O brasileiro dos cinco séculos


Eduardo Horácio Júnior

Lá se vão 500 anos. Sim, todos já estão cansados de ouvir isso. Ao arriscar um artigo sobre este tema, já desgastado precocemente, quis escrever sobre o brasileiro que melhor representaria o Brasil em todos esses cinco séculos de “descobrimento”. Depois de uma breve análise, optei por escolher o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. 

Feita a difícil escolha, mostro minhas razões. Já nas primeiras horas de vida, Betinho quase morrera por causa de uma hemorragia no umbigo. Começava ali a história de um brasileiro típico que, como outros, desafiava o seu destino. Aos oito anos, quase morreu com um corte no lábio: descobriu que era hemofílico. Na adolescência, teve tuberculose, e se curou numa época em que a cura era quase impossível. Sobreviveu a dois golpes militares, no Brasil e no Chile. Depois, ainda contraiu o vírus da Aids. 

Essa é a parte do indivíduo Betinho. Sim, porque Betinho não era só um indivíduo. Ele fez parte de uma geração que pouco se importava com seu destino individual. O sociólogo mineiro sempre se debruçou, de corpo e alma (como manda o clichê), sobre as causas que considerava justas e urgentes.

Na década de 60, organizou a AP (Ação Popular), mostrando ineditamente à esquerda brasileira que era possível ser socialista sem ser stalinista. E que também era possível ser de esquerda sem deixar de ser cristão. Mas esse Betinho poucos conheciam. O mineiro dos eternos 47 quilos de peso só começou a ser realmente notado quando Elis Regina cantou que o Brasil sonhava com a volta do “irmão do Henfil”. Clamava-se pela anistia. Com ela, chegava então o irmão do famoso cartunista.

Betinho, ao contrário de outras figuras da esquerda que voltavam do exílio, não quis aposentadoria ou cargo público. Queria mudar seu país. E foi à luta, silenciosamente. Com a Aids, seus irmãos e alguns amigos morreram. Com a derrota das campanhas pelas diretas, com o fracasso do governo Collor, Betinho foi convidado a abandonar seus sonhos. No entanto, sempre disse que não tinha esse direito. 

Mas passou por um período complicado. Para enfrentar melhor a doença, começou a falar de Aids num momento em que ela provocava medo e distanciamento. Mas ainda era pouco. Multiplicou as ONGs com o seu Ibase e deixou a esquerda mais uma vez perplexa lançando a Ação da Cidadania. Liderou uma campanha de solidariedade que o Brasil jamais havia conhecido em sua história. Os homens oficiais estavam demais envolvidos com o estatal para se lembrarem do público. Betinho tornava-se mais popular do que ministros de Estado. 
 Betinho tinha fé sincera nos cidadãos para, com eles, transformar o país. Superou a crítica dos principais partidos de esquerda, mostrando que, enquanto a revolução não acontece, é preciso dar de comer aos que têm fome. Pela primeira vez um brasileiro conquistava a confiança dos pobres sem manipulá-los com a demagogia habitual dos velhos coronéis. 

Sua cruzada contra a miséria era muito bem mais articulada do que se pensava. Numa segunda etapa, quis combater o desemprego e, depois, lutar pela reforma agrária. Dizia que fome se combate com comida, mas miséria se combate com emprego e terra. A mídia, deliberadamente, começou a diminuir o espaço de Betinho. Mas ele sabia que isso, mais cedo ou mais tarde, aconteceria. Betinho, no entanto, ainda teria tempo para incluir na agenda nacional um tema de suma importância: ética na política. Já perto de sua morte, FHC o cooptou para o Comunidade Solidária, mas ele logo percebera que era um ato de demagogia do presidente.

Poucos brasileiros famosos estiveram tão comprometidos com seus sonhos como Betinho. Entretanto, uma simples revisão de tudo isso pode nos dar a sensação de que tudo o que ele fez foi em vão. Afinal, a desigualdade no Brasil nunca esteve tão forte como agora. Só que, arriscando a vida por um projeto, Betinho foi salvo pela História.

Convenceu muitos brasileiros que a miséria é produto do comportamento político e não de um suposto destino nacional. E mostrou a todos os partidos de esquerda que o imediatismo, trabalhado com responsabilidade, também é preciso quando vidas humanas estão em jogo. A vida de Betinho, assim como a de muitos brasileiros nesses 500 anos, só não é de ficção porque aconteceu. Enfim, morreu como símbolo de uma sociedade civil que começava a nascer de verdade. 

Eduardo Horácio Júnior é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Eduardo Horácio Júnior ou para a direção do jornal.

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