O guerrilheiro argelino e o pai de família francês

Jardel Sebba Filho

Um artigo bem escrito é como aquele orgasmo múltiplo que as leitoras da Nova vivem tentando alcançar. Um vez eu li um bom artigo numa revista ruim no qual o autor indicava dois imperativos para que o jornalismo brasileiro atingisse o posto de um dos melhores do mundo. Primeiro, a proibição de serem veiculadas opiniões de artistas de qualquer espécie nascidos da Bahia. Depois, a eliminação de todo e qualquer obviedade ou lugar comum. Ignorando, muito a contragosto, a deliciosa provocação sobre a abrangência do pedantismo "cultural" baiano, nos resta a constatação que estamos cercados de lugares comuns por todos os lados. Sempre é possível se deparar, seja na grande mídia, seja dentro de casa, com alguém testemunhando enfaticamente sobre a alta do índice de desemprego no governo FHC ou sobre a importância do legado que Tom Jobim deixou para a música popular brasileira. E uma das vertentes mais constantes dessa praga que tanto mal faz nossos textos e opiniões é o pacifismo exacerbado. Todo mundo é contra a violência, todo mundo acha que tudo pode ser resolvido de forma pacífica, todo mundo acredita que a agressão não leva a nada e é uma grande estupidez. É sempre um absurdo assistir às brigas nos estádios de futebol ou mesmo constatar a alta dos níveis de insegurança nas grandes metrópoles, e preferível, é claro, ignorar a complexidade das relações humanas e seus contextos históricos e culturais. Isso acontece sempre que uma bomba explode no metrô de Paris e um grupo terrorista argelino assume a responsabilidade, a gente assiste na televisão e fica revoltado pela morte daquela dezena de pessoas inocentes de uma forma tão brutal e desumana. O apresentador fala da notícia num tom revoltado, e nós repetimos, porque não gostamos muito de pensar e muito menos conhecemos a história da colonização opressora e humilhante daquele país pequeno e muçulmano na África - se a gente já tiver ouvido falar em Albert Camus, jura que ele é francês, daqueles que aparecem nos filmes da HBO. Mas quando o pai de família francês e o guerrilheiro argelino acordam na manhã da bomba para levar suas vidas em frente, cada qual do seu jeito, sinto que acontece alguma coisa maior em relação à minha vida que uma simples violência estúpida e desnecessária ou mesmo algum sinal de protesto ou de revolta social. Como sou incapaz confesso de falar de qualquer coisa que não me diga respeito diretamente (e apolítico segundo as cartilhas do PC do B, porque acho que política sem viabilidade prática é como jornalismo sem público, só atende ao ego de quem faz), acredito que entender a maneira como um se relaciona com o outro é um aprendizado muito maior que qualquer condenação pronta que se possa apanhar na esquina, ou na grande mídia, ou mesmo dentro de casa. E, mais importante, é um aprendizado interno, intimista, quase psicanalítico.

Isso porque tem dias nos quais acordo me sentindo o pai de família francês. Dias nos quais a vida faz sentido por ela própria, nos quais a felicidade reside nos momentos comuns, quase automáticos de todo dia. São nesses dias nos quais nada precisa ser dito de extraordinário, porque extraordinária já é a rotina da vida. São neles também que me dá vontade de verbalizar para as pessoas tudo o que sinto, são nesses dias que a hora passa rápida demais, o espírito é leve e eu encontro tempo para constatar que me sinto feliz algumas vezes, com tudo e, principalmente, apesar de tudo. São nesses dias que faço uma avaliação do que passou e do que está por vir e consigo vislumbrar o que passou desapercebido na correria das horas. Quando a manhã pertence ao pai de família francês dentro de mim, nada pode fazer mais sentido que estar vivo, as pessoas que passaram são lembradas com carinho por terem desempenhado um papel que acabou, como tudo acaba - nesses dias é possível aceitar que tudo acabe - e os rostos daqueles que olham para mim pelo caminho, por obrigação, casualidade ou hábito, trazem alguma coisa que me ajuda a esquecer as tristezas e frustrações. Quando acordo me sentindo como ele, que pega o metrô apressado pensando nos filhos que acordaram com muita recusa ou nas pessoas do mesmo trajeto de sempre que continuam vivas e falando coisas iguais, ou mesmo analisando aquela mulher que viaja sozinha e traz uma angústia que, em outros dias, também é sua nos olhos, sem entender o motivo, percebo que há mais do que o meu caminho para o trabalho na vida, mas não muito mais.

Existem outros dias nos quais eu acordo como o guerrilheiro argelino, cansado de guerra, machucado pelas circunstâncias. São os dias de revanchismo, de agressão gratuita, dias em que todo o mal que o mundo me faz fica puro e cristalino à minha frente. São nesses dias nos quais cada ponta de mágoa ressentida estoura, fere, mostra seu poder. Quando isso acontece, percebo que não faria diferença estar ou não estar naquele metrô, ou naquela cidade, ou entre aquelas pessoas, porque para elas, assim como para o metrô e a cidade, nada muda sem a minha presença, nada se altera pela minha falta, nada se ressente da minha ausência. São nessas horas que passam devagar e angustiada que, como aquele homem ferido em sua religião e sua cultura, não consigo entender quantos motivos as pessoas podem ser capazes de encontrar para sorrir, ou mesmo para continuar com suas vidas medíocres e sem perspectiva. São nesses dias que entendo que, onde quer que esteja, vou estar sozinho, e estou condenado a carregar todas as tristezas do passado que calaram como bagagem. Quando a manhã é do guerrilheiro argelino, entendo que nenhum amor vai ser inteiro, nenhuma felicidade vai ser completa, nenhum lugar vai ser abrigo da minha solidão, porque ela vai estar comigo onde quer que eu vá. Nesses dias o ódio é a forma mais adequada de transmitir a maneira como as coisas me atingem, e a angústia e a revolta são os atalhos de expressão que a minha dor encontra.

Desconhecendo o famigerado meio-termo, sem mesmo sentir sua falta, está é a divisão dos dias, dos espíritos, das intenções e gestos nas minhas manhãs. Assim como no metrô de Paris, dentro de mim também resta a dúvida de quem é responsável pela morte de quem, mas não resta dúvida de que, num longo processo cotidiano, um vai matando o outro lentamente, e a bomba é só um artifício externo para que, numa realidade distante e de forma acrítica, possamos exercer nossa retórica de obviedades. No metrô de Paris ou dentro de mim, um precisa do outro para viver e morrer. Assim, deixam claro como, ao contrário da falsa expectativa da correção absoluta ou da fácil condenação moral de tudo que agride, ninguém está certo ou errado, cada um cumpre seu destino. O pai de família francês e o guerrilheiro argelino são como o amor e o ódio: só existem e se reconhecem porque convivem lado a lado. Dentro de mim, no metrô de Paris e em todos os demais lugares onde haja um coração pulsando.

Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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