Das coisas a dizer
(... a um amor que se foi, sem me avisar o momento)

Rosângela de Souza Melo

Talvez você não saiba do grande sentido das coisas e das pequenas fúrias sobre o corpo - como eu nada sei, de fato. Talvez nos percamos literalmente pelo imenso nonsense que nos é servido e isso nos faz doer, mas nada disso pode driblar o amor.

O amor é quando nos permitimos viver sem pensar no sentido; é quando, como os cães, vivemos apenas sendo. Sendo sem se preocupar com nada mais ou qualquer outro predicativo: sendo (sem ponto final). Decerto, você jamais saberá o que é esse "sendo", como eu também não deveria tentar explicar muito. E, nesse caso, não saber produz um imenso destino, uma linha que se desata sobre as coisas. Você, imóvel, ainda diz que o amor é quando precisamos conter nossa fúria e, com isso, nos tornarmos um pouco mais sublimes nesse sentido de palavras perdidas, de sons espalhados silenciosamente sobre os lábios; é quando não nos assustamos com a tontura dos dias se sobrepondo sobre nós e limitando ainda mais. O amor é esse quando nos concedemos outros limites.

Prêmio, não é. Mas é quando nos sentimos premiados. Não sei se você entende isso ("claro que sim!" - adorava essa sua frase, suspensa para sempre, agora). O amor é quando, por nos sentirmos premiados, estamos aquém de nós mesmos, atrasados em relação aos nossos desejos. Mergulho não pode ser, mas é como se, tomados, retomados por nós mesmos, pudéssemos sobrevoar a vertigem dos anos sobre nós, anunciando que nascemos com uma sentença de morte. Ou seria sentença de vida? Você errou: nossa sentença é mesmo de vida. Viver não é muito perigoso apenas, é mais que inusitado, aleatório.

Espanto-me com minha cachorra Lua: seu amor inquebrantável é uma "prova" de que podemos ser, como se estivéssemos num passeio e toda falta fosse suspensa. Lua sabe amar e, talvez (tudo talvez e é claro que sim), você nunca pudesse ter mesmo entendido. Diante desse seu descaso, Lua achou tudo normal. Nunca perdeu os sentidos, jamais pensou senão nas coisas próximas, nas noites sem luz. Lua sabe que muitos iguais a você desaparecerão para manter tudo como está e, como está, não pergunta o que estará. Parece saber uma resposta aleatória. Lua me diz que não poderia ter sido de outra forma e depois reafirma que poderia ter sido de todos os outros sentidos, e a forma do que vai montando no seu silêncio abismal se reproduz e me conduz ao que não foi. É apenas não haver, desatar, mas você continua dizendo que tudo não passou de nada, nada e nada: sempre me diz isso e não sei que nada foi esse que te cortou até o ar, que te fez desaparecer deixando o perfume dos que sonham com um sentido leve, colado sem mistério sobre as coisas.

Sei que falamos de amor desse jeito. Será que não estamos sempre falando de amor, seus destinos e seus mortos no labirinto? Será que falar desse seu brusco "corte" não é falar unicamente de amor? Eu digo que ficamos loucos e que nada pode desendoidar a gente, e que só a Lua entende. Mas não conta - que amor não se conta mesmo.

Amor por todos os lados, alongo uma vez mais meus olhos sobre seu corpo sem sentido, cortado e calado num para sempre, é claro que sim, agora.

Rosângela de Souza Melo é estudante do 1o. ano de relações públicas da UFG.

Mande um e-mail para Rosângela de Souza Melo ou para a direção do jornal.

Primeira - Anterior - Próxima - Última

© 1997 1998 1999 Jornal Integração Todos os direitos reservados
1