Arrepender é viver
Jardel Sebba Filho
- Há quem acredite em duendes e fadas. Há quem acredite na sinceridade das mulheres, nas letras do Renato Russo, na ditadura do proletariado, no futebol do Iranildo. Há, até, quem acredite em Deus. Eu, cético até a medula, acredito em divagações. Se Freud soubesse que tipo de profissional seus estudos estavam criando, viraria artista plástico. Se Pedro Ludovico pudesse ter dado uma passadinha na matinê de domingo da Kashmir, teria pensado melhor antes de agradar Getúlio Vargas com a transferência da capital. Se Charles Baudelaire soubesse que seus versos serviriam de instrumento para uma picuinha pessoal no jornal INTEGRAÇÃO, talvez proibisse as edições brasileiras de suas flores do mal. O arrependimento é como a mulher da sua vida, quando ela existe; anula o sentido pleno de tudo o que você convencionou chamar de passado.
- Caso a biologia continue avançando seus estudos sobre os genes e o IBGE consiga se informatizar, teremos em breve um relatório preciso da série detalhes-tão-pequenos-de-nós-dois: quantos somos, o que fazemos, quantas geladeiras existem na zona urbana de São Miguel do Araguaia, porque vamos nos desentender com nossos filhos adolescentes e que vamos todos morrer por volta dos 65 anos, isso, é claro, se a gente não morar perto de um morro carioca, não cruzar com o Júnior Baiano na área tendo a bola dominada ou não ouvir o "Closer" mais de duas vezes seguidas. Mas em nenhum momento vamos ter a noção exata do quanto somos arrependidos por ser assim ou agir dessa forma, e nunca vamos saber o quanto gostaríamos de não ser. Não dispor dessa informação me assusta.
- É um alívio, quando o mundo desmorona sobre a minha cabeça, o Mick Jagger gritando "let it loose, let it all come down..." pelos alto-falantes. Mas ele não canta isso desde 1972, estaria arrependido das únicas palavras capazes de me confortar? Será que ainda lembra de algo tão valioso pra mim? Eu realmente não consigo perceber se faz sentido idolatrar algo que o próprio autor renega, se é possível tornar algo tão valioso para sua própria vida e depois ter que assistir ao autor afirmar que se arrepende de ter escrito aquilo, logo aquilo que teve um efeito em determinados momentos que a ciência não evoluiu para acompanhar. Eu, simples mortal, me arrependo diariamente das coisas que falo, dos artigos que escrevo e principalmente da falta de coragem das coisas que eu deixo de fazer ou dizer, mas o Mick Jagger não pode se arrepender de "Let it loose". É muita crueldade.
- A história registra as guerras, as vitórias, os medos, as frustrações, os amores, mas deixa de mostrar como a gente poderia ter feito tudo diferente, e, pior, o quanto a gente preferiria ter feito diferente, e o quanto se envergonha da maioria das coisas que já estão encerradas. Não mostra o que realmente somos, somente o que convencionamos ser. O arrependimento é o mais nobre dos sentimentos. Bem lá no fundo, nos redime de toda a encenação.
- O mundo vai acabar com o Mick Jagger gritando "let it loose, let it all come down..."
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
- Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.
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