Quando o pouco é muito

Melissa Cristina Rodrigues

Era uma vez uma professora. Seu nome era Guiomar. Deu aulas para muitos colégios em todo o Brasil. Nos últimos anos, deu aula em um colégio de freiras em Curitiba. Mas, o que há de especial nela? Muita coisa, na verdade. Ela é uma mulher especial. Uma das pessoas mais humanas que já vi.

Guiomar tinha marido e muitos filhos. Trabalhava muito, e nas horas de folga preenchia seu tempo com algo totalmente incomum a qualquer pessoa normal. Ela pegava uma garrafa térmica, alguns pacotes de bolacha e copinhos de plástico e ia para uma das belas praças do centro de Curitiba. Escolhia um banco para se sentar e ali ficava. Até chamar a atenção de alguns ilustres curitibanos habitantes das ruas da capital ecológica. E os pequenos curitibanos iam se atraindo pela senhora, e ela os servia de chá e biscoitos. E era simpática. E era carinhosa com eles. Era mais que solidária; era humana. Talvez uma das poucas pessoas que fez com que aquelas crianças se sentissem gente. Ela conversava com eles. Dava afeto. Escutava-os.

- Tia, não entendo porque chamam a gente de criança de rua. Eu não nasci nem do poste, nem da árvore, nem do asfalto. Eu nasci de uma mãe e de um pai.

E a tia Guiomar era amiga da "piazada", como se diz lá em Curitiba. Acreditava que o afeto cura tudo. E que a falta de afeto que aquelas crianças tinham e têm, destrói mais que a fome, a sujeira e as drogas. A rejeição de uma sociedade que quer varrê-los como sujeira para debaixo do tapete. Foi aí que Guiomar quis falar de Deus para as crianças. Ela era formada em Teologia. Falava de um Deus de amor, de bondade, e todo o discurso da Igreja sobre Deus. Mas as crianças disseram que nunca haviam visto esse Deus. E sim outro.

- Tia, aqui a gente conhece o Deus da fome, da sujeira, do frio, do esmalte, da cola, da droga, da porrada dos policiais, dos tiros, do estupro, do medo, do "sai prá lá piá!". Esse Deus da senhora a gente não conhece.

Mas Guiomar não desistiu. Continuou a insistir que havia sim um Deus de amor e bondade. Não desistiu nem mesmo quando foi presa por servir chá para as crianças, acusada de, de quê mesmo? Ah, acusada de formação de quadrilha. Um dia ela quis dormir junto das crianças, para ver como era passar uma noite em uma das esquinas do calçadão da rua XV, um dos cartões postais da capital paranaense. Como será que é passar uma fria noite curitibana no aconchego da rua? Eu não sei. E ela também não pôde saber pois seu marido e um de seus filhos a impediram de fazer isso. Mesmo assim sua amizade com as crianças continuou. Teve um dia em que ela recebeu uma ligação a cobrar. Era um de seus pequenos amigos.

- Tia, estou te ligando porque vou morrer daqui a pouco - o garoto falava com grande dificuldade - daqui a pouco vou conhecer o seu Deus!

E ele morreu depois de algumas horas. Seu organismo não resistiu à intoxicação da cola e demais componentes de coquetel mortal ingerido pelas crianças na falta de um prato de arroz e feijão e um copo de leite quente. Ele era apenas um menino, uma criança. Um ser humano. Mas essa é uma cena comum do nosso cotidiano. A gente se acostuma com a violência e a miséria, mesmo porque não há outra saída.

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Essa é uma história verídica. O contato que tive com a professora Guiomar foi pouco, mas o suficiente para que nunca mais esquecesse suas lições. E sua pessoa. Talvez se pessoas como ela fizessem parte do cotidiano, e fossem comumente encontrada, nós poderíamos nos acostumar à solidariedade. E eu confesso, que de nada adianta a posição privilegiada de poder estudar e teoricamente fazer alguma coisa para mudar nossa sociedade, se nada ou quase nada tenho feito para ajudar outros seres humanos. Viver só para mim mesma não tem sentido. Não é preciso fazer exatamente como a Guiomar fez. Se cada um fizesse muito menos, mas fizesse alguma coisa dentro de suas possibilidades o resultado seria gigantesco.

Melissa Cristina Rodrigues é estudante do 2o. ano de jornalismo da UFG.

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