Sobre o amor

Luanda Dias Schramm

Pensadores e poetas de todos os tempos procuram expressar esse sentimento, e os que estão amando pensam saber do que se trata. Sem pretensões de oferecer a definição mais correta, me arrisco a expor nesse artigo algumas idéias que venho nutrindo a respeito desse tema, tão controverso e universal, cuja compreensão ultrapassa os limites da linguagem. Aqui chamarei de amor a atitude afetiva que reintegra o ser humano a seus semelhantes e ao mundo, na eterna tentativa de superarmos nossa solidão interna, e, mais especificamente, do amor dito erótico, amor entre dois seres dissemelhantes, opostos e complementares.

Acredito que o amor não seja somente um sentimento, emoção ou paixão. Mais do que isso, o amor é um estado. Os falantes da língua inglesa dizem: "I'm in love" (eu estou em amor). É um estado vivo e involuntário. Eu o represento como uma fonte de vida que flui nas pessoas, fonte essa que não pode reter, nem esgotar, nem dosar, nem retirar de alguém para oferecer a outro. Existe ou não existe. Se existir, vai se realizar sob uma ou outra forma de relação, mesmo que não encontre reciprocidade ou esbarre em algum obstáculo externo (essa pulsão pode ser inibida em seus objetivos, mas sempre corre o risco de emergir à consciência). Amar é se deixar inundar por essa fonte, ser essa fonte e a deixar jorrar. É recebê-la e retribuí-la novamente no mesmo movimento. Amar é, a um só tempo, uma abertura, um prolongamento, uma recepção e uma acolhida. Sem se perder nem se anular. É preciso amar a si próprio como se ama o outro, não pode haver uma exclusão.

Viver um relacionamento amoroso é a oportunidade mais propícia de autoconhecimento e de crescimento. O amor é uma arte e um aprendizado. Aprendemos a amar como aprendemos a falar, através de nossas interações com nossas primeiras pessoas íntimas: especialmente nossos pais. Falaremos como eles, amaremos como eles, com pouca diferença. E o amor aprendido será como o deles e como a grande maioria, imperfeito. Amaremos e nos amaremos como fomos amados, mesmo se isso nos tenha ferido profundamente.

Essas interações, com suas carências e excessos, ficam marcadas no inconsciente e nos levam a deduzir a nosso respeito, contribuindo para a formação de nossa autoconsciência. Qualquer criança que seja maltratada deduz que não merece melhor tratamento, aprende a se ver negativamente. Internaliza sentimentos de vergonha, culpabilidade, indignidade, ilegitimidade e outros tantos que farão a tela de fundo de todas as suas relações, especialmente as relações íntimas.

Quando nos apaixonamos, acreditamos ser atraídos pelos traços de inteligência, beleza, preferências em comum; mas, de fato, o que nos atrai e nos toca numa pessoa é o que ela tem em comum com nossos progenitores. A pessoa pela qual sentimos uma irresistível atração assemelha-se a um ou aos dois pais, preferencialmente aquele com quem temos mais conflitos não resolvidos. A paixão é o meio garantido de nos obrigar a nos relacionarmos com um ser dotado de características que nos permitem reviver o passado. É assim que o relacionamento amoroso nos propicia um crescimento pessoal, porque o amor compartilhado evoca e repõe em ação o que cada um traz em si de situações afetivas não vividas e não perdoadas. Somente através da experimentação e conscientização desses conflitos é que podemos superá-los e nos libertar do passado. Pois se simplesmente reprimirmos tais conflitos no inconsciente, eles ressurgirão, sob um disfarce ou outro.

Não é por masoquismo que devemos reviver nossos conflitos passados, é porque nosso ser profundo precisa reparar uma infância sofrida. Para atingir a maturidade afetiva, temos que voltar lá onde paramos de ser crianças, nos tornando falsos adultos que compensam as deficiências dos pais. O amor revive o que ficou parado, estagnado e bloqueado. O amor ressuscita para o liberar.

Se os casais que se formam no ímpeto da paixão compartilhada soubessem que surgirá em cada um a criança sofrida e seus mecanismos de defesa, se prepararia para esse confronto. Os belos momentos do início são impregnados de uma curiosidade romântica acerca de tudo que diz respeito à pessoa amada, mas com o passar do tempo e o aprofundamento da relação, começam a aparecer as divergências e cada um se coloca na defensiva sem saber o que está lhe acontecendo. Pois, como os mecanismos de defesa são inconscientes, criam distorções na maneira de se ver os outros, o casal e a si próprio, e constróem um obstáculo à verdadeira comunicação. É muito mais fácil e cômodo projetar seus problemas no parceiro...

Os casais se separam numa fase em que as feridas do passado se misturam às atuais da relação problemática. Quando a separação não leva em conta essa realidade, os próximos relacionamentos repetirão o mesmo drama. Uma revisão honesta da nossa vida amorosa nos mostra sem dificuldade nossas repetições infelizes que se mantêm até que se faça auto-análise. Sem que cada um retome a parte que vem de sua história e das consequências sobre si mesmo e as assumir, o casal dificilmente durará. Não se pode esperar que o parceiro nos ame por todos aqueles que não nos amaram e nem que nos ame por nós mesmos.

As pessoas que amam "demais" se unem magnificamente com aquelas que têm medo de amar. O casal se polariza entre um que se entrega por completo e o outro que tudo recebe sem nada dar em retorno, pelo medo de se engajar numa compartilhação íntima. Demais em amar "demais" não significa uma medida quantitativa, pois o amor não tem graduações. Demais expressa uma distorção qualitativa entre o amor dado e o amor recebido. Entre o amor concedido ao outro e o reservado a si próprio. Amar demais nos torna plenos de cuidados, dedicação e atenção para uma pessoa, ao passo que se é duro consigo próprio. É esse desequilíbrio fundamental que torna a relação defeituosa. Fazer do outro o nosso centro de gravidade, nossa razão de ser e nossa tarefa cotidiana, é uma forma de o aprisionar e garantir sua presença. As pessoas que amam demais projetam suas expectativas no outro e se frustram quase sempre. É como se dissessem: "eu quero ser, como você o é para mim, o centro do teu universo". Esse é um amor de controle que não acredita que tal como nós somos não podemos ser amados e guardar a pessoa amada. É por falta de amor próprio que amamos desesperadamente, excessivamente. Os seres que amam demais têm uma grande quantidade de talentos insuspeitos para proteger, socorrer, preencher a pessoa que ama, mas não os emprega jamais para si próprio. Não se resolve os problemas das relações afetivas mudando de parceiro. A única solução plausível é aprender a se liberar pessoalmente dos próprios sofrimentos, aprender a se aceitar como se é e a se conhecer profundamente. Muitas vezes o respeito e a consideração de si próprio causam o rompimento. Mas dessa forma, o problema é resolvido com conhecimento de causa. É uma maneira de amar a si próprio e aos outros. Tendo chegado a este ponto, podemos amar o outro, os outros, a Terra, o mundo e o Outro.

Luanda Dias Schramm é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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