creio que não devemos pura e simplesmente descartar estas proposições. É preciso, antes de tudo, estabelecer um elevado nível de diálogo para que consigamos demonstrar a necessidade de investimentos diretamente proporcionais a importância ecológica de uma região continental como a Amazônia. No encaminhamento desta questão é necessário dar ouvidos à competência e descartar todas as soluções oníricas e falaciosas.Não tenho dúvidas que sempre aparecerão proposições sem a mínima vinculação com a verdade da região amazônica. Portanto, é necessário que fiquemos atentos e que a nossa sociedade se mobilize para apresentar projetos e soluções que estejam coerentes com a realidade e os anseios da região, lembrando que a Amazônia pode e deve utilizar, de modo equilibrado, o seu imenso potencial de recursos naturais como a base de um desenvolvimento que consolide a melhor qualidade de vida de sua gente e um meio ambiente saudável. Publicado no Jornal de Brasília, em 28/maio/1991 |
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