Continho do fim-do-mundo
Liliane Gonçalves Bello
Era uma fria manhã de novembro. Subitamente, ela acorda, sem
fôlego e com o coração descompassado... Tivera um sonho
muito estranho. Nem sabia se era mesmo um sonho ou uma realidade, como
se estivesse vivendo em uma realidade paralela. Lembrou, então,
do filme "Matrix", em que a realidade não passava de um mundo de
sonhos, virtualmente programado.
Ah! Mas, "deixa pra lá", pensou. Porém, recordando das
palavras de seu sonho, não conseguia parar de pensar "nisso". Era
como se soubesse, única e exclusivamente, que o mundo iria acabar
dentro de 24 horas. Sentia o peso desesperador de ser a única pessoa
a saber do fato.
Mesmo tentando se esquecer de seu delírio sonolento, não
conseguia. Tudo o que vinha à sua mente estava, de uma forma ou
de outra, relacionado ao fim de sua vida. Ora, e não somente da
sua, mas de todos os outros.
Pensou em sua mãe, em seu irmão, em seus amigos. Pensou
naquele garoto especial e em toda a sua vida. Sentou-se melancolicamente
na varanda de sua casa, apenas lembrando de tantas situações
vividas.
Lembrou-se daquela música do Paulinho Moska, em que pergunta:
"o que você faria se só te restasse um dia? Se o mundo fosse
acabar, me diz, o que você faria?"... Mas, que trágico e fatídico
destino, hein? Que paranóia era essa que se instalava em sua mente???
O que estava acontecendo?
E, tentando responder à pergunta contida na música, ficou
imaginando o que faria neste seu último dia. Correria atrás
de um amor perdido? Iria ao cinema e veria todos os filmes possíveis?
Ingeriria todas as calorias que custou a perder? Passaria o dia com sua
família, provavelmente na frente da TV? Declararia sua paixão
pelo colega de classe?
Não sabia. Simplesmente não sabia. Provavelmente não
faria nada de ousado ou diferente. Afinal, sempre fora uma pessoa comum,
sempre seguia as normas sociais, sempre fez tudo como os outros desejavam
que fosse feito. Por que agora iria mudar? Por que iria, pela primeira
vez, ouvir o que realmente sentia? Era muito insegura, muito passiva.
Mesmo sabendo que o mundo desabaria sobre sua cabeça, sentia-se
incapaz de ser um pouco louca e um pouco original. Tinha medo de tirar
a máscara que encobria os seus sentimentos. Tinha medo de sofrer.
Até que descobriu que não viveu.
Então, entediada, ficou esperando... Apenas esperando, como fizera
durante sua vida inteira. De tanto pensar, acabou por deixar que o dia
passasse, sem nem ao menos perceber. Não fez nada do que tinha vontade.
Não fez nada do que tinha direito.
Apenas ficou ali, em sua varanda, olhando o vazio imenso ao seu redor
e em seu interior. Deixou-se levar por sua passividade natural, agarrando-se
a imagens do passado, deixando de fazer um presente e sonhar com um futuro.
Sentada na cadeira de balanço de sua avó, permaneceu muda,
esperando seu fim inevitável, que chegou antes do fim do mundo.
Encontrava-se morta, antes de iniciar sua vida; antes de encontrar o que
sonhara e pelo qual não lutara; antes mesmo que o fim fosse anunciado.
O que ela não tinha entendido, e que agora percebia, é que
seu sonho não dizia respeito à humanidade, mas a si própria.
Morreu lentamente, definhando-se por dentro.
Liliane Gonçalves Bello é estudante
do 2o. ano de jornalismo da UFG
Mande um e-mail para Liliane Gonçalves
Bello ou para a direção
do jornal.
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