Saravá Salvador!!!

Rogério V. Teles

Ôh xente my God!!!

Que barulho é esse que contagia vibrações incontroláveis nos esqueletos de todas as tribos, na língua de todas as ninfas, no coração de todos os Homens?

Que loucura é essa que alucina com cadência os devaneios caprichosos de gregos e de troianos, de devotos e de hereges, de sunitas e de xiitas?

Quem foi que inventou esse ecletismo "trilegal", "bão demais da conta", que se dissolve nas proles de Cabral e chicoteia suas raízes grudentas nos auríferos pilares que edificam uma ponte morena e mística sobre o Atlântico?

Me diga a receita dessa magia saltitante que tempera o gosto desse acarajé cultural arretado que acende o assombro até de forasteiros destabocados, leigos integrais da cocada ecumênica e do santificado azeite de folclórico dendê.

Oh céus!!! Me fale quais são os ingredientes deste caruru inflamador que assusta e apavora mas que fascina por hipnose a curiosidade e as firulas gastronômicas daqueles que mais abominam a culinária picante.

Nada de precipitações, "meu chapa". Não ouse verbalizar equívocos imperdoáveis. Não estamos na Tailândia, lugar onde até as frutas recebem tempero de dragão. Estamos na Bahia, num sabe?, lugar onde o tempero extrapola a razão de ser das especiarias e condimenta até o creme onde se banham poetas, profetas, cantores e babalorixás.

Pois olhe, "bixinho". Fique você sabendo que picolé de macaxeira no sol lento de Itaparica é porreta para gelar os beijos cozidos do sarapatel que lhe aperreia.

Há de tudo em Salvador.

Há piratas que velejam em caravelas de encanto sobre o mar de areias históricas que esturricam a retumbância salgada e pedregosa no coração pulsante do balaio de Tomé.

Existem tribos histéricas que se bronzeiam na melanina oleosa que escorre expressiva dos olhos abundantes e seculares de museus e fortes lacrimejantes.

Nem mesmo os escravos da solidão deixam de aflorar escancaradamente emoções outrora impenetráveis, quase sempre inconfessáveis. O relampejante despertar dos estímulos pueris ilumina o vaivém das gangorras obtusas que onirificam as ladeiras do Pelô.

Não tenha dúvida: essa cidade é um gigante genuflexório a céu aberto. Um território em que, de uma forma ou de outra, para o bem e para o mal, todo mundo reza, todo mundo ora, todo mundo implora. Seja no suarento íngreme que nos conduz à biografia de Jorge Amado ou no corpo-a-corpo exorcizante pilotado por sagrados batuques afro-canarinhos que banham a todos com as ondas do frenesi febril.

Oxalá que o berimbau, com sua voz quase digital, continue gritando os passos da capoeira, solando sua sinfonia magnética no fundo reflexivo do nosso quintal de tradições.

Por todos os cantos, o povo traduz em movimentos do corpo sua fé e cultura, suas crenças e emoções, seu orgulho e sua força.

"A praça é do povo". Mas na praça e na orla de todos os santos o povo ainda pede pelo que precisa, se equilibrando heroicamente nas pranchas açucaradas da esperança... São pesares dolorosos.

Há quem jure que esta onda de efeitos coloridos jamais se quebrará. Todos torcem para que a Bahia não se transforme apenas numa mera e lucrativa indústria de prazeres.

Oh!!! Pelo amor de Deus e de Nosso Senhor do Bonfim!!! Saiba degustar o âmago abençoado que banha mais que qualquer praia, que mexe mais que o axé, supera o néctar do umbu e os veios psicodélicos do candomblé.

Descubra o baiano que está dentro de você. Encontre um Brasil bordado no peito. Abrace essa ginga movida a moqueca e, por favor, liberte-se do preconceito.

Apesar dos pesares...Saravá Salvador! Viva a brisa barbada que hoje sopra suas 450 velinhas.

Rogério V. Teles é estudante do 2o. ano de engenharia da computação da UFG.

Mande um e-mail para Rogério V. Teles ou para a direção do jornal.

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