Rosa do sertão profundo

Gilberto Gomes Pereira

Com João Guimarães Rosa o sertão vira mar: mar de proeza literária, de inovação linguística; mar profundo de vocabulário singular, único, exclusivo, que me convida a mergulhar nessas águas de palavras roseanas. O autor de Sagarana é parada principal e obrigatória no percurso da história da literatura brasileira, e até mesmo da literatura universal.

Falar de Guimarães Rosa é, sobretudo, falar de "Grande sertão: veredas". Não há nada mais prazeroso do que saber que existe na língua portuguesa tão prima obra. Ler "Grande sertão: veredas" é flutuar num oceano de aventuras insaciáveis, de imorredouras saudades, por onde o espírito navega com satisfação. Sua narrativa é bela. Faz o leitor ziguezaguear no vaivém da história em que os fatos não são contados de forma retilínea, mas atravessados, oscilando na linha geral do tema (a vivência no sertão), para um desfecho posterior.

Nesse livro, o personagem Riobaldo conta sua vida em seus tempos de jagunçagem, e fala da encantadora relação de amizade entre ele e o jagunço Diadorim. Este personagem é ambíguo, misterioso, revestido de uma sensual androginia que faz Riobaldo misturar machismo, desconfiança e sensibilidade nas manifestações cabalísticas do amor. No mesmo ambiente que se sente o amor, há também o ódio, a vingança, a morte, o que faz desse romance uma obra humanista, atual e eterna. Nela vivemos, com os personagens, sonhos, frustrações, vaidades, esperanças, tristezas e alegrias.

"Grande sertão: veredas" é fascinante porque nos dá margem para vários pontos de vista. Pode ser visto como uma história de vingança, que mostra a vida difícil e aventureira do sertão mineiro, ou como a saga de jagunços e suas relações com o poder de dentro e de fora do próprio sertão. Na verdade é um trabalho acerca dos costumes e valores sertanejos que, como os de qualquer povo, são repletos de sentimentos e ações variadas.

Eu prefiro ver tal obra como uma tragédia amorosa no sertão. Sabe-se lá o que é ser um homem valente, destemido e de convicções machistas, e de repente se apaixonar por um outro homem, por sua beleza, por seus traços suaves, lutar contra esse amor, "de Diadorim eu devia de conservar um nojo", mas, se deparar com desejos avassaladores de tocar o ser amado, de beijá-lo. "Diadorim meu amor". Porém, a dor maior, o desespero imensurável é descobrir, depois de uma batalha sangrenta, em que Diadorim morre, que este não era um homem. Era uma mulher, jovem e bela. Riobaldo amou o belo, como Aschenbach, em "Morte em Veneza", de Thomas Mann. Diadorim é filha de Afrodite com Hermes, rosa que nasceu de Rosa. A beleza que impulsiona a Arte e dá valor à vida, sem desprezar a morte.

Grande sertão: veredas. Li. Lêem. Gostamos.

João Guimarães Rosa é homem de tutano. Eu sou é descapaz dessas invencações. Pobrezice de idéias. Só leio, admirante. Homemente.

O escritor de "Urubuquaquá, no Pinhém" é imortal. Continua semeando rosas no quintal do mundo e prazer nas terras férteis dos corações humanos. Sem palavras para descrever um literato de perpétua grandeza, me recorro ao poeta de não menos importância, o "Poeta menor", Manuel Bandeira: "Rosa dos seus e dos outros,/ Rosa da gente e do mundo,/ Rosa de intensa poesia/ De fino olor sem segundo; / Rosa do rio e da rua, / Rosa do sertão profundo!"

Gilberto Gomes Pereira é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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