As regras do jogo

Leandro Quintanilha Santana

De repente, a gente nasce. Não escolhemos quando, nem onde e nem em quais circunstâncias. Simplesmente, passamos a existir. Então, ensinam-nos o que é certo e o que é errado. Pessoas da família nos contam estórias sobre porquinhos, fadas, coelhinhos, cegonhas, bons velhinhos, mártires, anjinhos e santos. Com o tempo, nossos pais admitem que alguns desses contos fantásticos não são reais. Mas algumas estorinhas nunca são desmentidas. Talvez, pelo fato de eles mesmos não saberem ao certo se são ou não verdadeiras. Ou pior: às vezes, eles realmente acreditam nelas.

Mas um dia a gente cresce e começa a questionar tudo aquilo que nos foi dito. Mesmo que confiemos em nossos pais, não podemos ignorar a possibilidade de estarem enganados. Acontece com todo mundo. Até com eles...

A verdade, entretanto, é que esse processo não é nada fácil. Abrir mão dos nossos parâmetros pode ser muito assustador. Por vezes, não conseguimos. Ocasionalmente, no entanto, se torna inevitável. Einstein disse, certa vez, que a mente humana, depois de expandida por uma nova idéia, jamais volta ao tamanho original. Ele deve ter razão.

Quando mergulhamos na inquietação, encontramos mais dúvidas do que respostas. As antigas certezas parecem, nesse momento, ter uma credibilidade frágil demais. Quem é Deus? Ele existe? E se forem vários? E se Ele não for realmente bom? Será que "Ele" não pode ser "Ela"? Mas será que Deus tem sexo? Qual é o sentido da existência? E se não houver sentido? Por que viemos parar aqui? Como isso aconteceu? Existe vida após a morte? Existe vida antes da vida? Temos espírito ou somos apenas cérebros dotados de inteligência e sentimentos? E se o amor e a amizade não existirem realmente? Não seriam os sentimentos meras ilusões humanas?

Tanto questionamento nos deixa sem referências. Qual seria a conduta adequada? Qual deve ser o objetivo? Para quem podemos reclamar? Para quem devemos pedir ajuda? Estamos presos num universo que não conhecemos. Somos parte de um jogo cujas regras são ocultas. Não se sabe quando nem onde vai terminar. Cada escolha é um perigo. Viver é fazer apostas no escuro. Não sabemos o que podemos ganhar ou perder. Não escolhemos participar dessa partida, mas não sabemos qual preço pagaremos se a abandonarmos. Os dados (da sorte, do azar,do destino ou do acaso), quando jogados, podem mudar drasticamente as nossas posições. Para onde vão nos levar?

É por tudo isso que, em muitos casos, preferimos a alienação. Não pensar nisso ou simplesmente aceitar todas as estorinhas que nos contam são formas de evitar o medo. Acreditar em verdades absolutas, nos deixa mais seguros e confiantes. A ignorância pode ser muito confortável. No entanto, esse comportamento também pode ser muito perigoso. Afinal, não conhecemos as regras do jogo. O risco é compulsório.

Leandro Quintanilha Santana é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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