Sobre o devaneio democrático-individualista
Luiz Roberto Cupertino
- Não há nada que soe mais belo e carregado de conteúdo moral como a afirmação: "vivemos em uma sociedade extremamente individualista". Me sinto realmente tocado. Mais, me sinto perplexo. É para mim uma afirmação totalmente nova, e a cada dia me renovo diante de tal estultice. Os pessimistas, filósofos, sociólogos, e cientistas do jornal integração precisam fazer um exame de profundidade de pensamento. Tenho constantemente lido reflexões infantis, para pessoas que já habitam o universo mágico da universidade (e são intelectuais, pois fazem curso superior). Estas reflexões quase me fizeram confundir informação e conhecimento, democracia e individualidade, mundo e tragédia insolúvel.
- Retirando os espíritos profundos que escrevem neste jornal (eles sabem quem são), proponho-me aqui, com toda a minha arrogância, a fazer considerações que podem auxiliar um método melhor de refletir sobre a realidade, e de uma vez por todas livrar-se dos bordões espalhados pelos corredores intelectualóides. A primeira reflexão se refere à confusão entre democracia e individualismo (ou liberdade, num segundo momento).
- De fato, aquele que se propõe a dizer que vivemos em mundo individualista se encontra um pouco fora de sintonia. Ele está pressupondo que os homens possuem atividade espontânea, pensamento original, afirmação constante e criativa do próprio ego, sentimentos e atitudes autônomas, e quer, dono de sua índole sensacional, somente aquilo que realmente sua liberdade determina. Seguir a ambição pessoal, esta é a marca do individualismo para o espírito raso e pueril. O indivíduo que está seguindo a trajetória da ambição pessoal é justamente aquele contrário ao individualismo, ele é uma peça da engrenagem econômica, seus pensamentos são cópias de livros de auto-promoção, ele é como querem que ele seja. Democracia não é poder votar em seus governantes apenas. Aliás, isso é muito pouco. Apesar da democracia, o homem se encontra cada vez mais distante de sua liberdade, de se afirmar como indivíduo, ele é cada vez mais impotente diante de um poder maior, seja ele a Economia, Deus, ou o Padre Marcelo.
- Vivemos em uma sociedade onde o indivíduo praticamente inexiste. Estamos subordinados e gostamos de ser subordinados, visto que é mais seguro estar sob a tutela de um líder, compartilhar suas glórias como adorador, do que procurar afirmar uma personalidade individual e original, procurar engendrar pensamentos e atitudes espontâneas. Salvam-se poucos. Talvez alguns artistas, filósofos e cientistas. E não há desespero nessas mãos que escrevem. Conheço o individualismo, não o misturo com tentativa inescrupulosa de auto-promoção (isso é escravidão voluntária). Nossa sociedade é uma conglomerado de subordinados a poderes superiores (a economia cada vez mais veste a coroa de espinhos). Não se alcança individualismo coletivo numa sociedade desigual. Paradoxal e saudável.
- Nunca fomos individualistas, nunca conhecemos o que é a atividade espontânea, a liberdade original. A conquista desta liberdade, no entanto, é fruto de uma catarse afetiva e intelectual. É um processo que qualquer ser disposto pode efetuar. Vejo o mundo com olhos sorridentes, e com olhos de escárnio vejo também os pessimistas, que são pessoas preocupadas demais com o erro alheio. Mas o pensamento criativo sempre possuirá a sua morada, desde que ele se proponha a refazer seus laços com o indivíduo, que habita o recôndito lar de deuses adormecidos.
Luiz Roberto Cupertino é estudante do 4o. período de filosofia da UCG.
- Mande um e-mail para Luiz Roberto Cupertino ou para a direção do jornal.
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