Um absurdo, como outro qualquer

Jardel Sebba Filho

Todo mundo pode até ser eterno e moderno, mas apenas alguns podem ser considerados poetas. Quando os meus contemporâneos se reúnem para idolatrá-los ou revisitar suas obras "literárias" dentro do universo pop, eu entendo perfeitamente o que sentia Goebbels, ministro do Terceiro Reich, quando ouvia a palavra "cultura". São várias as incompatibilidades. Eu gosto apenas e tão somente de meninas, não tenho a menor curiosidade em saber a procedência da cor do céu e sinto apenas desconforto quando o sol bate na janela do meu quarto. Além disso, nunca entendi o que seria um segredo de liquidificador, não acho que o exagero seja uma das características mais nobres do ser humano e desconheço o cheiro das classes sociais. Para completar, eu acredito ainda que "não é o que não pode ser que não é" não passa de um exercício fonoaudiológico, e dos menos inspirados. Diante de todas essas fraquezas pessoais, quase que a minha adolescência passou sem um letrista que fizesse a diferença. Quase, porque havia Humberto Gessinger, e ele salvou o meu conceito de poesia pop nos anos oitenta. Heterossexual, vivo até hoje e lançando discos, talvez pecados mortais para pretensos candidatos a mártir, Gessinger conseguiu montar um discurso no qual bobagens e pérolas se alternavam. As bobagens você já deve ter ouvido repetidamente pela imprensa. Mas alguns versos preciosos estavam lá também, e a crítica preferiu continuar criticando quem sempre foi criticado, continuar "relendo o que nunca foi lido, comprando os mais vendidos".

Talvez a minha vida também seja tão confusa quanto a América Central. Ou mesmo por também andar só por acreditar que só eu conheço o caminho. Ou ainda por me considerar parte da maioria silenciosa, orgulhosa de não ter vontade de gritar, nada pra dizer. São diversos os caminhos que me levam a Gessinger. É sempre mais difícil dizer adeus quando não resta mais nada a dizer, realmente. O que não foi impresso de fato continua sendo escrito à mão. A Holanda de 74, as bandas indie, os promotores de festas inovadoras, os transgressores comportamentais, são todos eternos e modernos, mas morrem de medo de ficar para trás, de não ser sempre mais, de nunca mais poder. Eu também trago comigo os estragos da noite, de noites que passaram, que virão e, principalmente, de noites passadas, lado a lado, em solidão. E é insuportável a certeza de que, quando o dia amanhece, nada é diferente, só chegamos finalmente ao dia de amanhã. E os articulistas do INTEGRAÇÃO são a prova mais cabal de que, de fato, nem toda falta de sentido é sentida. Gessinger sabe das coisas.

Ainda existe nele a ilusão das noites nostálgicas, nas quais se encontra gurias que já se conhecia, de outros carnavais com outras fantasias. A sugestão estúpida e sublime para que a outra pessoa desate o nó que a prendeu a uma pessoa que nunca a mereceu. O sentimento de tempo passado no mapa dos passos deixado nos pedaços que ficaram pelo caminho. A incompreensão alheia da dor, das vozes ouvidas à noite, do sofrimento e da necessidade da solidão. A constatação do fim da inocência de não querer mais ser uma pessoa só, nem uma multidão, nem nada mais que seja relevante, de já não jogar todas as fichas na mesa, deixar algumas no chão, crescer, deixar de arriscar tudo, ponderar, ser esquecido, ser comum. O susto de pensar que, justamente agora, que pode ser qualquer momento, ou se aplica a quase todos, todo mundo tenha ido embora. Não ter medo de perder alguém, já que desde o início se sabia que era só uma questão de dias, e um dia iria acontecer. As coisas mudam de nome, mas continuam sendo religiões, e por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior. Obrigado, Gessinger, sem essas constatações muitas coisas na minha vida não teriam feito sentido.

Sei que ele é odiado por muitos, e faço questão de relembrar que tenho plena consciência de que, em meio aos versos que mudaram a minha vida, convivem bobagens da pior espécie. Mas os fãs de Beatles com certeza não os idolatram por coisas como "All Together Now" ou "Old Brown Shoe", e sim pelo resto. Gostar de Humberto Gessinger é um absurdo. Um absurdo como outro qualquer, como tentar o suicídio ou amar uma mulher...

Jardel Sebba Filho é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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