O preconceito contra os belos

Alexandre Sena

O que leva uma pessoa a discriminar a outra? Via de regra, temos preconceito contra alguém porque achamos que essa pessoa possui uma ou várias características que não toleramos e que consideramos "defeitos" - umas por razões bem subjetivas, como o modo de falar ou de se vestir, e outras por motivos realmente sectários e preconceituosos, como a cor da pele ou a religião.

Mas, muitas vezes, o preconceito surge contra uma pessoa provida de alguma qualidade que nós gostaríamos de ter. É uma espécie diferente de preconceito, movida mais pela inveja e admiração recolhida do que pelo desprezo.

Quem não se lembra, nos tempos de escola, daquele c.d.f. que sempre tirava as melhores notas com a mais absoluta serenidade, enquanto quase todo o resto da turma se afadigava de tanto estudar para tirar notas menores. Se tivesse uma deformidade física - uma orelha grande, espinhas na cara ou um nariz meio torto - fatalmente o c.d.f. era isolado do resto da turma, mas não por causa desse "defeito". Os colegas diziam: "é inteligente, mas é feio", quando na verdade queriam dizer "é feio, mas é inteligente, e por isso é diferente de nós". A discriminação surgia por causa da qualidade, não do defeito, por mais que parecesse o contrário. O mesmo acontece com as pessoas consideradas "muito bonitas", e aí o preconceito se mostra mais cruel, talvez por estar mais mascarado que as outras formas de discriminação. Quantas vezes já ouvimos alguém dizer "fulana só ganhou a promoção do chefe porque é bonita", "sicrano só conseguiu o emprego porque tinha boa aparência"? Implicitamente, o que se diz nessas colocações é que "fulana" e "sicrano" não possuem nenhuma outra qualidade, senão a beleza física. É a beleza física, desde os tempos de Sócrates, a qualidade mais almejada pelo ser humano. E é, também, a qualidade mais invejada.

Muitas pessoas bonitas se queixam dessa discriminação. Elas odeiam serem notadas só por seus dotes físicos e, inconscientemente ou não, estão sempre tentando mostrar que têm outras qualidades. Ninguém gosta de ser rotulado de "bonito e burro", ou "bonito e incompetente". Ou, ainda, ninguém gosta de se sentir fraudulentamente beneficiado por sua beleza. Lembro que uma vez, quando eu era responsável por uma publicação do Centro Acadêmico da minha faculdade, uma garota considerada por 99% dos estudantes de sexo masculino como "a mais bela da faculdade" veio a mim toda constrita e desconfiada, pedindo que eu analisasse um texto dela para eventual publicação. "Por favor, quero sua sinceridade", foi o que ela disse. O que ela não disse, mas que ficou evidente, inclusive para as pessoas que estavam ao meu lado na hora, foi: "Não é por me achar bonita que você deve já ir logo aprovando meu texto. Se ele estiver ruim, se precisar de correções, seja sincero e fale".

O episódio, meio banal, acabou levando-me a fazer uma série de reflexões a respeito da minha forma de agir com as pessoas "muito bonitas". Descobri que sempre fui extremamente preconceituoso com essas pessoas. E a minha discriminação seguia por duas vias: ou eu passava a ver qualidades inexistentes em pessoas esteticamente beneficiadas (por exemplo, se eu visse uma garota bonita na rua, automaticamente já a considerava uma pessoa simpática, carinhosa, inteligente, sem sequer conhecê-la), ou eu caía no estúpido juízo de achar que esses indivíduos não tinham nenhuma outra qualidade - como se toda pessoa bonita fosse arrogante, estúpida, burra, egoísta e incompetente.

É um preconceito carregado de inveja que, lamentavelmente, muitos de nós hipocritamente carregamos. São poucos os que admitem possuí-lo, assim como são poucos os que admitem ter qualquer tipo de preconceito. Infelizmente, a impostura ainda prevalece entre nós.

Alexandre Sena é estudante do 8o. período de jornalismo da UnB.

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