Gênese do silêncio

Nazareth L. de Paula

Muitos acreditam que falar o tempo todo faz parte das necessidades naturais do organismo humano. Qualquer pessoa que fique durante algum tempo calada é considerada estranha ou problemática. Os momentos de isolamento são interrompidos por indagações como: "o que você tem?", "por que você está triste?" ou "você está doente?".

Quem fala demais, e não pára um pouco para refletir e se comunicar consigo mesmo, acaba se perdendo e esquecendo sua verdadeira identidade. Por isso, às vezes é bom retirar-se para avaliar-se a si e ao mundo que lhe rodeia. Isso não é coisa de outro mundo, não é um problema e, muito menos, doença. É algo perfeitamente natural, que faz parte do ser humano.

Ninguém é obrigado a abrir a boca e emitir sons o tempo todo. Entre dez palavras emitidas por tagarelas, dez são inúteis. E o pior é que o mundo está infestado por tagarelas chatos e inconvenientes. Livrar-se deles é tarefa muito difícil. Aonde quer que você vá tem um e não adianta ficar indiferente ou fazer cara ruim - eles não se tocam.

Se já é bom ficar em silêncio às vezes, com seres assim por perto, talvez seja melhor calar-se para sempre. Eles dizem sempre as mesmas coisas, alguns falam sobre a chuva que vai cair, sobre comidas, outros falam do último carnaval, sobre sexo, filhos e tudo aquilo que todo mundo adora comentar. Adoram conversar em rodinhas nas festas de aniversário, gritar nos corredores e sempre que te encontram, seguram bem forte sua mão, fazendo aquela velha pergunta: "como você está?", quando, na verdade, não ligam a mínima pra você.

É melhor falar pouco, quando se tem vontade, do que falar demais sem querer dizer nada, de forma maquinal. Para que ficar inventando o que dizer? O diálogo puro e espontâneo está cada vez mais distante da humanidade. Atualmente, você diz o que não quer dizer e ouve o que não quer e não lhe interessa ouvir. Quando vê um conhecido inconveniente, faz o possível para não ser visto, e se ele te encontra, você sente o peso de mil palavras inúteis em sua mente.

Como se não bastasse isso, quando você realmente tem vontade de dizer algo, não encontra ninguém que se preze, e quando encontra, não tem coragem de abrir a boca, por não estar acostumado mais ao diálogo. É incrível que a comunicação humana tenha chegado a esse ponto, mas diante de tanta artificialidade, às vezes o silêncio é a melhor companhia.

Nazareth L. de Paula é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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