Summerhill: em defesa da liberdade na educação
Marco Aurélio Vigário
- A educação das crianças é, com certeza, uma das questões mais desafiadoras da vida moderna. Nas áreas da psicologia e da educação, propriamente dita, a discussão é antiga e controversa. Para os pais que se dão ao trabalho de pensar sobre o assunto, pode ser até angustiante.
- Qual a melhor maneira de educar os filhos?
- As respostas para essa pergunta variam sempre de acordo com o momento histórico pelo qual passa a humanidade, mostrando assim o quanto se sabe pouco sobre o tema. Por diversos momentos, teve-se a certeza de que aspectos como a autoridade, a hierarquia, a obediência, a disciplina e a coerção eram imprescindíveis para fazer emergir da infância indivíduos-modelos, prontos para desempenhar seus papéis no mundo adulto. Por outro lado, em algumas oportunidades, sugeriu-se que a liberdade e a igualdade entre crianças e adultos eram a melhor saída.
- Observo em artigos de jornais e revistas que, atualmente, psicólogos e especialistas em educação infantil defendem algo mais parecido com a primeira via descrita. Esperaria-se deles, neste final de século (após tantas tentativas, tantos erros e tantos acertos), pelo menos a síntese entre as duas posições.
- Pessoalmente, acredito que esta síntese já está pronta e experimentada desde o começo do século. E, felizmente, posso dizer que o resultado é no mínimo instigante, pois tende para a segunda via. Aqui está a grande contribuição de Liberdade Sem Medo (Summerhill), do educador escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973): provar que a liberdade funciona.
- "Summerhill" é nome da escola inglesa que ousou acreditar na bondade das crianças, dando-lhes a liberdade de traçar o seu próprio caminho na vida e, consequentemente, de serem felizes. Para o diretor da instituição e autor do livro, é inconcebível que adultos neuróticos tenham a arrogância de querer determinar o que a criança deve aprender e como ela deve ser.
- A liberdade que Neill prega não é aquela liberdade total e irrestrita que todos sonham ter. É sim a liberdade real de tomar as decisões que dizem respeito à própria pessoa. É a liberdade sem licenciosidade. Em Summerhill, por exemplo, cada criança podia decidir se freqüentaria ou não as aulas e quais aulas freqüentaria, e - incrível! - a decisão era respeitada. (Mais incrível ainda é notar que após algum tempo de saudável vadiagem, as crianças pediam aulas). Já as decisões que afetavam o grupo eram tomadas em assembléias semanais, em que alunos, diretores, professores e funcionários possuíam igual direito de voz e voto. Tudo era colocado em votação: horário das aulas, compra de equipamentos, etc. Ali, a idéia de democracia e de cidadania era vivida efetivamente e não cantada em verso e prosa (como estamos acostumados nas nossas hipócritas instituições de ensino de primeiro, segundo e terceiro graus).
- As famosas idéias de Neill exerceram grande influência em muitos educadores e pais, embora algumas vezes tenham sido equivocadamente interpretadas. Retomo agora tais idéias porque trazem um pouco de esperança para quem não concorda com a forma como, muitas vezes, o sistema educacional tem reprimido as pessoas, da casa à escola, do jardim-de-infância à universidade.
Marco Aurélio Vigário é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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