A comédia do amor desfeito
Sempre tive dificuldade com as mulheres. Dessa vez fui
um fiasco.
Luís Cláudio Guedes
A primeira vez que vi Angélica foi naquela confeitaria no centro
da cidade. Como de hábito, antes de subir para o escritório
em que trabalho, passei naquele local para uma olhadela no jornal do dia
e um rápido lanche antes do batente. Distraído com a leitura,
só me dei conta de que alguém estava me abordando na terceira
chamada.
- Deseja alguma coisa, senhor?
O papel-jornal caindo sobre a mesa descortinou o par de olhos mais lindo
que eu jamais vira: verdes, enormes, donos de um brilho acolhedor e especial.
A partir de então, a confeitaria onde Angélica trabalhava
virou meu vício e ela própria a minha religião. A
moça era uma perfeição no seu conjunto. O rosto magnífico
era coroado por uma enorme e sedosa cabeleira castanha, que por sua vez
cobria até a metade um corpo fenomenal. Nem a excessiva sobriedade
das suas roupas muito compridas, que a princípio não gostei,
conseguia lhe esconder a exuberância física.
Angélica se tornou minha obsessão e conquistá-la
era uma questão de honra. Meu minguado salário de assistente
num escritório de advocacia comportava agora os mimos que a minha
musa merecia. No dia em que lhe levei o primeiro buquê de rosas,
tive que encarar os olhares maledicentes dos demais freqüentadores
do lugar. Ter que admitir em mim este inusitado romantismo piegas foi uma
verdadeira prova de fogo. Mas vá lá, por ela eu faria qualquer
sacrifício. E fiz.
A moça era dura na queda e este episódio das flores seria
café pequeno frente ao que ainda me aguardava. Muitos ramalhetes
e caixas de bombom depois, ela finalmente concordou em ir comigo ao cinema.
Ôba, fizemos um avanço! Angélica desceu do ônibus
bairro-centro trajando uma daquelas roupas compridonas e um volume escuro
debaixo do braço, que depois descobri ser a Bíblia, sua companheira
inseparável. Naquela altura eu já sabia que a minha deusa
era uma evangélica xiita, mas o que importava era que ela estava
ainda mais radiante sem o uniforme da lanchonete. Cheguei mesmo a achar
normal a sua exigência para que fôssemos a uma matinê
e que o filme em cartaz não mostrasse cenas de sexo. A paixão
nos torna ridículos. Eu fui.
Nosso namoro seguia no trivial por meses a fio e eu sonhava com o dia
em que finalmente teria o merecido troféu, Angélica vencida
e finalmente minha. Ela, contudo, jamais baixava a guarda. Nossa primeira
e única visita a um motel se deu sob condições especialíssimas:
eu não poderia tocá-la. Topei, imaginando tratar-se de uma
sutil artimanha da minha amada para tornar mais interessante a nossa noite.
Grande decepção! Contentei-me em contemplar a sua imagem
quase diáfana na penumbra oferecida pela luz regulável.
Jamais paguei tamanho mico na minha vida, mas devo reconhecer que a
figura excepcionalmente bela de Angélica, vestida só por
uma sugestiva lingerie branca tinha um apelo quase místico, qualquer
coisa de sagrado. Sentada a um canto da cama redonda com o rosto banhado
em lágrimas, ela suplicava para que eu não me aproximasse.
Fui e não fiz.
Como na lenda de Hércules e a sua dúzia de trabalhos impossíveis,
um dia Angélica propôs que eu fosse conhecer a sua igreja.
Relutei muito ao considerar o despropósito da idéia, mas
aceitei na esperança de enfim cair nas graças daquela mulher
quase invencível. Após ouvir uma cantilena interminável
sobre os perigos dos pecados mundanos e a imperiosa necessidade da salvação
das nossas almas, fui surpreendido com um convite para que subisse ao púlpito.
Ao olhar desesperado que lhe lancei, Angélica balançou afirmativamente
a cabeça como a me incentivar.
Acuado e sem poder esboçar qualquer reação diante
de tanta gente, aproximei-me do pastor e do grupo que o assistia. O homenzinho
eloqüente (que depois descobri ser o pai da minha namorada) pediu
para que eu ficasse de joelhos e sobrepondo a mão direita sobre
a minha cabeça, começou a exortar à assembléia
em transe que orasse pela expulsão dos meus demônios. Com
os olhos, pedia em desespero para que Angélica me tirasse daquela
situação vexaminosa e a moça me devolvia um sorriso
belo e enigmático, que não pude decifrar se de beatitude
ou de puro sarro.
No fim das contas, fui levado por quatro assistentes do pastor para
dentro de um tanque ou piscina plástica, não estou bem certo,
e só de cueca, pois me recusei terminantemente a molhar a roupa,
fui “batizado” em vigorosas submersões. O vozerio da pequena multidão
se regozijava por eu ter “aceitado” Jesus. Saí dali correndo, como
se uma legião de demônios estivesse no meu encalço.
Não tornei a ver Angélica, a evangélica, nem voltei
a por os pés na confeitaria do centro. Meus irmãos, mudei
até o itinerário.
Luís Cláudio Guedes é estudante
do 4o. ano de jornalismo da UFG.
Mande um e-mail para Luís
Cláudio Guedes ou para a direção
do jornal.
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