Prezados amigos

Olavo de Carvalho

Somente agora pude obter a fita do Programa Juca Kfouri. Tal como lhes assegurei na minha primeira carta, eu não disse ali nada de parecido com a frase que me foi atribuída no jornal INTEGRAÇÃO, número 6, de maio de 1998: "Não existe preconceito racial no Brasil."

O que eu disse foi, em resumo, o seguinte:

A sociedade brasileira não é perfeita nesse ponto, mas, no global, estamos cada vez mais longe do racismo e nem o mais inflamado adepto da "affirmative action" ousaria sugerir que a discriminação racial entre nós é crescente em vez de minguante. Nós, brasileiros, sabemos lidar com esse problema e os americanos não sabem, não tendo portanto nada a nos ensinar a respeito, sendo de um atroz cinismo imperialista o fato de que emissários de Fords e Rockefellers venham querer moldar nossa moral e nossos costumes. Por dor de cotovelo e por vis interesses geopolíticos, os americanos estão louquinhos para provar que os racistas somos nós, sob o argumento de que nos EUA os negros ganham mais dinheiro; mas a democracia racial não consiste em ganhar mais dinheiro e sim em o cidadão branco ou preto poder andar nas ruas sem o temor de ser espancado ou assassinado por grupos de militantes racistas. O preconceito racial nunca vai acabar, porque é inerente à fraqueza humana e ninguém pode proibir a fraqueza mediante decreto. Só para dar um exemplo de como o modelo americano de integração racial é um fracasso, o número de assassinatos inter-raciais nos EUA cresce de ano para ano, como se vê em estatísticas oficiais do FBI que a grande mídia se recusa obstinadamente a divulgar. Em contrapartida, os casos de discriminação no Brasil são tão raros, em comparação com os casos semelhantes acontecidos no Exterior, que não chegam, no total, a formar um problema social sério. Muitos desses casos são aliás falsos e criados pela imaginação persecutória da mídia, como por exemplo a acusação de racismo feita contra o porteiro de hotel de Copacabana, ele próprio mulato, que barrou o ingresso de um casal constituído de um senhor germânico de 60 anos e uma mulher negra de 20, imaginando estar diante de um episódio de turismo sexual, por não saber que se tratava de um casal legitimamente casado - um banqueiro suíço e sua digníssima esposa -, coisa raríssima e excepcional que nenhum porteiro de Copacabana - ou nenhum teórico da "affirmative action" - poderia razoavelmente prever (fui morador de Copacabana e asseguro que sessentões loiros acompanhados de jovens negras e mulatas são o emblema propriamente dito do turismo sexual local).

Isso foi tudo.

Eu não poderia nem caracterizar a sociedade brasileira como racista nem negar a existência de casos de discriminação racial, pois fui testemunha direta tanto da tolerância nacional para com a miscigenação quanto da existência de pequenos enclaves racistas. Vejam: fui casado com uma mulata, da qual tive filhos que são um mostruário da esplêndida mixórdia racial brasileira, pois uns puxaram o pai, outros a mãe. Nem eu, nem ela, nem eles, jamais fomos alvo de qualquer sinal de rejeição racial, por mais mínimo que fosse. Já um amigo meu, judeu, que se casou com uma negra aliás lindíssima, foi abominado pelos parentes (poloneses de origem, que ainda mal falavam português) e, traumatizado, ficou meio paranóico, enxergando sinais de discriminação em toda parte. Daí surgiram algumas situações cômicas. Quando ele entrava num bar com aquele mulherão, todo mundo olhava, obviamente, e ele, em vez de se enfurecer de ciúme como seria normal, interpretava malucamente a coisa como racismo e saía dando porrada a torto e a direito. Nunca pareceu suspeitar que os olhares que tanto feriam no seu entender a honra de sua esposa não eram de discriminação racial e sim de pura cobiça erótica, e que aliás não seriam menos perfurantes se ele entrasse ali acompanhado da Sharon Stone.

Mais recentemente, meu filho Tales foi, com dois de seus irmãos, morar numa pequena cidade do Rio Grande do Sul, de população predominantemante alemã, inclusive com muitos habitantes que nem falam português. Tales é grandão e loiro, mas seu irmão Luís ("Gugu"), do qual ele é idêntico em traços e estatura, é bem mulatinho e, em suma, um brasileiro típico, de modo que juntos eles são como o positivo e o negativo da mesma foto. O terceiro irmão, Davi, é um pouco mais baixo e mais encorpado, moreno claro como um espanhol. Um dia o Tales entrou numa padaria e viu um alemãozão humilhando um padeirinho preto. Encrenqueiro por tradição familiar, tomou satisfações. O homem reagiu com hostilidade e o Tales, incapaz de gritar, pois é cantor e não ia querer estragar sua bela voz num bate-boca, preferiu ir para as vias de fato, de onde o alemão saiu com o nariz quebrado. Aí vieram dois parentes da vítima em busca de reparações e levaram também cada qual sua quota de pancadas. A coisa já estava virando um Missisipi em Chamas quando Luís e Davi aconselharam Tales a sair da cidade. Agora ele está morando comigo no Rio. O que ele diz a respeito do caso é altamente significativo:

- Pai: eu, o Gugu e o Davi chegamos à idade adulta sem saber o que é racismo. Agora sabemos. É preciso ir a uma dessas cidadezinhas alemãs do Sul, cheias de caipiras loiros, para sentir a diferença entre esses lugares e o resto do Brasil. Dizer que em São Paulo ou no Rio existe racismo é frescura, é coisa de gente cheia de não-me-toques que gostaria de se sentir vítima e não encontra quem a ofenda.

Esse episódio resume o que penso a respeito: existem casos de discriminação, mas eles provam, por sua própria anormalidade, raridade e monumental esquisitice, que o brasileiro, em conjunto, não é um povo racista. Quanto à diferença de nível econômico entre brancos e pretos, só um completo ignorante pode atribui-la a uma política deliberada. A causa dela foi a coisa mais óbvia do mundo: enquanto nos EUA a abolição da escravatura foi ocasionada por um desenvolvimento industrial acelerado que exigia trabalhadores livres, no Brasil aconteceu que entre a libertação dos escravos e o PRIMEIRO surto industrial decorreu nada menos de meio século - meio século de crescimento demográfico sem a menor oportunidade de emprego no meio urbano. A história, dizia Weber, é o conjunto dos resultados impremeditados das nossas ações.

Olavo de Carvalho é jornalista e autor de vários livros, entre eles "O Jardim das Aflições: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil" e "O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras".

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