Acerca da goianidade... ou... conversando com Luís Cláudio Guedes
Lyz Elizabeth Amorim Melo Duarte
- Parece que virou moda falar de "goianidade". Nasr Chaul tem enfocado o tema e, uma vez que ultrapassou os muros da Universidade para um cargo no primeiro escalão do governo estadual, suas preocupações e até mesmo suas divagações estão sendo levadas em conta.
- Um povo não precisa de uma síntese. Justamente a pluralidade é a sua maior riqueza. Entretanto, se se faz diferença pensar a "goianidade", pode-se fazer um esforço para opinar sobre o tema. O artigo de Luís Cláudio, questionando e duvidando quando afirma que a História traz a chave para o enigma parece-me a pista mais segura.
- A crítica tecida de que, tudo ou quase tudo que imprime uma marca ao povo goiano já se encontra inscrito em outras plagas, é verdadeira. O goiano divide com o mineiro o gosto pelo pequi; a paixão pela festa agropecuária não se aproxima da "performance" da realizada em Barretos; o uso descuidado da língua não é privilégio do goiano.
- É na História que encontramos explicações para as similitudes ou para as semelhanças. Somos fruto da ocupação promovida por paulistas, mineiros, baianos, todos portugueses de origem, que nos deixaram traços de suas culturas. E esse processo de povoamento implicou em uma formação social, cultural, a ponto de não redundar em uma alteridade, com relação a esses elementos formadores. Somos, os goianos, na origem, os portugueses; somos os mineiros; somos os paulistas, os quais, em diferentes momentos, aqui aportaram e contribuíram com o crescimento demográfico. E mais do que isso, nos formaram. Em uma das últimas regiões a ser alcançada, devido a sua posição geográfica, com relação às áreas das primeiras levas de ocupação, a influência dos antigos habitantes teria que deixar marcas fortes.
- Mas mesmo esse traço não é exclusividade do goiano. O aceitar o outro "como se o outro fora" está na nossa tradição dos 500 anos. A prova disso é a nossa Língua Portuguesa. Povos dominados costumam ter um dialeto e uma segunda língua que é a do dominador. Nossos alunos, oriundos dos países africanos, nos provam isso. Quando perguntados sobre o seu idioma eles afirmam ser o dialeto crioulo. Nós, os brasileiros, não. Afirmamos, sem pestanejar, que o nosso idioma é o Português. É nesse sentido que não há alteridade. Nós somos eles. Nós não fomos ocupados. Fomos formados pelos lusitanos.
- Goiás foi alcançado por portugueses natos e por seus clones paulistas, mineiros, baianos. A influência indígena e africana nuançou a herança portuguesa. Não há como fugir das próprias origens. Mas há um traço que pode ser tomado como distintivo dos habitantes dessas plagas.
- Não gosto do termo "goianidade". A abertura para o outro, a receptividade, fruto, talvez, da necessidade de conviver com sucessivas levas de migrantes, pode ser considerado um traço do goiano. A receptividade com o outro, a aceitação do desconhecido e a habilidade de abrir seu círculo de convivência talvez possa ser considerado como sua marca distintiva. A simplicidade, a falta de afetação que predispõe a receber o que o outro tem a lhe oferecer, talvez possa ser pensado como uma marca dessa "goianidade".
Lyz Elizabeth Amorim Melo Duarte é professora de Realidade Sócio-Econômica e Política Brasileira da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da UFG.
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