Amarga constatação

Leandro Quintanilha Santana

O despertador toca às 5h da manhã. Sono, preguiça, bocejos, café com leite, bolachas de água e sal... Domingos sai de casa. Atravessa a garagem admirando os belos carros importados. Audi, Honda, Mercedes, Toyota, BMW... Chega à portaria.

Domingos era porteiro daquele edifício há cinco anos. Já havia se acostumado àquela vida sem surpresas, em que o amanhã era sempre igual ao dia de ontem. Não tinha família, dinheiro ou vida social. Mas se contentava com a moradia e a segurança que aquele emprego lhe proporcionava. Não possuía maiores ambições. Talvez, por nunca ter tido nada na vida.

Abre e fecha o portão, interfona e atende ao interfone, guarda e entrega chaves, recebe cartas, anota recados... Tudo parecia o de sempre naquela manhã de quarta-feira, até que o interfone toca: era o Senhor Aparício, da cobertura, dizendo que lhe daria vinte reais se, durante o intervalo do almoço, subisse para limpar a piscina. Domingos fica entusiasmado com o dinheiro extra. Nunca havia entrado num apartamento do edifício. Tinha certa curiosidade.

Ao meio-dia, sobe. Antes de entrar pela cozinha, dá uma olhada no hall social. O piso era de granito. Havia uma espécie de saleta com uma bela poltrona de veludo azul e um quadro enorme na parede. Senta-se e sente-se um nobre por alguns instantes. Domingos logo volta à realidade: a empregada abre a porta da cozinha e grita seu nome. Desajeitado e um tanto constrangido, entra.

Toda a sua casa parecia menor do que aquela cozinha. Intensamente branca. Máquina de lavar, máquina de secar, fogão automático, forno de microondas, freezer, geladeira duplex, armários... A empregada o conduz pelo apartamento. Fascinação. Passa pela copa. Gente bonita almoçando em louças sofisticadas. Cristais, talheres pesados, carnes, molhos, saladas, sucos naturais... Todo aquele luxo coloria seus olhos e, estranhamente, acinzentava seu coração. Passa pela sala principal. Abajures, sofás, quadros, estantes, tapetes, lustres... Aquela ostentação ia torturando Domingos à medida em que caminhava. Até mesmo o perfume das flores frescas nos vasos o deprimia. Sobe as escadas. No plano superior, vê um corredor. Portas, muitas portas. Chega à sala de estar. TV gigantesca, videocassete, caixas de som, frigobar... Uma porta de vidro exibe a piscina. Azul e profunda. Sauna, ducha, guarda-sol, cadeiras brancas... O Sol parecia brilhar de uma maneira especial ali.

A empregada lhe entrega o material de limpeza e o pagamento. Aqueles vinte reais já não pareciam valer tanto. Deslumbramento, inveja, encantamento, revolta... Atordoado, Domingos só então percebe quanta coisa jamais teria na vida. Nó na garganta, angústia, desespero, lágrimas, ato impulsivo: Domingos se atira do décimo andar.

Leandro Quintanilha Santana é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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