Nada pessoal

Vanessa Chaves Vieira

Caro Giordano, não nos conhecemos bem. Acho que o máximo que já conversamos foram alguns cumprimentos trocados nos corredores da Facomb (Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG) ou da Rádio Universitária. Embora você nunca tenha me dado uma prova de genialidade ou de consciência política, nem por isso eu o considero despolitizado, acomodado ou imbecil. Simplesmente porque não o conheço. O mesmo não parece valer para você, que, creio eu, num momento de amargor, depois de atacar toda a sua turma, resolveu agredir gratuitamente os alunos do 2º ano, que você mal conhece.

Estou falando do seu texto "Os Incríveis Anos Ímpares". Você tem razão; sua "teoria" é no mínimo absurda, mas, com certeza, preconceituosa. Depois de ler frases nas quais você tenta rotular e criticar seus colegas de curso e outra em que você se refere ao fato de mulheres filosofarem como um "fato raro", fiquei esperando que você também dissesse que "em favela só tem malandro" ou que "todo negro é vagabundo". Você critica o egocentrismo dos seus colegas, mas em seu texto é tudo o que há. Afinal de contas, o que você chama de inteligência e politização? Presumo que os inteligentes sejam os seus amigos e os politizados, os que concordam com você.

No seu texto não há argumentos, apenas especulações. Entretanto, no esforço de tentar compreender a sua lógica, quase cheguei a lamentar o fato de ter perdido a chance de ser reprovada no vestibular 98, para poder me matricular em 99 e me tornar uma eleita do mundo ímpar. Depois, pensei que absolutamente discordo de você, porque conheci na turma de 96 pessoas "absurdamente" geniais, outras incontestavelmente competentes e outras, ainda, engraçadas, agradáveis e inteligentes - nada maquiavélicas.

Prosseguindo em minhas reflexões, lembrei que na minha turma de 98 conquistei grandes amigos, pessoas com quem tenho uma enorme afinidade e com quem espero conviver até muito, muito tempo depois do fim do meu curso. Como se não bastasse, tenho colegas de turma cheios de qualidades e de quem tenho muito orgulho. Se a sua turma é tão desunida, da minha não posso dizer o mesmo, sinto muito. Esse outro "lixo da Facomb" não se deixou contaminar pelo famigerado vírus do egocentrismo a ponto de fazer com que cada aluno mergulhe em sua própria vaidade sentindo-se incluído nas exceções que você abriu. Também é preciso lembrar que em nossa sala as mulheres são elementos extremamente participativos.

Quanto ao que você disse sobre as turmas ímpares, não posso dizer que tenha grandes objeções a fazer. Realmente, há pessoas muito competentes no 3º ano, como tenho certeza que também as há no primeiro. Por outro lado, tenho de dizer que quando não estão reunidos para defender suas idéias, muitos dos acomodados do 2º ano estão erguendo outras bandeiras, como a da solidariedade. É realmente notável a quantidade de pessoas nesse grupo que dedicam seu próprio tempo e esforço trabalhando concretamente pelo bem-estar de outros. Acho que ainda temos salvação porque, como você também previu, de vez em quando, do meio dessas pessoas comuns surgem algumas de certa expressão, como a despolitizada e ignorante camponesa Joana d'Arc, ou como Jesus Cristo, que não era nem sacerdote nem doutor da lei, apenas um filho de carpinteiro, mas que conquistou o planeta.

De resto, há pouco a acrescentar. Não, não somos jornalistas militantes, nem de legendas da situação, nem de legendas inexpressivas ou de ideologias ultrapassadas. Contudo, se um de nós assim o quiser, que o faça, se realmente acreditar no que defender. Quanto à nossa mediocridade, receio que nem todos saibamos assobiar enquanto comemos farofa, ou falar bem depressa "os três tigres tristes".

Fora isso, há algumas coisas boas no seu texto. A parte de que mais gostei foi: "revistas como (...) entre muitas outras que esqueci de citar, inclusive uma importantíssima" - que pena que ela não é inesquecível! Também achei simpática a forma carinhosa como você se refere à sua turma: "esparrela pútrida". A propósito, o título até que foi bom.

Vanessa Chaves Vieira é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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