O fenômeno dos 15 minutos
Marcela Baiocchi
Foge-me agora o nome de um certo inglês ou americano (e nota-se
aqui que do mesmo modo foge-me a nacionalidade...) que disse certa vez
que o nosso século seria "o século dos 15 minutos de fama",
dado o advento da televisão e o surgimento do aparato midiático,
que anda à revelia das pessoas. Acompanhando o noticiário
numa dessas emissoras de grande repercussão e o desenrolar dos fatos
reportados, esta frase me vem à tona por sua imensa genialidade
e caráter aplicável: tanto se aplica a "fenômenos pseudo-artísticos"
extremamente efêmeros, como é o caso de uma bailarina de duvidável
talento chamada Carla Perez, como também de outras pessoas comuns,
provindas geralmente de subúrbios onde a ignorância casa-se
com um aparelho de TV ligado. Quando estas, por alguma circunstância
de relativa importância são transformadas em notícias
e transmitidas na TV, sentem-se profundamente extasiadas. Querem repeteco.
Eis que surge então, algum político ou empresário
(ou seja lá o que for!) oportunista, se aproveitando da brincadeira
para ter os seus 15 minutos de fama, com a audaciosa pretensão
de perpetuar esses 15 minutinhos. Afinal, político é político...
Foi este “picadeiro midiático” tantas vezes formado e aplaudido
que há poucos minutos observei, no "Jornal das 8:00". Tudo começou
quando noticiaram, no dia anterior, uma escola numa cidadezinha do interior
goiano que se localizava nas proximidades de um cemitério e cujos
alunos eram obrigados a conviver, na sala de aula, com a paisagem fúnebre
dos túmulos ali construídos. Foi levantada a hipótese
de que tal paisagem incomodasse os alunos, ou o próprio trabalho
da professora, que contrariando tais perspectivas, relatou: "Morto não
incomoda ninguém não, só vivo!"
A reportagem tem lá o seu grau de importância, digamos
assim, pois não nos é estranho a precariedade das instalações
públicas escolares, a falta de material ditático, de carteiras
e outras coisas irrelevantes para o funcionamento digno desta instituição.
Os locais onde estas escolas são instaladas, devem, antes de tudo,
viabilizar o acesso dos estudantes. Ao meu ver, como diz a tal professora,
"morto não incomoda ninguém" o que me deixa a triste impressão
de que se trata de mais uma daquelas reportagens cujo objetivo é
transformar jornalismo sério em show de auditório, assim
como reportaram certa vez a audácia e a coragem dos bombeiros para
salvar um cãozinho levado pela enxurrada no Tietê. Ou
seja, nada mais nada menos do que atrair a exclamação pública:
"Vejam só, uma escola no cemitério!!!" Isso tem tom de pilhéria...afinal,
audiência é audiência...
O fato é que, nesta tarde, o "Jornal da Tarde" da emissora Globo,
(este mesmo, de transmissão nacional!) relatou o quiproqüó
de uma cidadezinha do inteiror goiano, para o delírio de seus moradores.
E na seqüência, no jornal das 8:00, de transmissão regional,
aparece lá o politicozinho (que nem sequer o nome foi mencionado)
prefeito da cidade, dizendo que vai desativar a escola. E outros tantos
anônimos, eufóricos com a presença dos filmadores,
gritam em protesto: "Queremos a escola aqui!" Polêmica?
Infelizmente a minha inteligência é modesta, porque,
sinceramente, eu não entendi. O prefeito se propôs a desativar
a escola, certamente pretendia também deslocar os alunos. Então,
a presença dos manifestantes é desnecessária. Ou ao
contrário, o protesto tivesse a razão justamente porque os
alunos ficariam sem aulas. Mas isso seria possível? Os manifestantes
queriam a escola ali. Outro lugar não serviria. Por quê? Qual
a relevância disso tudo? O que isso pode suscitar na opinião
pública?
Entendimento é inútil. No meio de notícias como
o rombo do dono da Vasp no Governo, a nova Lei dos Genéricos e o
absurdo do aumento dos preços, da situação dos hospitais,
a nova Lei da Responsabilidade Fiscal etc., a tal reportagem da escola
"mal assombrada" será mesmo mais um fenômeno de 15 minutos,
como diria o escritor mencionado. Afinal, mídia é mídia...
Marcela Baiocchi é estudante do 1o. ano
de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para Marcela Baiocchi
ou para a direção
do jornal.
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