Meu primeiro encontro com a morte
Cleyton Boson
- "O bandido da luz vermelha, coitado! Trinta anos trancado e... depois... aquela morte horrível! Olho pra cara do Ricardo, um meio sorriso de quem 'tá com a vitória nas mãos. Nos outros dois companheiros de mesa: o mesmo sorriso irônicorradiante".
- Que cheiro de cigarro insuportável. O gim descendo ácido enquanto corre mais uma rodada de cartas. "O terceiro mundo vai explodir!" Bressane fez mesmo um grande trabalho. Bressane? Será? Finalmente o meu segundo ás. O jogo de cartas não é um jogo de sorte, mas sim de observação. Ganha o melhor observador da alma humana. Quatro sorrisos de glória à mesa. Um hipócrita, outro de medo e um outro sonhador. Ou... talvez... todos sonhadores, hipócritas ou de medo. Ou talvez nada disso. Mas a verdade é que somente um tem o grande trunfo nas mãos.
- - Garçonete, mais um gim.
- Mais uma rodada. Minhas costas e braços coçam e o pescoço dói. Olho a garçonete. Uns 47 anos, as pernas finas e desengonçadas. Uma das mulheres mais feias que eu já vi em minha vida. Carlos sai do jogo.
- As mãos de Ricardo suam e as linhas da testa ficam mais nítidas. Ele não tem nada, mas vai manter o sorriso, pelo menos, até a próxima mão. Um cheiro forte de maconha vem do fundo do bar. Que porcaria! Odeio ficar com fissura, tira-me a concentração. Olho fixamente as mãos de seu Giusepe como forma de me ater completamente ao jogo. Mãos enormes e velhas. Enormes, velhas e cheias de veias que se mostram num estufar permanente. Impossível imaginá-las ofegantes, roçando um corpo de mulher. Parecem ter nascido para as cartas. Toda a sorte naquelas mãos vivas daquele homem de fraque e feições mortas.
- As cartas giram - estou fora, filhos da puta! - diz Ricardo, virando todo o copo de aguardente e saindo em direção ao banheiro. Seu Olegário dobra a mesa. Não posso - reconheço passando as mãos pelos cabelos. Por qual motivo? Não tenho mais dinheiro. Aposte seu braço. Meu braço? Sim, se você perder dou um tiro no meio dele. Ri alto, aliás, muito alto. O que você ganha com isso? Satisfaço meu prazer sádico de ver um homem com braço entrevado. "Ah, é? seu velho duma figa. Pois eu aposto meu braço, meu corpo inteiro, minha lama, a mulher que eu amo e toda a minha vida". Tudo bem, mas numa rodada só e... E o quê? Eu quero seu braço também.
- Giusepe distribuía a última rodada numa lentidão mórbida. Pegamos uma a uma e fixamos o olhar um no outro. Os olhos do velho brilhavam e podia-se ver uns repuxos nos cantos de sua boca murcha escondida pelo vasto bigode. Olhou meu braço direito e mostrou os dentes amarelados. Acho que você vai ficar sem bater punheta por uns tempos, menino. Quadra de Reis.
- Olhei com mais força para dentro dos seus olhos opacos, mas que brilhavam de deleite. Engoli minha vida toda e depois tive vontade de jogá-la pra fora. O estômago embrulhou, minhas mãos suavam e minhas pernas davam fisgadas. Gozei de nervoso. Quadra de ases, seu cretino!
- O rosto do velho se fechou como um repolho. Seu Giusepe, traga o revólver da gaveta do balcão. Que desrespeito é este, garoto, já tem um bom dinheiro. Não respeitas as calças, seu Olegário? O velho calou e fitou meus olhos num "você não vai ter coragem". Seu Giusepe me trouxe o 38, o velho estendeu o braço magro e decrépito sobre a mesa de mogno. Fiquei olhando sua cara. Droga! Fiquei com pena do cretino. "Terceiro mundo vai explodir e quem tiver de sapato não sobra". Aaaahhh!!!
- Quem fez o Bandido da Luz Vermelha foi o Sganzerla.
Cleyton Boson é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para a direção do jornal.
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