Uma triste figura

Daniela Soares

Assumir sentimentos intensos e caóticos como parte da alma não significa deixar-se encarnar pelo espírito de Dom Quixote e lutar contra demônios e por donzelas que só existem em um patético universo criado para permitir a sobrevivência de um ser carente.

A crença de que assumindo esse "caos metafísico" o sujeito poderia gozar de liberdade incondicional para criar e que tudo de verdadeiro que se constrói é produto, unicamente, da força das paixões é falaciosa.

O limite entre a liberação da subjetividade e a escravidão do pensamento é tênue. Não existe mais liberdade, e sim delírio, no momento em que o sujeito se declara prisioneiro e servo das emoções e o poder de controlá-las lhe escapa. Não há criação no delírio, ele não permite o diálogo. O sentimento e a razão lógica devem caminhar juntos. À paixão furiosa deve-se aliar a paixão reverente.

Tal aliança proporciona frente a sentimentos tão caóticos como amor, ódio, desejo e frustração, uma postura reflexiva, numa tentativa de auto-compreensão, descartando atitudes de resignação, amargura ou revolta. Possibilita a compreensão de si e de nossas relações sociais. Baudelaire e Neruda extravasaram seus delírios escrevendo, ou seja, se propunham a dialogar. Como nos contos de Kafka, a magia do faz-de-conta tem que desembocar na percepção do cotidiano. São "contos para espíritos dialéticos", como qualificou W. Benjamin.

É através do diálogo entre as paixões e a razão que se chega à conclusão de que nem toda ação é inútil. Acreditar no contrário, não é ser idealista e sonhador, é tornar a vida sem esperanças, é cobri-la com um véu de desilusão.

Compreender as condições de interação de almas com naturezas íntimas diversas, que habitam mundos simbólicos diferentes, resultando de experiências únicas vividas por cada um e utilizar esse conhecimento - convidando o outro, de maneira sutil, "a uma fantasia", deixando de "falar grego com sua imaginação" - pode ser uma ação eficaz.

A saudade é um estado de alma que evoca uma presença já ausente, que a faz retornar como uma imagem fugidia que brilha por um instante sob uma luz intensa, antes de desaparecer novamente na escuridão. A saudade "é o pior tormento" exatamente por fazer ver nessa presença efêmera, a perda evidente. Ter essa consciência não exclui a dor, mas pode evitar que se comprometa o futuro em nome de algo, que já fez parte do passado.

Aquele que diz amar seguindo apenas as determinações de sua lógica passional e irracional é uma personalidade delirante, inflexível, maniqueísta e ditatorial. Esse "idealista", ao recitar extasiado seus grandes, impossíveis, sentimentos e ideais, ao culpar "esse mundo mau" pelos seus sofrimentos, dogmatiza funebremente sobre o que não sabe. Está a representar seu drama de mártir, a ostentar, com estranho prazer, sua tragédia. Acredita ser um herói, porém não passa de um "Cavaleiro da Triste Figura".

Daniela Soares é estudante do 3o. ano de jornalismo da UFG.

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