Indócil


Emmerson Kran

É preciso dizer que “mudança” seja tão somente um termo que a princípio tememos mas, e sobretudo, um compromisso inadiável?
Séculos se dobraram diante de nossas vistas sem que, por ignorância, não tenhamos percebido, ou, o que é pior, por absoluta conveniência permitiu-se que o conhecimento fosse fruído apenas por uma pequena parcela da “humanidade”. 

Existe uma expectativa quando nos deparamos com o novo, o diferente; talvez audacioso, mas imperioso e questionador. Um novo século, ou milênio. Essa expectativa, seja ela fruto da esperança ancestral, ou criação comercial do primeiro Phythecanthropus marqueteirus, sempre gerou um momento de medo e angústia. Um misto de desafio e inércia. 

Do lado de cá das muralhas de minha academia, fico imaginando o que o lado de lá deve também imaginar. Isso porque, até que ambas as partes sejam apresentadas, só podemos... imaginar. “Imaginar” pode ser substituído por muitos outros verbos – fiquem à vontade. 

O modelo de ensino ao qual estamos amarrados foi, há muito, ultrapassado pela dinâmica de uma sociedade que sempre experimentou mudanças; e imprime um ritmo que, se não exige, pede espaço para o novo. Este modelo foi atropelado pelo mesmo dinamismo social, quando ela – universidade – deixou de acompanhar essa (re)evolução, no mesmo ritmo, e interagir. 

Pergunto-me se essa interação deixou de ser feita. Tratava-se de um modelo inadequado e não buscou mudanças? Ou essa interação nunca coube dentro da dinâmica social. 

Quando o aprendizado nasce dentro de uma interação, num processo de diálogo com a diversidade, portanto democrático, surge o indócil. 
O indócil é aquele que experimenta um discurso teórico e prático, confrontando esse conhecimento in loco, numa relação sadia, educador-educando, sem a fragmentação do saber e do experimento, tornando-se cúmplice de um processo que, agora sim, entendo como educação.

O indócil não vai suportar um educador que negligencie as múltiplas possibilidades de busca e inter-relação do conhecimento. Essa inter-relação se torna mais qualitativa e quantitativa, quando “pulamos” os muros de nossa academia, ou permitimos sermos “assaltados” por todos que precisam, por direito, do saber. É preciso, ainda, despojarmo-nos das armas e barreiras cultivadas pelo vício acadêmico (mais tarde quero refletir sobre esse “vício acadêmico”).

Mudança é ruptura. Antes disso, ou melhor, juntamente com isso, sentimos um contínuo processo de despir e (re)vestir conceitos. Talvez um aprendizado dolorido; adiável, mas inevitável.

Mudança é medo. Medo de abrir mão do feudo intelectual e compartilhar experiências com a diversidade. Medo de deixar a aconchegante e suposta “posição”, mesmo que por instantes, e sentar-se com os “outros”, discutindo, ensinando, e acima de tudo, aprendendo e compartilhando.

O indócil irá “comer o sal”, por enxergar que o gosto da vitória é um arco-íris de sabores que demanda tempo e esforço. E o comunicador, não o Jornalista, o Radialista, o RP, o PP e o Biblioteconomista, mas o COMUNICADOR, necessita enxergar que uma nova ordem há muito nasceu, e precisa ser trabalhada no diálogo com essa diversidade, seja qual for o meio.

Já vai longe esse modelo ditatorial, portanto, ineficiente, opressor e antidemocrático de aprendizado que temos desde os primeiros passos nas escolas. Incluindo nessa concepção a educação recebida de nossos pais.

A insurreição surge no momento em que não se tem garantia do mínimo para uma sobrevivência digna. Rebeldia é sintoma.

Emmerson Kran é estudante do 4o. ano de radialismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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