Tu, que eu teria amado II: mea culpa do idealista
(À Daniela com as minhas e as suas palavras)

Cleyton Boson

Quem se utiliza das palavras dos outros para expressar sensações, comete o erro de expor sentimentos que não são seus. Ou não possui as emoções das quais fala, ou tem medo de assumir esse "caos metafísico" como sendo parte de sua alma.

É sempre fácil falar pela boca dos outros e se emocionar com a dor alheia. Não se corre o risco de tornar-se um cretino idealista e sonhador. Em outras palavras, um fraco desprezível que se deixa levar pelas emoções. Quem amaria um frasco? Quem amaria um ser que se entrega com uma intensidade insana a um sentimento tão efêmero e louco como o amor? Este fracassado, este doente, este alucinado, merece a indiferença total. Deve sofrer sozinho, e em silêncio, sua ousadia ridícula. Os fortes se mantém inabalados, vivendo as emoções de Baudelaire e Neruda sem que seja necessário exporem-se às mesmas loucuras vividas por eles. Ora, escreveram o extravasamento de seus delírios. O que era impossível guardar só para eles.

Alan Poe e Antônio Maria não morreram de overdose alcóolica para chamar a atenção. Hemingway não se meteu em tantas guerras com o intuito de se destacar entre os jornalistas da época. O que escreveram e suas ações foram tentativas, desprezadas, de preencher o vazio que lhes devorava.

Conscientemente se tem a certeza da inutilidade de toda e qualquer ação. O inconsciente, no entanto, necessita da prova concreta. O amante se percebe buscando algo que não sabe o que é, em um lugar desconhecido no qual ele tem a consciência de que nada encontrará. Mas é nesta estranha busca que deposita sua existência passada e futura. O presente é um estado letárgico de quase não existir.

A relação com a dor é o que se pode chamar de ato esquizofrênico: por um lado a dor é uma sensação quase insuportável, mas representa, também, a continuidade do amor destruído. O fim da dor significaria a morte da emoção, mais pura e doce, experimentada pelo espírito amante. De uma forma paradoxal, essa doçura e pureza estão presentes na dor.

O Chico se engana quando afirma que o apaixonado não correspondido amaldiçoa o objeto do desejo. Nessa eu fico com Cazuza: quem ama sempre protege o nome do ser amado. Quem amaldiçoa não sente amor.

Em resumo: quem ama, sem temer as conseqüências deste ato irracional, é uma criatura das mais desprezíveis por seu caráter débil, que só fomenta preocupação e irritação a quem com ele convive.

Eu sou daqueles medíocres seres humanos que crêem na possibilidade dos sonhos e na força das paixões como promotora de toda construção humana. Quanto aos grandes e fortes homens, a literatura está repleta de intensos sentimentos que podem ser vividos nas horas de folga.

Cleyton Boson é estudante do 4o. ano de jornalismo da UFG.

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