O deus das pequenas coisas
Jardel Sebba Filho
- Tudo seria mais simples se, realmente, tudo pudesse ser mais simples. Independente da extensão dos percalços que os caminhos adquirem, todos os aspectos do cotidiano trazem cargas pesadas demais, desnecessárias, e a celebração da grandiosidade. Mas são os pequenos detalhes que conduzem as reações definitivas, decisivas, e elas são os fios condutores da verdadeira felicidade, isso é claro, como a mulher da sua vida, ou seja, quando ela existe.
- Antes de se definir exatamente a carga de símbolos e significados das palavras que definem os sentimentos, eles simplesmente existiam e eram vividos em plenitude, sem precisar de definições. Por isso, evangélicos, católicos e afins, o início era o verbo mas ele não trouxe a luz, trouxe a dor. Não existe o deus das pequenas coisas, há o modelo magnânimo e onipotente e aqueles que o temem e outros que o invejam. Isso reflete claramente na maneira como as pessoas direcionam suas metas, como se espelham num modelo muito abrangente, muito maior do que pede o cotidiano.
- Quando me for possível parar de ler nas entrelinhas, as linhas serão entendidas com mais serenidade e atenção. Quando a noite for somente uma sequência de fatos ordenados que, lógicos ou não, acabam e recomeçam, não vai haver mais a angústia do que poderia ser feito ou do que deixa de ser dito. Quando estar nos braços de alguém for algo para sentir e não para analisar, comparar ou refletir, nenhum fantasma do passado vai adquirir o direito, que não deveria existir, de interferir no presente. Quando as coisas simples que nos acumulam a carga emocional de desgastes desnecessários puderem ser vividas objetivamente, envelhecer vai ser uma questão exclusivamente biológica, o melhor lugar para ir vai ser o andar sem destino, e a ansiedade do que está por vir e a melancolia do que não foi vão se dissipar na simplicidade e plenitude do que está sendo. Quem sabe assim eu conseguiria ver, como a maioria afirma, deus em todas as coisas, aquele que me permitiria viver o presente, sem me tentar com possibilidades inviáveis ou grandiosidades sem importância. O cabelo de uma mulher, um disco muito ouvido ou o silêncio da madrugada, são essas coisas, dentre outras do mesmo porte, que determinam o meu dia, mais que qualquer ritual, projeto ou conquista. Por isso eu precisava de um deus das pequenas coisas, porque são nelas que eu o venho procurando.
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
Primeira -
Anterior -
Próxima -
Última
© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
|