O mundinho dos espertos
Eduardo Horácio Jr.
- Para quem gasta seu tempo entre as festas de sábado à noite e as ressacas de domingo de manhã, movimento estudantil parece coisa distante. Algo que, hoje, só tem "glamour". Foi com essa palavra que o estudante Jardel Sebba Filho definiu o movimento estudantil atual na edição de junho do "jornal Universitário". Jardel Sebba disse: "a articulação do movimento estudantil, em essência, tem se apegado ao 'glamour'. Só a ele."
- Sebba talvez viva em outro mundo. Não sei onde ele vê "glamour" hoje em dia. O movimento estudantil, atualmente, é preocupação de poucos e, a minoria que acredita nele como meio de transformação, não têm mais o charme que acompanhou o movimento no fim da década de 60.
- O estudante Sebba diz também que "fazem bem" os estudantes que ficam à margem de qualquer processo por "não compactuarem com a restrição ideológica". A crítica é direcionada ao PC do B, que domina a UNE e grande parte do movimento estudantil brasileiro. Concordo com a crítica, só não acho que o afastamento é solução para alguma coisa.
- O pensamento de Sebba, entretanto, não é único. Apenas representa o que muitos estudantes universitários pensam sobre a política. Quando você não entra no processo político, outra pessoa faz isso por você. Quem não entra, fica orgulhoso por estar fora da "restrição ideológica". Isso não é nada bom.
- Para uma parte dessa geração, nada mais estranho do que o horizonte utópico e os projetos coletivos que ainda animam jovens "românticos" que sonham em mudar o mundo, subverter a ordem. Em reunião sobre o Provão, há alguns meses, Jardel Sebba Filho pôs fim ao romantismo político: "Não fazer o provão, como sugere nesta reunião o colega Giordano Maçaranduba, é um projeto romântico, sem espaço hoje", decretou na época.
- Sebba talvez não saiba que a descrença na política idealista é também desesperança em nós mesmos, como indivíduos e como nação. É o culto da esperteza, mistificado na imagem do malandro, aquele que sobrevive. A tal esperteza aconselha a descrença na política e em tudo que não traga vantagem imediata, direta e "palpável". É a descrença naquilo que promete, a longo prazo, uma vida coletiva mais justa. O universitário "esperto" adota o "distanciamento irônico" de todo o processo. Costuma até entender a situação, mas prefere ficar à distância, empunhando um sorriso cínico no rosto. Assim, se resguarda contra qualquer risco de derrota ou desilusão.
- O homem irônico já morreu em vida. Escreve apenas para ser lido, como disse Sebba, na edição de outubro de 98 do INTEGRAÇÃO. Não tem nenhum projeto maior do que esse. Fazer o quê? Enquanto se orgulha da esperteza, o mundo continua aí, da mesma forma como sempre esteve.
Eduardo Horácio Jr. é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Eduardo Horácio Jr. ou para a direção do jornal.
Primeira -
Anterior -
Próxima -
Última
© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
|