Fragmentos
Rosângela de Souza Melo
- Eu você somos um, e isto é um romance fragmentado.
- Olhar a cidade da janela desse apartamento pálido e estreito não parece ser algo muito fascinante. E não é. Sentada diante da janela, vejo amanhecer cor-de-rosa, enquanto escrevo avidamente. Preciso terminar este conto antes do sol. Você dormia um sono regado a vinho. Agora desceu pra comprar cigarros.
- Eu você somos um e essa amizade é sagrada.
- Essa amizade é sagrada, você diz, e consegue me convencer. Eu você.
- Registro um momento em meus olhos: eu você, rede de braços, brincadeira de criança. Eu dentro dos seus braços, presa tensa, porém mansa. Seu olho no meu, puro embaraço, sua respiração em minha nuca. O desejo traído pelo sorriso em minha face - eu você - odisséia sonho paranóia - eu dentro do seu olho negro dentro do meu, um riso que explode rasgado, quase anjo. Olho no meu, sopro nos cabelos. Eu você Paulo, noite de sol: vida.
- Amo Paulo. Escrevo e rasgo. Ninguém pode saber mas é assim. São minúcias que me dizem: mão fria, boca seca, ligeiro tremor no canto da boca, quando do riso pálido. Não me foi dada a condição da escolha, mas de bom grado, aceito.
- Paulo é anjo maldito. Sabe que me tem, ou adivinha, e não se entrega. Desenrola a linha e vai cedendo mais e mais até que a linha acabe. Então, serei completa: nua nau entregue ao mar. Paulo oceano: eu o amo. Sei-o porque é nele que meu coração divaga, de noite, de olho no teto. E é por ele que lateja, no tocar do telefone. Paulo e seus olhos desbotados, seus lábios lindos e o cheiro de pinho.
"Traga-me o homem, eu o quero, inteiro.
Hoje, debaixo da chuva, ressurgido de escombros,
Apenas uma capa a cobrir-lhe os ombros.
Traga-me o homem e seus desajeitos,
Seus pés descalços, suas mãos vazias,
Traga-me o homem e sua carne fria,
Seus olhos mel e sua alma nua.
Eu digo sim. Se mais não falo,
Traga-me Paulo."
- Ninguém sabe. Será que não? Eu tenho Paulo no peito, até as bordas. Rendas pra te conquistar.
- Paulo faz xixi de porta aberta, sem ligar pra minha presença. Jamais serei livre dessa cena e esta amizade é tão sagrada e tão impura quanto o amor que não é dado, mas imposto. Esta amizade é sagrada. Eu você Paulo. Será inglória recusar os braços em que se dormiu pra se deitar no colo que jamais fora meu? Esquece tal dilema. Isso é só poema, segundo Paulo.
- A cidade é febril: quente, porém doída.
- CENA I: Isso é um jardim. Há grama e pequenas flores ao redor. Estou com a cara vermelha de sol e sei que meus olhos brilham. Paulo me provoca risos e diz um palavrão. Pela primeira vez tenho vinte e um anos.
- CENA II: Esta é uma foto pra dentro, ou seja, não tem imagem nem cor. A paisagem é ocre em fundo azul-claro de céu. Trago as mãos caídas sobre as pernas, apenas por não ter onde colocá-las. O vento joga meus cabelos nos olhos na hora exata. A foto está no álbum verde, entre tantas. A foto pra dentro, pálida, essa ninguém vê.
- CENA III: Como tudo isso é tão vago, penso, enquanto sorrio, o rosto de Paulo colado ao meu: o momento me escapa. Essa sensação de vazio insaciável, quase abismo, dentro de mim. Essa dor sublime, não levo comigo. A foto sim, esta, estática, esta, fica. Quero guardar esse calor. Amanhã verei a foto. Nunca, o retrato.
- Quero agora coordenar meus sentimentos. Não raro, deixo o lado lírico invadir. Não devo. Emoção não é razão. Explico: o que sinto, jorra em segundos - sou personagem de um conto, mas existo por mim mesma, e tenho vergonhas. Não tem sentido dizer apenas: amor. Há que fazê-lo. O que há antes-depois-durante, isso é que é vida. Sou carne, mais do que alma. Se não a tivesse, amaria Paulo por puro instinto. É a pele, mais do que o dentro, que me rouba.
- Corte a cena. De costas pra janela, não tiro os olhos da porta, por onde Paulo irá entrar com os cigarros.
- O sol não chegou, mas o conto foi escrito. Estou sem Paulo.
- A brisa é cinzenta e a cidade toda cheira a mormaço. Quando se está triste, destrói-se qualquer tentativa de sorriso. Há algo nisso tudo: Paulo não me quer. Soltou o último pedaço da linha.
- Naufrago.
Rosângela de Souza Melo é estudante do 1o. ano de relações públicas da UFG.
- Mande um e-mail para Rosângela de Souza Melo ou para a direção do jornal.
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