Afinal, o que é mesmo goianidade?
Luís Cláudio Guedes
- Após 3 anos de estada em Goiânia, não consegui atinar ainda para o verdadeiro sentido da palavra goianidade. Ao contrário dos mineiros, que têm a sua mineiridade facilmente reconhecida no estilo conservador, cauteloso e desconfiado, ou mesmo dos baianos, cuja índole alegre e sabidamente festeira traduz bem um estilo; a gente goiana parece não possuir esta qualidade-síntese que lhe garanta um rótulo diferenciador. Qual é mesmo a característica identificadora do jeito goiano de ser?
- Existe algumas possibilidades para explicar o fenômeno, mas elas mais complicam do que explicam a questão. Ser goiano, dirá uma insuspeita maioria, é se permitir trocar o CD de rock and' roll ou o último agito da música baiana no melhor da festa, pelo prazer de ouvir, no último volume, um disco quase secular da dupla sertaneja Milionário & José Rico. Ou, ainda nesta seara, jurar perceber poesia em estado puro nas rimas pobres de Zezé Di Camargo & Amigos cada vez mais endinheirados. Pode ser, mas é desmerecer um Cazuza, é ignorar Caetano. Curiosamente, gente muito mais sintonizada com o verdadeiro Brasil rural como Pena Branca e Xavantinho, e tantos outros, não encontra muito respaldo por aqui.
- O arroz-com-pequi é iguaria genuinamente goiana, dirão os amantes da culinária, da mesma forma que o queijo e o seu pão estão para a gente de Minas, ou o chimarrão para os gaúchos. A afirmação não é de todo incorreta. Mas tem um detalhe: o sertão norte-mineiro venera o pequi ao extremo de lhe dedicar uma festa nacional há pelo menos dez anos, na cidade de Montes Claros. Nesta matéria, eles têm a primazia. Portanto, não é por aí.
- Há quem afirme que goiano da gema é o fã incondicional de exposição agropecuária e das festas de peão, ainda que o rigor no traje da ocasião não indique muita intimidade com a vida no campo. Ainda nesta linha, recitar versos de rodeio a plenos pulmões seria um inigualável atributo da raça. A academia e os auto-proclamados circuitos intelectualizados torcem sistematicamente o nariz para esta possibilidade. Não sem motivo. Ela pode tirar dos goianos a prerrogativa da goianidade. A cidade paulista de Barretos seria, nesta hipótese, mais real que o próprio rei. Sem contar o fator originalidade, pois não é justo supor que a goianidade tenha nascido em berço texano.
- Quem sabe a resposta não esteja no sotaque que dobra os erres ou no uso relaxado da língua portuguesa? Pista falsa. A primeira tese não resiste a uma comparação rápida no modo de falar praticado pelos habitantes do interior paulista, do Triângulo Mineiro e aqui de Goiás. Construções do tipo "nós vai caminhar só mais um pouquinho" ou "nós foi a pé mesmo" não chega a ser um privilégio dos goianos, embora a coisa beire o limite do insuportável por aqui.
- Uma coisa é certa: goianidade não se resume a uma questão gramatical, tampouco existe um goianês. Aliás, neste aspecto, quem sabe a clonagem de humanos não pudesse ser tolerada em nome de uma boa causa. Só mesmo uma legião de professores pasquales pode salvar o português do Brasil de tanta monstruosidade.
- Teria a História a chave para o enigma goianidade? Ela seria o resultado do choque cultural entre o índio primevo e as sucessivas levas de aventureiros das diversas marchas para o Oeste? Explica, mas não convence. Goianidade é Bernardo, é Cora, é Carolina, é Stepan, é Cleo, é Siron, Leonardo, toda a gente que deu certo e o resto, são as noites sem rivais, cavalhada e festa do Divino, mouros e cristãos, caiados e ludovicos, folclore e tradição, Araguaia e galinhada.
- Como se vê, é muito e não é nada. Ainda falta resumir numa palavra. Quem souber que palavra é esta pode, por favor, fazer uso do e-mail do INTEGRAÇÃO (ufgintegranet@hotmail.com) para responder. Se você chegou até aqui e não ficou muito convencido da relevância deste tema, juro, eu quero muito saber: como forma de retribuir a hospitalidade com que fui acolhido, para melhor me integrar e para saber, enfim, de que tanto se ufana a gente desta terra.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Luís Cláudio Guedes ou para a direção do jornal.
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