Adolescência, parte dois
Luís Cláudio Guedes
- O ônibus avança o Rio no dorso calmo de uma velha balsa de travessia. Permaneci ali, por tempo indefinido, junto ao paredão do velho cais, absorto em minhas lembranças - enquanto o ar quente e seco fecha como cortina mais um típico dia de verão. Alheio ao burburinho da cidade pulsando logo atrás de mim, sinto um frio por dentro ao me dar conta do vazio que a sua ausência significaria a partir de então. Espero em vão por um aceno seu.
- Quando dei por mim já era noite, e o brilho dos faróis eram como centelhas saindo dos seus olhos. Rostos, sorrisos e cores passando. Eu caminhando, sozinho na multidão. Recordei nossos beijos na madrugada, tendo a praça como cúmplice (delícias do anonimato); o código do seu olhar, emitindo as mudas promessas que só eu sabia decifrar. O seu cheiro e o seu jeito, nada disso existe mais.
- Teria sido amor? Mas que espécie de sentimento é este, capaz de causar tanto aniquilamento? Muito deixou de ser dito no interdito da mulher dividida entre dois amores, uma sombra pairando entre nós. Ser, ou não ser (minha) - eis a dúvida que talvez nunca chegou a lhe consumir. Você não me pertenceu (eu bem sei) e a recíproca foi dolorosamente verdadeira.
- Devolva-me, pois, todas as manhãs em que, possuído pelo seu encantamento, dedicava-lhe sempre o meu primeiro pensamento. No melhor pedaço do meu bolo de chocolate a vontade de compartilhar com você, o sabor e a vida toda, e no êxtase da minha febre noturna a sua presença sempre tão etérea. Não, não foi amor! Fui mais uma vítima do seu beijo perfeito, veleidade de ser feliz na morenice da sua pele, nos cachos dos seus cabelos colher todo néctar.
- Dei tempo ao tempo - este absoluto senhor da razão -, e a sua imagem se dissipou, nada mais nem a saudade. A serenidade novamente dona de mim. Nossos livros lidos, os seus discos de tão bom Tom, os versos de Fernando Pessoa, tudo numa só poeira cósmica (por favor, queime as minhas cartas todas, ridículas por definição, e não deixe jamais vir à tona o romântico que não existe mais).
- Faço um acerto de conta com o meu passado e, que bom!, você não é mais o centro do meu universo. Nem Eros nem Ágape, nosso amor nunca existiu - nossas almas, pensando bem não eram tão gêmeas assim. Aprendi a conjugar o verbo amar do modo menos indicativo possível: tu, primeiríssima pessoa do meu singular, ficou no tempo passado. O Rio que levou você de mim rumo à terceira margem já não pode mais sorrir da minha dor. Nossa equação se fecha num estranho triângulo de dois vértices. E eu sou só, um ponto logo adiante. O outro foi mais feliz.
Luís Cláudio Guedes é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.
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