Aos companheiros da UJS
Larissa Gonçalves
Comunico à UJS (União da Juventude Socialista) de Goiás
o meu desligamento da entidade. Deixo compromissos assumidos e não
cumpridos, mas não por falta de vontade de que eles pudessem ter
sido executados em um ambiente que me estimulasse, o que não ocorreu.
A causa principal do meu desligamento refere-se ao próprio funcionamento
da UJS. O centralismo democrático herdado pelo PC do B torna-se
na prática anti-democrático, quando não é dado
aos militantes da base a oportunidade de serem consultados. Os candidados
a cargos em entidades como a UBES e a UGES, por exemplo, são escolhidos
por um grupo pequeno de pessoas, e a base acaba tendo de aceitar. Há
críticas e elas são feitas, mas quase sempre não são
acatadas.
O socialismo, causa principal da UJS (no nome), é discutido esporadicamente,
quando muito. Creio que muitos militantes simpatizam com o socialismo,
mas não encontram sustentação nem profundidade para
defendê-lo. O que abre espaço para contestações
direitistas, e me parece que a direita tem mais argumentos para defender
o capitalismo do que nós para com o socialismo, e uma das causas
seria esse problema da falta de formação.
A discussão sobre conjuntura é feita, mas ainda raramente.
Pela UJS, sabemos que FHC é neoliberal e quer destruir a educação,
mas e o que mais? Nada mais é dito; somos informados de pouco mais
do que qualquer cidadão comum. Será que a prática
é mais importante do que a teoria? Não acredito: as duas
devem vir juntas.
Há ainda a informalidade excessiva. Tudo acaba em bebida, tem-se
a sensação de que o álcool é essencial. Fora
as ações do movimento estudantil, a convivência da
UJS iguala-se aos grupelhos adolescentes dessa burguesia nojenta que tanto
criticamos. Valorizam tudo, menos a causa a que dizem se dedicar: a luta
por uma sociedade melhor. No máximo, há luta por um vinho
melhor... E acredito que não se pode ser irresponsável fora
do partido e encarnar a seriedade assim que se pisa numa reunião.
É por essas e outras que a UJS não é revolucionária.
É, no máximo, reformista, quando não reacionária.
Aspectos de organização também são relevantes,
como a falta de reuniões com dias fixos e de um mesmo grupo assíduo
nas mesmas. Não há pontualidade. Gastamos horas infindáveis
ouvindo monólogos de dirigentes: “somos socialistas” (mas não
discutimos o socialismo... contraditório, não?). Falta de
objetividade total. Questões do PC do B também foram motivo
de discordância. Não consigo entender que um partido que se
diz contra o neoliberalismo possa aceitar a participação
num governo que em nada se difere de FHC. Não consigo ver utilidade
em alianças com figuras nefastas como Roseana Sarney, Mão
Santa e, principalmente, Marconi Perillo. Nem posso ver socialismo de verdade
e democrático na China e em Cuba. Também vejo mínimas
qualidades no que houve na URSS no período stalinista (que acabaram
sendo inúteis); o PC do B vê muitas coisas boas, algumas até
adaptadas aos métodos do partido. Tem-se a sensação
de que Kruschev e outros posteriores foram o mal do país; Stálin
foi apenas vítima de “conspirações”.
É por essas imensas discordâncias que não posso
continuar na UJS. Sou socialista e gosto da democracia. Creio que sem chance
de demonstrações de opiniões diversas não há
como crescer, não há como detectar as imperfeições.
Sendo assim, torna-se impossível continuar na UJS. Deixo também
o meu cargo de diretora de comunicação da UMES, visto que
o cargo é da UJS, e não meu.
Larissa Gonçalves é estudante
do 3o. ano do 2o. grau do Colégio Campus de Goiânia.
Mande um e-mail para Larissa
Gonçalves ou para a direção
do jornal.
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