ARTIGO 1

Aqui estão dois artigos  nos quais, anos atrás, divulguei meu posicionamento com referência a preservação da natureza, ecologia, meio ambiente e Amazônia:

                    UMA SAÍDA ENTRE O VERDE E O PROGRESSO
                                                   Engenheiro agrônomo Leonam Furtado Pereira de Souza 

      Durante muito tempo, ecologia e progresso foram tratados como temas incompatíveis. Porém, nas últimas décadas, muitas pessoas e inúmeras organizações, no mundo todo, procuram encontrar o caminho da harmonia, buscando estratégias que interliguem a preservação da natureza com o desenvolvimento.A partir da constatação que são os países do primeiro mundo os grandes responsáveis pela poluição ambiental e pela utilização exagerada dos recursos da terra, acentuou-se a preocupação mundial em preservar as áreas verdes do planeta. Considere-se, também, que o crescimento populacional incontrolável e a pobreza do terceiro mundo funcionam como agentes destrutivos da base ecológica da sociedade terrena. No caso do Brasil, a situação, muitas vezes, é paradoxal, pois os bolsões de miséria e subdesenvolvimento localizam-se em áreas abundantes de recursos mal explorados.Todos nós sabemos que os países hoje desenvolvidos progrediram com a destruição de suas florestas. Não podemos incorrer no mesmo erro e não devemos permitir que nossos bens naturais sejam explorados sem levar em consideração medidas que conservem o meio ambiente, em níveis compatíveis com uma vida humana saudável. Gerando degradação ambiental, a exploração de recursos naturais amazônicos quase nada agrega à economia local, favorecendo, em contra partida, a poluição das águas, a degradação dos solos e as contaminações que levam ao sofrimento e à morte.

        Nesta exploração algumas pessoas alcançam sólido progresso econômico mas, a maioria, apenas sobrevive. Neste contexto, aparecem aqueles que defendem a intangibilidade da Amazônia, alegando, dentre outros argumentos, que nesta região está concentrada a maior biodiversidade do planeta, e que tal tesouro deve ser preservado para servir à melhoria de vida das gerações futuras. Assim, os chamados bancos genéticos seriam uma tentativa de assegurar para a espécie humana a utilização de elementos da biota ainda não estudados. Porém, até hoje, ninguém agiu concretamente para permitir que este magnífico acervo de germoplasma amazônico, de valor incalculável, se converta de fato na contribuição econômica para o desenvolvimento regional, pretendido já. Tecnologias que podem viabilizar a utilização deste enorme potencial são patrimônio dos países desenvolvidos. É necessário que tenhamos acesso a estes avanços, a custos não exorbitantes, para que possamos usufruir dos privilégios de sermos os donos desses recursos. No plano das decisões políticas é preciso acabar com a pseudoprioridade dada aos problemas ecológicos, fato que realmente prejudica a Amazônia, pois, não se resolvendo problema algum, a inércia toma conta de tudo deixando a região entorpecida, vegetando em seu esplêndido e verde santuário, situação que é do agrado de muita gente.

      Não pode existir dúvida que o complexo ecossistema amazônico exige soluções muito específicas para a sua utilização. Apesar da volumosa produtividade biológica, em conseqüência da abundância de radiação solar e da disponibilidade hídrica, a região representa um verdadeiro desafio agrícola. Muitos sistemas de produção para culturas nativas e adaptadas já foram testados pelas instituições locais de pesquisas, mas a aplicação desta tecnologia, em larga escala, esbarra na falta de um planejamento competente, na indisponibilidade de recursos financeiros e na ausência de uma firme vontade política para implantar programas de desenvolvimento baseados na atividade agrícola, agroindustrial e florestal. Israelenses e americanos produzem alimentos nas areias escaldantes dos desertos. Na Amazônia, temos vastas extensões de de solos férteis nas várzeas, e as terras firmes, livres das inundações, apresentam solos úmidos e com excelentes características físicas para cultivo agrícola, mas ainda não aprendemos bem utilizar tais recursos.

        É um erro, por exemplo, permitir que as poucas áreas de terra roxa amazônica sejam subutilizadas, como aquelas de Altamira-PA, com plantação de cana-de-açúcar, ou do Jari-PA, ocupadas com plantações de gmelina para produzir celulose. Estes solos deveriam sustentar culturas mais rentáveis, como a do cacau, ou destinados à produção direta de alimentos. A discussão que se verifica em torno da degradação ambiental de nosso planeta mobiliza as potências do primeiro mundo no sentido de sustar ou minimizar o processo degenerativo, através de medidas que interfiram positivamente na sustentação dos ecossistemas e na qualidade de vida das populações atingidas. Dentre os esforços, aparecem as propostas que objetivam a conversão de nossa dívida externa em investimentos na preservação do meio ambiente. Tais propostas dividem as opiniões, pois os critério nem sempre ficam claros ou descobrem-se interesse conflitantes. Já foram aplicadas em alguns países do terceiro mundo, beneficiando áreas problemas bem menores que as nossas, e estão sendo defendidas nos fóruns internacionais como a solução para o caso brasileiro. Apesar de apresentarem muitos pontos questionáveis, creio que não devemos pura e simplesmente descartar estas proposições.

      É preciso, antes de tudo, estabelecer um elevado nível de diálogo para que consigamos demonstrar a necessidade de investimentos diretamente proporcionais  a importância ecológica de uma região continental como a Amazônia. No encaminhamento desta questão é necessário dar ouvidos à competência e descartar todas as soluções oníricas e falaciosas.Não tenho dúvidas que sempre aparecerão proposições sem a mínima vinculação com a verdade da região amazônica. Portanto, é necessário que fiquemos atentos e que a nossa sociedade se mobilize para apresentar projetos e soluções que estejam coerentes com a realidade e os anseios da região, lembrando que a Amazônia pode e deve  utilizar, de modo equilibrado, o seu imenso potencial de recursos naturais como a base de um desenvolvimento que consolide a melhor qualidade de vida de sua gente e um meio ambiente saudável.

                                                           Publicado no Jornal de Brasília, em 28/maio/1991

      HOME # PROJETOS # RADAM # PRODECER # SIVAM # GEBAM # TUCURUI # JARI #CURRICULUM    
MSG # ZONEAMENTO # APIACÁS # PRIMAVERA # OUTROS # GALERIA #ARTIGO1# SERRA LESTE

 

Copyright © 2003  Leonam Furtado Pereira de Souza. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

1