O mal de ter nascido câncer
Jardel Sebba Filho
- Muito se discute sobre o mundo moderno. São novas tecnologias, novos padrões de estilo, a era da informática, o avanço social da mulher, a internet, e todo aquele senso comum que todo mundo já cansou de ouvir, mas não de repetir. É moderno ser nordestino e montar uma banda de ritmos regionais, é moderno citar Baudelaire e os articulistas da revista Bravo, é moderno ouvir bandas que ninguém nunca ouviu falar, é moderno fazer política estudantil - ainda que com a ineficiência prática e as palavras de ordem do século passado, é moderno ler o último livro do Jô Soares, é moderno bolar projeto sem a menor viabilidade de ser posto em prática. Eu também queria ser moderno, afinal, como já tive a oportunidade de colocar em dois artigos anteriores, ser diferente não é para qualquer um. Mas tenho um problema; sou de uma espécie que não tem a menor condição de sobreviver no mundo moderno: o canceriano.
- Tivesse a minha mãe aceitado a sugestão do médico e feito um parto normal, nada disso estaria acontecendo. Eu provavelmente estaria planejando a viagem pro exterior depois da formatura, repleto de amigos, cheio de planos e sem olhar pra trás. Mas, tendo perdido a grande chance de nascer leonino, acabei por integrar aquele grupo de marcados pelo destino, que trabalham para tornar o mundo melhor para todos a sua volta, menos para eles mesmos. E, já que o mundo moderno está cada vez mais se sectarizando na proteção dos direitos das minorias, quero pedir a todos que terão filhos que planejem para que estes não nasçam entre Junho e Julho. Não há mais espaço para cancerianos no mundo.
- Ser nostálgico, todo mundo é um pouco. Mas, ficar vivendo o presente como uma eterna recordação, viver sob a idéia que antes sempre foi melhor e assistir a passagem do tempo com medo, aí já é demais. Não bastasse isso, ainda tem o humor instável, de quem acorda o mais feliz do mundo e, na hora do almoço, quer morrer, e quer mesmo, apesar de ninguém acreditar. O sentimentalismo detalhista, que leva a comoção por pequenas coisas, que faz chorar a qualquer hora, e que, as vezes, aparenta ser sem motivo, mas que na verdade simplesmente é, por uma série de coisas que vão acumulando, que se recusam a ir embora, e que o resto do mundo nunca vai entender, porque não há verbo que explique.
- Não há mais espaço para aquele que se ofende ou se vangloria com um aperto de mão, ou uma palavra mais rude. Muito menos para pessoas que se apegam a outras pessoas por qualquer gesto de boa vontade, ou mesmo na ausência de um. Para aqueles que amam e odeiam com a mesma intensidade, e não conhecem nenhum tipo de meio termo. Não cabem mais no mundo atual aqueles que se sentem sozinhos na multidão, e precisam dela para se perder e para estar sozinho. Gente que divaga o tempo todo sobre o que poderia ter sido, e não foi, gente melancólica, desanimada, derrotada antes de entrar em campo. Gente que sente, de repente, uma enorme vontade de ir embora, sem maiores explicações.
- E por isso que, uma vez que os cancerianos não conseguiram mudar o mundo para um lugar mais sensível, é melhor evitar o sofrimento de ter alguém emotivo demais por perto em tempos que não admitem mais esse tipo de postura.
Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.
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