Aos meus detratores

Jardel Sebba Filho

Acabo de ler a última edição do jornal, de outubro deste ano, e se torna inevitável não fazer alguns comentários a respeito das três matérias, que compuseram uma página inteira, cujo destino foi o de comentar o meu último artigo, sobre o famigerado Chico Science, que, vale lembrar, já morreu e virou mártir, na mesma proporção que Tancredo Neves vai ser eternamente lembrado como o melhor presidente do Brasil.

Uma das intervenções, do rapaz do primeiro ano de radialismo, eu sinceramente acredito que dispensa qualquer tipo de comentário. O que ele acha que é interessante e julga genial não é inédito nem no meu prédio. Mistura de ritmos foi a base do rock'n'roll em si, que juntava os ritmos latinos e sua sensualidade com a guitarra eletrificada do blues. A mistura de tradição e modernidade, ou "modernismos", como eu preferiria intitular, também é mais antiga que a prostituição. A Motown, gravadora norte americana nascida nos idos dos anos sessenta, surgiu dessa idéia, em cima da tradição da música negra norte-americana, como o gospel e o jazz, envolvida com artistas da então nova geração, que traziam os elementos, ainda prematuros, do que mais tarde veio a se transformar no funk, no rap e nas misturas atuais, ou já nem tanto. O problema, que o articulista parece não perceber, ou oportunamente ignora, é a qualidade e a autenticidade disso. É muito fácil impressionar uma massa pobre de ídolos e de idéias, que consome vorazmente tudo que lhe é imposto como bom, até pelo medo do ônus de ser diferente. Essa máscara muitas vezes nos impede de avaliar com um mínimo de critério o que está sendo consumido e, na minha modesta opinião, Chico Science é um exemplo linear desse caso. Isso porque seu maior sucesso não é seu, é de Jorge Mautner; e conhecer os elementos tradicionais da cultura recifense qualquer sociólogo conhece, nem por isso atormenta os nossos ouvidos com gritos ininteligíveis prontos para serem adorados. Nunca consegui assistir a nada em que Chico estivesse envolvido no qual ele dissesse alguma frase com sentido, verbo e predicado. O português nem é tão essencial, mas talvez o sentido, o sentido... Viva Zapata ??? Como assim, me explica como se eu tivesse uns seis anos ? Me explica como se eu fosse um fã de Chico Science, por favor ???

Daniela Soares é a que menos me perdoa. Não, eu não tenho a tendência, nem remota, a creditar críticas como a dela na minha conta pessoal, muito pelo contrário, admiro bandas e artistas como os ingleses do New Order, que brigavam fisicamente por uma ordem de músicas ou por uma linha de baixo, saíam de lá e iam beber juntos. Pergunte à Fernanda Guzzo (feguzzo@zaz.com.br), minha parceira de Conexão Arte (que, eu não sei por que cargas d'água, vocês ignoram na divulgação dos programas da Rádio dentro do jornal), em que única vez nos desentendemos; justamente por causa disso. Mas, isso posto, gostaria de dizer à Daniela que não quero converter ninguém a nada, até porque um fã de Chico Science é, irreversivelmente, uma alma culturalmente perdida. O slogan que sugeria matar seus ídolos ao lado da adoração dos meus era, se você não entendeu, uma tentativa de dicotomizar essa discussão, tão subjetiva e tão inútil. Porque me aventurei por ela, então ? Porque a prefiro a ter que divagar sobre o preço da Telebrás, o quanto eu poderia ter amado e não o fiz ou sobre a falta de um assunto relevante para escrever - que na minha modesta opinião deveria resultar na ausência de artigo -, justamente para estimular a resposta de vocês, que teriam outra opinião e logo se levantariam para defender o pobre nordestino carente de idéias mas repleto de frases vazias. Você, que transita com tanta facilidade no terreno do pluralismo e da democracia, primeiro não deveria revidar uma agressão que não lhe foi direcionada, por mais que as dores sobressaiam, e depois poderia usar esses conceitos para relevar que a minha opinião, por mais cáustica que pareça, é somente uma opinião, que não pretende cativar hordas de contingente humano para suas trincheiras, mas simplesmente ser exposta, goste você ou não. O que você chama de atacar grosseiramente eu prefiro considerar como... opinião, e talvez, se você considerar que eu não tenho nenhum outro motivo para escrever aquele artigo, possa acreditar em mim. Independente disso, gostaria de te pedir duas coisas: primeiro, praticar o que prega; depois, o endereço de Sérgio Augusto de Andrade, já que eu vou ter que submeter meus artigos aos seus conceitos ( imposição? Semelhanças? Sérgio Augusto? Vamos lá, eu volto a ter seis anos de idade...).

Finalizando meu comentário sobre essa saraivada de críticas, gostaria de agradecer meu amigo Giordano Maçaranduba pelas palavras, absolutamente exageradas, sobre o meu artigo. Não perca a crença, eu continuo gostando de Humberto Gessinger, sem comer verduras e tomando muito café, incapaz de amar plenamente, como os outros merecem, e preocupado com o futuro da carreira solo do Morrissey, tudo continua o mesmo. Recife continua lá, e lá poderia ficar, quem sabe para sempre.

Crianças, eu não vim com a Nação (???) Zumbi no seu ouvido falar, mas continuo acreditando no INTEGRAÇÃO como proposta e como veículo, apesar dos "Viva Zapatas"...

Jardel Sebba Filho é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

Mande um e-mail para Jardel Sebba Filho ou para a direção do jornal.

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