Mobilizados pelo pecado capital
Melissa Cristina Rodrigues
- Meu caro Giordano Maçaranduba, parece que você realmente conseguiu mobilizar a despolitizada, acomodada, e bestializada turma do 2º ano de jornalismo. Turma que eu adoro. Onde consegui os melhores amigos que já tive. Estou sendo bem direta ao escrever este artigo dedicado a você, o que não é de meu costume.
- Gostaria de entender melhor a razão da sua crítica ferrenha à minha turma, com a qual, diga-se de passagem, você não tem muita intimidade para fazer tal análise. Pode ser ignorância minha mas, afinal, o que você entende como "estudante politizado"? Seria melhor que você tivesse sido ainda mais específico, mas ainda assim, vou tentar usufruir do meu direito de réplica.
- Bom, se alguém espera encontrar na turma do 2º ano de jornalismo militantes para o PSTU, PT, PC do B, ou qualquer outro partido, pode procurar em outro lugar, pois realmente não há militância. Veja bem, não estou criticando as pessoas que aderiram a partidos políticos, o que quero dizer é que para ser politizada uma pessoa não precisa aderir a uma ideologia partidária. Também não acho que ser politizado signifique escrever textos de oposição a FHC no jornal, com aqueles velhos discursos de domínio consagrado.
- Em relação aos movimentos e reivindicações estudantis, se alguém da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia chegar no 2º ano convidando os alunos para mais uma manifestação inútil, certamente não vai ter grande sucesso. Isso não passa de armadilha para calouro. Palavra de quem já caiu nela. Eu vou ser terrivelmente pessimista, mas tenho a suave impressão de que os movimentos estudantis perderam a credibilidade perante os próprios estudantes.
- Agora, se eu ou qualquer colega de 2º ano convidar a turma a se reunir depois da aula para discutir qual vai ser nosso posicionamento diante do provão, garanto que um número razoável de alunos vai dispor de seu tempo para o debate. Pode ser ingenuidade minha, mas é isso o que eu afirmo. Admito que haja uma falta de iniciativa de nossa parte, mas acho que nem tudo está perdido por causa disso, não é mesmo? Quando vale a pena se mobilizar, a maior parte dos estudantes parte para uma ação mais efetiva. Um grande exemplo disso você mesmo deu, ao dar sua picada, enquanto, nós, mordidos, nos mobilizamos em dar uma resposta.
- No mais, eu sinto muito pela sua turma, se ela realmente é como dizem, já que não tenho tanta intimidade com o 4º ano, ainda que nessa turma haja pessoas que eu admiro e respeito. Gosto até mesmo do maquiavelismo da sua turma, por mais absurdo que isso possa ser, se é que você me entende.
- A vaidade do jornalista é realmente alarmante. Há uma disputa de vaidades. E é difícil fugir disso. Mas ela existe em muitas profissões, veja os médicos, os advogados, os engenheiros... O que acontece é que precisamos saber como lidar com ela, tarefa nada fácil. Como já disse, é muito difícil fugir da vaidade. Olhe para você, em sua atitude de rotular os estudantes de jornalismo dos anos pares de acomodados, inúteis, maus profissionais, despolitizados, enquanto os dos anos ímpares são os mobilizados, filósofos e competentes. Sei que você falou das exceções, mas isso não atenua a sua generalização, que soa como ofensa gratuita.
- Por falar em filósofos, outro aspecto da minha turma é que homens e mulheres têm o mesmo nível intelectual. Das outras turmas eu não sei. Se você julga ser raro encontrar mulheres filósofas, me pergunto qual seria o seu critério. Eu, como boa feminista (eu sei que ninguém mais agüenta ler os meus textos sobre esse tema, mas e daí?) garanto que conheci muitas filósofas, desde o meu tempo de 2º grau.
- Ah, Giordano, você subestimou meu adorado 2º ano, sem nem conhecê-lo direito. E na minha opinião, subestimar já é uma atitude egocêntrica. Viu só, nem você, politizado, competente, mobilizado e filósofo escapa da vaidade! E nós mesmos, fomos mobilizados por ela, a vaidade, o orgulho ferido. Poderoso pecado capital!
- Mesmo assim, eu tento entender a sua decepção com despolitização geral dos estudantes. Eu mesma fiquei um pouco desanimada ao ir a um debate sobre autonomia universitária e ver pouquíssimos estudantes se interessarem por discutir o tema. Mas, o que entendo com o pouco que sei e o que me parece é que a nossa geração é comodista, cética em relação à política e sem ideologia.
- Eu lamento que a sua turma seja assim, desunida como você diz. Felizmente, não posso dizer o mesmo do 2º ano. É claro que existem grupos de afinidade, denominados "panelinhas", como em qualquer turma. Tem o grupo da frente, o do fundo, o da direita, o da esquerda, e outros isolados. Mas todos se dão bem e se unem quando é preciso. E você ajudou a mostrar isso para toda a Facomb (Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG). Muito obrigada.
- Ah, detalhe. Quem conseguiu a foto fui eu. É, gastei dinheiro com filme e revelação só para dar uma resposta a você. Parece bobagem, não? Dei muita importância a algo que não merece. Mas essas fotos eu vou guardar de recordação, como a melhor e mais unida turma que já tive.
- Desculpe se exagero na crítica, já que temos uma relação amistosa. O que acontece é que, você sabe, a lei da ação e reação não falha. Eu mesma já fui muito criticada, como aquela vez em que o padre de Anápolis escreveu em resposta ao meu texto. Entendo as razões dele. No entanto, minha opinião continua a mesma. Já pensou se todos tivéssemos a mesma opinião? Que tédio seria, não?
Melissa Cristina Rodrigues é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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