A vingança dos niilistas
Nazareth L. de Paula
Cena I (num bar escuro, acompanhados de uma música bastante
sombria, dois jovens conversam lentamente, enquanto olham para uma garrafa
de vinho)
Lana - Escuta, Thierry, o mundo não acabou, apesar de
tudo o que disseram e de tudo o que fizeram. Isso não é horrível?
Então, estamos realmente sós, e ninguém irá
nos destruir. Queria que alguém me destruísse...
Thierry - Ora, Lana, sempre ingênua! Você acreditou
mesmo, minha querida, que o mundo pudesse acabar? Ainda não aprendeu
que nem tudo acontece como nos contos de fadas!
Lana - Infelizmente não, mas você também
acreditou que o mundo pudesse acabar, não é verdade? Vamos,
confesse. Confesse que o desejou e que sentiu medo! Para mim, pode tirar
sua máscara!
Thierry - Talvez, Lana, talvez... Por alguns instantes... eu
pensei que poderia ser bom ver o fogo se alastrando. Seria melhor vê-lo
nítido do que senti-lo de forma velada, corroendo aos poucos. O
mundo está em chamas, e ninguém parece perceber. Eu queria
que os cegos enxergassem...
Lana - Se pudéssemos pôr fogo no mundo, mas ele
é tão extenso, e há tantas pessoas. Todos têm
filhos o tempo todo, e já não há mais lugar pra tanta
gente! Por que têm filhos se não podem tê-los? Por que
são tão ignorantes?
Thierry - Não sei, Lana, talvez sintam atração
pela desgraça, ou queiram talvez que a ruína se torne total,
para que não tenham mais nenhum tipo de esperança. Pode ser
que queiram o fim logo.
Lana - Assim como nós, não é, Thierry?.
Tenho horror a tudo isso, sinto náuseas quando percebo que as pessoas
a minha volta não sabem falar, não sabem ouvir, não
sabem quem são, onde estão, e não sabem nada, absolutamente
nada.
Thierry - Tem razão, e, como se não bastasse, todos
querem impressionar e não sabem por quê. Querem o poder e
não sabem por quê. Querem dinheiro, e não sabem por
quê. Querem o cristianismo e, no entanto, não são cristãos.
Querem o socialismo, mas têm espírito burguês. Querem
o capitalismo, e não são maus o suficiente. Em tudo há
farsa, somente farsa.
Lana - E ainda nos acusam! Isso não é hilário?!
São tão afetados, tão irritados, tão apressados,
e, no entanto, não sabem por quê! Eu me divirto vendo com
que seriedade levam suas vidas, com que seriedade administram seus negócios
e com que seriedade se fingem comovidos.
Thierry - O mundo nada mais é que uma brincadeira. É
assim que o vejo. Nem mesmo o intelecto foge à regra. Assim como
Oscar Wilde, eu considero o intelecto apenas mais um instrumento pra gente
brincar, apenas isto.
Lana - E vão continuar olhando pra gente com essa admiração
tola, com medo, com inveja, como se soubéssemos algo que eles não
sabem, e não sabem mesmo! Eles nos temem porque os enxergamos como
eles realmente são.
Therry - Vamos esquecer esses hipócritas, essas pequenas
formigas. Vamos continuar bebendo e rindo deles. Diga, Lana, se o mundo
acabar, você segura bem forte a minha mão?...
Nazareth L. de Paula é estudante do 4o.
ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para a direção
do jornal.
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