Permita-se viver

Nívea Garcia

O Ser humano é incapaz de suportar a traição. Quando falo de traição, não me refiro somente ao ato de uma pessoa ser enganada ou trocada por outra, como nos relacionamentos amorosos. Se trair fosse somente isso, seria fácil resolver o problema, mas traição envolve muito mais. É ser abandonado traiçoeiramente, ou seja, sem ser preparado inicialmente para este abandono, algo totalmente inesperado.

Não existe dor pior que a da perda. Podemos perceber o quanto as pessoas têm dificuldade de relacionarem-se, a maioria delas porque tiveram relacionamentos quebrados que lhes causaram grandes traumas, e na tentativa de não sofrerem criaram uma máscara para o coração, onde ninguém mais tem acesso, nem ela mesma. É nesta hora, quando a indiferença passa a ser o único refúgio, que as pessoas tornam-se frustradas por não conseguirem compartilhar seus anseios com ninguém, suas vidas passam a ser algo sem sentido e vazias, onde nada é emocionante o suficiente para que possa ter algum valor.

Podemos considerar os relacionamentos como uma estrada de mão dupla, onde há contínua troca, onde podemos dividir e falar de sonhos, projetos e dúvidas sem reservas no coração. O maior problema que encontramos é que os relacionamentos têm sido algo superficial, não deixamos que as pessoas nos conheçam por completo, uma via de mão única. Congestionamos nossa vida emocional devido a relacionamentos que foram quebrados, necessitamos de cura, mas é complicado reconhecermos isso.

Algum tempo atrás, tive contato com uma pessoa que permitiu que seu coração se tornasse uma pedra. Esta pessoa teve vários problemas durante toda a sua vida por ter sido abandonada pelo pai e nunca ter procurado resolver este conflito. A dor desta traição tinha sido para ela algo tão forte que ela tornou-se indiferente não somente a esta perda, mas a todos os sentimentos que a envolviam. A verdade é que assim como ela, nós queremos ser amados e aceitos da forma como somos, mas na maioria das vezes não conseguimos ver que nós também traímos, cobramos das pessoas que elas supram nossas expectativas, não entendemos que elas, assim como nós, possuem suas limitações e traumas.

É importante entendermos que, por pior que seja a nossa dor, devemos vivenciá-la. Temos que chorar as nossas perdas e esvaziarmos de nossas raivas, para que tais sentimentos não calcifiquem nossas emoções. As pessoas ao nosso redor precisam perceber que são especiais para nós.

O sentimento contrário ao amor não é o ódio e, sim, a indiferença, e permitir que ela encontre espaço no nosso coração é o mesmo que nos proibir de sermos pessoas realizadas. A maior dor não se compara a uma vida de vazios.

Nívea Garcia é estudante do 2o. ano de relações públicas da UFG.

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