Serrinha, alçapão do inferno

Júlio César de Paula

Fiquei abismado ao assistir a partida entre Goiás e Anapolina pelo segundo turno do Goianão 99 no estádio, ou melhor, no campo da Serrinha. As duas equipes já estavam a postos para iniciar a partida, porém nenhum policiamento havia dentro do campo, nas torcidas e fora do estádio. Mas por incrível que pareça, o juiz Luís Carlos Bites iniciou o jogo. Mas o mais grave não estava aí.

A torcida da Anapolina veio em bom número, cerca de 300 torcedores para Goiânia, entretanto, os apaixonados pela "Rubra" não puderam se posicionar na arquibancada, justamente porque fanáticos e delinquentes sofredores do Goiás coagiram a torcida adversária. Membros da Torcida Organizada Rubra (TOR) tentaram colocar uma faixa para saudar os atletas do time anapolino, mas de nada adiantou. Um bando de desentendidos do futebol, que estavam sem uniforme e outros com a camisa do Goiás, ameaçaram os torcedores da Anapolina e sugeriram até ir para a porrada se eles ousassem ações maiores. Os torcedores da cidade de Anápolis, educados, não queriam sujar as suas mãos e tiveram que ficar assistindo o jogo em pé, porque nem sentar podiam, já que a repressão era muito grande. O desrespeito era total.

O jogo começou e a "coisa" continuou no mesmo estado. Após vinte minutos do primeiro tempo, quatro tímidos policiais da Polícia Militar apareceram, mas estavam tão perdidos, que entraram pelo portão que dava acesso ao gramado e as torcidas persistiam em tons de ameaças e agressão, tudo pela falta de policiamento. Percebendo que havia algo de anormal na arquibancada, dois policias se dirigiram para o local e nem a presença deles fez com que a situação amenizasse. Eles eram inoperantes e incapazes de tomar pulso para mudar o panorama que ali estava.

O mais impressionante é que três dias antes desta partida, o jogo entre Atlético e Bom Jesus não ocorreu no Serra Dourada por falta de segurança. Méritos do árbitro encarregado de apitar no Serra e descrédito para o juiz da Serrinha, mas é uma vergonha tudo que aconteceu, mas ainda bem que danos maiores não foram causados. Assistindo a tudo numa decadência e num silêncio deliberado, perguntei para mim mesmo: cadê a liberdade de expressão de um homem? Cadê a Polícia Militar que é paga para proteger a população, ou melhor o torcedor? Onde está a FGF neste momento para tomar uma providência e mudar o quadro que poderia ser pior? Será possível que os pais não podem sair de casa sossegados para levarem seus filhos ao estádio para um momento de prazer e paixão? Quando que os estádios poderão ser de novo momentos de glória sem temor e demonstração de amor sem pavor do torcedor?

Ah, mas ainda preciso dizer algo mais! Fugindo das perguntas e reflexões e falando da Serrinha, queria salientar que é uma vergonha o número de cabines de rádio e TV que têm no campo do Goiás. Para exemplificar o que relato, cito o jogo entre Goiás e Rio-Verdense , ocorrido no primeiro turno no alçapão da Serrinha. Duas emissoras de Rádio da cidade do time do sudoeste goiano, tiveram que transmitir o confronto da arquibancada e o pior, no momento do jogo, caía um temporal violentíssimo. É uma vergonha! Eu repito, é uma vergonha! Profissionais da comunicação sendo tratados como animais e sem nenhuma condição técnica e estrutural para um trabalho digno de levar a informação a um público que a tanto deseja. Mesmo depois do ocorrido, o estádio não foi interditado. O interior sofre em Goiás e em alguns outros estados, mas nem isso faz alguém tirar os pés do chão e praticar uma ação cabível. É, acho que já falei demais e espero que algum resultado possa dar. Enquanto isso, continuo com o meu discurso de exímio morador e apaixonante do interior.

Júlio César de Paula é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para a direção do jornal.

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