O homem que morreu de novo


Gilberto Gomes Pereira

“viver é muito perigoso...”
Riobaldo
Um sujeito aparentemente normal. Comia, bebia, sentia frio e calor. Quando criança, ia à escola acompanhado da mãe. Foi nesse tempo que, no colégio, ficou 674 dias e 18 horas trancado num armário velho, fora de uso, atrás de um quadro antigo, pintado por um pintor medíocre da cidade, porque a professora pedira para ele cantar e dançar a música “Os dez indiozinhos”, em inglês. 

Ao contrário de Mário Qunitana, ele já sabia que a Terra era redonda, e a esperança para ele era apenas um fracassado conjunto de projeções mal elaboradas pelos homens que ousam sonhar. Não conseguia  compreender por que havia o infinito, e planejava chegar, um dia, à fronteira do fim do mundo. Suas idéias eram contraditórias, e quando todos buscavam uma solução para acabar com o ódio na Terra, ele dizia que esse sentimento era primo-irmão do amor e que a morte era a companheira inseparável de ambos. Para acabar com o ódio, portanto, seria preciso morrer. 

Conhecia cada ramo da psicologia humana. Sabia dizer com exatidão por que o homem sentia dor, e quando alguém lhe perguntava por que tanta infelicidade sobre os mortais, ele respondia, com um olhar profundamente distante e um meio sorriso entre os lábios, entre o sarcasmo e a indiferença, que a dor solidificava as ações do homem. Ao ser abordado pelos mais inexperientes sobre como fazer para ser reconhecido pelos homens de bem e respeitado pelos superiores, ele dizia, numa vaidade filosófica que iluminava a alma e enegrecia os sentidos, “basta não saber nada e pensar que sabe tudo, e buscar a verdade pelo que os outros pensam e não pelo que você vê. Aí então todos terão prazer em citar seu nome e vangloriar sua passagem pela medíocre existência dos homens comuns”. 

Foi num dia sem sol e sem chuva e que as nuvens teimavam em escurecer a vida das pessoas, que ele se recostou a uma parede do muro de sua casa, debaixo de uma árvore de grandes folhas, cruzou as pernas em posição de lótus, pôs as mãos sobre as coxas e mergulhou numa tão profunda meditação que nem seus olhos nem sua boca se abriram durante trinta anos. Sustentava o corpo através da alma que se alimentava da fé das pessoas que o visitavam e adoravam-no, dizendo que ele era o Santo especial de Deus. Depois ele acordou, sem saber se dormira e sonhara ou se apenas refletira sobre o nada, percebeu que seu corpo estava jovem, jovem demais para um homem de setenta anos e que, em vez de perseguir o futuro, havia revivido o passado. 

Com uma angústia que contorcia o espírito, por ter visto de novo os mesmos disparates, as mesmas dores e os lampejos de felicidade que contradizem com o espectro triste da vida mediana, foi condescendente com o desespero silencioso do mundo, mas não suportou a idéia de ter presenciado, da mesma forma, esse contínuo drama de um ato só, se tivesse vivido para frente, e seus olhos reluziram com lágrimas turbulentas feitas de tristeza, sua retina transmitiu imagens que traduziam a dor cósmica e seu sofrimento se afogou em soluços copiosos que desfiguravam-no o rosto desencantado, a agonia consumiu seus últimos segundos e ele morreu de desespero por saber que experimentaria tudo isso novamente se continuasse vivendo. 

Gilberto Gomes Pereira é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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